Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Paulo Vanzolini, o cientista da canção

Paulo Vanzolini ganhou os braços da população brasileira com canções como Ronda, Volta por cima e Boca da noite








Marina Tavares

Há aqueles que apenas vivem a vida. Há os que se designam a missão de compreendê-la. Para isso, a observam em silêncio. Dela, extraem o sumo – a matéria- prima de sua essência; recombinam seus elementos, seus comportamentos, e a representam. Por representá-la, a ressignificam – a vida e a todos nós. Um desses homens foi Paulo Vanzolini, e o foi com maestria.

Caminhando por São Paulo, Vanzolini observou suas personagens, seus amores,suas juras de morte, seus anseios.Pelas margens do Rio Amazonas, pelas matas do interior do país, observou a natureza e seus comportamentos.

Conheceu gente, conheceu planta e conheceu bicho. Trouxe, como flor trazida na mão, cada um de seus aprendizados; nos presenteou com pesquisas científicas reconhecidas mundo afora e com grandes canções que nos reconhecem peito adentro. Veio de uma linha em que o zoólogo dialogava com as Ciências Sociais e Humanas, em que o curso de Medicina lhe sensibilizava para a poesia, em que a ciência, a cultura e a arte poderiam caminhar lado a lado; uma coisa era uma só coisa, e pulsava viva diante dos olhos.

“No fundo do chão eu botei raíz/ A seiva do chão eu bebi feliz (…)”

Formado em Medicina pela Universidade de São Paulo e doutorado em Harvard, por 31 anos foi diretor do Museu de Zoolofia da Universidade de São Paulo. Especialista em répteis, ao longo de mais de 40 anos de ofício recolheu uma enorme quantidade de espécies. Escreveu aproximadamente 150 artigos e é considerado um importante colaborador do mundo científico.

Paulo foi homenageado com cerca de 15 táxons, dentre eles o primata Saimiri Vanzolinii, registrado em 1985. Foi premiado com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico e com o prêmio da Fundação Guggenheim.

“De noite, eu rondo a cidade, a te procurar, sem te encontrar (…)”.

Foi através da música que Paulo Vanzolini ganhou os braços da população brasileira. Canções como Ronda, Volta por cima e Boca da noite têm cadeira cativa no cancioneiro popular do país. Ao lado de Adoniran Barbosa, é, sem dúvida, um dos maiores compositores paulistanos (e brasileiros!) assim como um dos grandes símbolos da cultura da cidade.

Ronda – lançada em 1951 em um lado B de um disco de Inezita Barroso, mas consagrada através da voz da cantora Márcia em meados dos anos de 1960 – retrata a mulher amargurada que, premeditando um crime, percorre a noite em busca de seu alvo, o amante causador de sua infelicidade. Para o compositor, a canção foi uma piada não compreendida. Segundo ele, poucos perceberam o verdadeiro sentido da letra e a adotaram como uma espécie de “hino paulistano”. E não o seria?

Ainda hoje, ao caminharmos pela Avenida São João, pelas vielas do centro de São Paulo, possivelmente escutaremos ao fundo a tão conhecida melodia, entoada em karaokês e botequins por tantos os que vivenciam sua atmosfera, que se reconhecem em sua desilusão.

Em 1962, na inesquecível voz de Noite Ilustrada, é lançada Volta por cima. “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima” se torna frase costumaz em nosso dia a dia; uma das recomendações mais proferidas em momentos de fragilidade; frase que ultrapassa a canção e se transporta para o cotidiano do brasileiro. Porém, cabe sempre lembrar do apontamento do autor: o importante mesmo, mais do que a volta por cima, é reconhecer a queda!

Daí para adiante, foram muitos os clássicos: Praça Clóvis, Boca da noite, Cuitelinho – sendo a última uma música de domínio público, recolhida por seu amigo Antoninho Xandó, que a aprendeu com um barqueiro durante viagem pelo Rio Paraná, e na qual Vanzolini acrescentou um trecho da letra.

Em parceria com o compositor e violonista Eduardo Gudin, compôs a incomensurável Mente, posteriormente gravada por Clara Nunes. Com o também compositor paulistano Roberto Riberti, compôs Todo mundo me diz, uma exaltação à boemia, escrita por Vanzolini nos anos de 1940 e musicada por Riberti há alguns anos. Pouco se fala, mas Paulo também escreveu a letra para o clássico Pedacinhos do céu, choro de Waldir de Azevedo.

Em relato em documentário do diretor Ricardo Dias, Vanzolini discorre sobre a acuidade em se mexer em terreno tão delicado: o de colocar letra em uma música instrumental de tamanha importância. Segundo ele, era um projeto antigo, que foi sendo depurado ao longo do tempo. “Tens nos teus lábios dois favos de mel/ E os teus olhos são pedacinhos de céu”.

A letra pode ser ouvida na voz da cantora Ana Bernardo, esposa do compositor. Ao longo de 36 anos, lançou apenas quatro discos: Onze sambas e uma capoeira (1967), A música de Paulo Vanzolini (1974), Por ele mesmo (1981) e Acerto de contas (2003). Poucos, porém, grandiosos. Dentre os muitos intérpretes que gravaram suas canções estão nomes como Ney Matogrosso, Chico Buarque, Paulinho da Viola, Elton Medeiros, Maria Bethânia e Ângela Maria.

“Quando eu for, eu vou sem pena/ Pena vai ter quem ficar (…)”

Paulo Vanzolini nos deixou no último 28 de abril. Foi saudado e homenageado por grandes nomes de nossa música, amigos íntimos e colegas do mundo científico. Ao longo de 89 anos de intensa produção, nosso artista da ciência, nosso cientista da canção dedicou- se a olhar; entregou-se à generosa missão de observar o comportamento da natureza, o comportamento de nossa própria natureza, e depois nos explicar, pelo filtro de seus olhos.

Para ele, o tempo – parafraseando Carlos Drummond – foi a sua matéria, o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.

(Foto: Rodolfo Lopes/Sesc)