Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

A cultura do automóvel e a construção de uma sociedade mais justa

Em 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro é celebrado por associações civis, grupos políticos, sindicatos e ativistas em cidades de todo o planeta


Daniel Santini

Hoje, 22 de setembro, o Dia Mundial Sem Carro é celebrado por associações civis, grupos políticos, sindicatos e ativistas em cidades de todo o planeta. Trata-se de uma data em que se propõe a reflexão sobre o uso do automóvel e se questiona a priorização do transporte individual privado em detrimento dos sistemas públicos coletivos e/ou alternativos.

É fácil listar os impactos sociais e ambientais provocados por tal opção nas cidades brasileiras. Em vez de ampliar a rede de metrôs ou investir na melhoria do transporte público, as autoridades optam por destinar cada vez mais recursos para ampliação de avenidas e construção de viadutos, tudo para garantir a infraestrutura necessária para tantos carros. Tal lógica não resolve o problema dos congestionamentos. Quanto mais precário é o transporte público e melhor a infraestrutura para os carros, mais gente opta por dirigir; não é à toa que é cada vez mais grave imobilidade das principais capitais do país. Tal lógica só beneficia grandes construtