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Parada do Orgulho LGBT: Para o armário, nunca mais

Parada do Orgulho LGBT aumenta o tom político e protesta contra ofensiva de setores conservadores religiosos











Foto: Heloísa Ballarini/Secom



Patrícia Benvenuti

da Reportagem

Parado em uma esquina da Avenida Paulista com a Rua Itapeva em São Paulo, F.J., de 45 anos, chamava a atenção de quem passava. Vestido com uma sunga, asas de anjo nas cores do arco-íris e botas pretas de salto altíssimo, ele aceita conversar com a reportagem. “Mas sem câmera, né?”.

Logo revela o motivo da preocupação. É professor de educação física em Fortaleza e teme sofrer algum tipo de represália por participar do evento. “Sou funcionário público, fica complicado”, explica.

Há sete anos, F.J. não perde uma Parada do Orgulho LGBT em São Paulo por nada. É casado há nove anos, mas seu companheiro prefere não acompanhá-lo. “Ele é mais velho, não gosta mais dessas coisas”, diz o professor que, mesmo só, não deixa a animação de lado. “Adoro isso aqui”, diz.

O temor de F.J. se baseia no preconceito ainda existente na sociedade, que segue a passos lentos quando o assunto é diversidade sexual. Para dar um fim à discriminação e dar visibilidade à causa de gays, lésbicas e outras identidades de gênero, foi realizada em São Paulo, em 2 de junho, a 17ª Parada do Orgulho LGBT, reunindo milhares de pessoas.

Diferente de outros anos, nos quais alguns críticos apontavam uma “despolitização” do evento, a Parada de 2013 foi marcada por um tom político mais forte. Com o tema “Para o armário, nunca mais! União e Conscientização na luta contra homofobia”, a manifestação foi um protesto contra a ofensiva promovida por setores conservadores contra direitos já conquistados pela comunidade LGBT. “Não queremos voltar a viver em guetos ou ter nossas relações não reconhecidas”, afirma o presidente da Associação da Parada do Orgulho GLBT de São Paulo (APOGLBT), Fernando Quaresma, que garante: “Para o armário a gente não volta mais. Para a clandestinidade e a marginalidade não voltamos mais”, completa.

Segundo Quaresma, em vez de retrocessos, o movimento reivindica avanços. “Queremos melhorias e a igualdade de direitos prevista em Constituição”, afirma. Uma das conquistas mais recentes da população LGBT foi a decisão do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), em maio, que proíbe cartórios de todo o país de recusar a celebração de casamento civil de pessoas do mesmo sexo ou de negar a conversão de união estável de homossexuais em casamento.

Liberdade

16 trios elétricos animaram a Parada LGBT deste ano, que saiu da Avenida Paulista em direção à Praça Roosevelt, no centro da cidade. Atrás do último carro seguiam as estudantes Carol e Kimberly, de 19 e 17 anos. Juntas há três anos, elas se divertiam ao som de música eletrônica. As duas vivem em São Paulo e já participaram da Parada em outras edições. “É muito legal, é um momento de liberdade”, diz Kimberly. “Aqui a gente pode ser a gente mesma”, completa Carol.

Outros, porém, estreavam na Parada paulistana. Acompanhada de duas amigas, Amanda Alves, de 23 anos, vive em Goiânia e contou ter adorado a experiência. Ela diz que, embora nunca tenha sofrido violência física, são constantes os constrangimentos que passa diariamente. “Na rua, o povo fica apontando, olha lá, é travesti”, conta.

Para Amanda, é fundamental cobrar o respeito da sociedade, mas antes é preciso vencer a discriminação contra travestis dentro do próprio movimento LGBT. “Todas nós [travestis] somos vítimas de preconceito, mas para acabar com isso tem que acabar com o preconceito que existe dentro da comunidade LGBT”, aponta.

Fora Feliciano

Uma das presenças mais aguardadas da Parada LGBT este ano era a da cantora Daniela Mercury que, recentemente, revelou sua união com a jornalista Malu Verçosa. Ao longo de seu show, Daniela fez críticas ao deputado Marco Feliciano (PSC-SP). “Feliciano, qualquer maneira de amor vale a pena”, afirmou Daniela, depois de cantar “Paula e Bebeto”, parceria de Caetano Veloso e Milton Nascimento, que tem o refrão “Qualquer maneira de amor vale à pena”.

Sob muitos aplausos, a cantora pediu ainda que o público exerça a democracia e se manifeste contra a permanência de Feliciano na Comissão de Direitos Humanos da Câmara. “Se a gente não for para rua dizer que não queremos uma certa pessoa na comissão, ele vai continuar lá”, disse Daniela, acompanhada no carro pela ministra da Cultura Marta Suplicy e pelo deputado federal Jean Wyllys (Psol-RJ).

O repúdio a Feliciano foi constante em toda a Parada. Além dos discursos nos trios elétricos, manifestantes carregavam cartazes com sátiras ao deputado, que tem se destacado por declarações e ataques homofóbicos e racistas.

Na Comissão de Direitos Humanos, ele tenta aprovar o projeto que autoriza tratamento psicológico e terapia para alterar a orientação sexual de homossexuais. O projeto, intitulado de “Cura Gay”, tem sido alvo de protestos do movimento LGBT e de setores da sociedade civil.

Não nos representa

A figura de Marco Feliciano, para o presidente da APOGLBT, mostra o peso das questões religiosas na tomada de decisões no país. Por isso, segundo Fernando Quaresma, a luta pela conquista de mais direitos passa pelo combate ao fundamentalismo religioso. “Estamos lutando para lembrar que nossa Constituição prevê que o Estado é laico. Nenhum dogma religioso pode fundamentar ou pleitear um direito”, destaca.

De acordo com Quaresma, além de não representar a sociedade, o deputado não possui representatividade nem ao menos junto ao setor religioso cristão. “O deputado Feliciano, junto com alguns outros [deputados], não representa sequer o segmento religioso e cristão como um todo porque ele tem oposição de muitas pessoas. Inclusive do movimento cristão, que é a base dele”, afirma.

Um grupo de evangélicos foi à Parada provar isso. Usando perucas, óculos e outros apetrechos coloridos, eles seguravam cartazes com os dizeres “Me dá um abraço, Jesus te ama”, distribuindo abraços e sorrisos a quem passasse.

Miguel, que preferiu se apresentar apenas como “um filho de Deus”, explicou que o grupo reúne membros de diferentes igrejas evangélicas. Em comum, entre eles, há a luta contra o preconceito e a homofobia. “Somos contra o preconceito, pregamos a liberdade. ‘Conhecerão a verdade e a verdade os libertará’”, ressalta Miguel, citando um trecho bíblico. Ele assegura ainda que todos ali mantêm um bom convívio com os homossexuais que frequentam as suas igrejas. “Somos todos irmãos”, diz.

Avanços

Apesar de já estar na 17ª edição, a Parada do Orgulho LGBT ainda causa estranhamentos. Dona Filomena, de 74 anos, passava pela Paulista enquanto voltava de uma missa na Catedral da Sé. Ao dar de cara com a multidão, parou alguns minutos para observar. “Acho tudo feio e exagerado”, confessa. “A gente não tem preconceito, mas é muito exagerado”, opina a idosa.

Pérola Sancchys, no entanto, acredita que, aos poucos, a sociedade vem aceitando melhor a população LGBT. A transformista, de 25 anos, foi à Parada portando sua faixa de “Miss Plus Size Gay Rio Grande do Sul”, título conquistado há pouco mais de um mês.

Agora, ela representará o estado na etapa nacional. Gerente de um restaurante em Curitiba, ela afirma contar com o respeito tanto de funcionários como de clientes do estabelecimento. “O pessoal me aceita super bem, sou tratada como Pérola no meu trabalho”, exemplifica. Para a jovem, a Parada vem acertando ao agregar questões políticas ao clima de festividade. “É muito bom envolver esses assuntos em um evento como esse e mostrar que nem todas as pessoas são iguais. Enquanto uns querem a violência, outros querem a paz”, diz.

Foto: Heloísa Ballarini/Secom


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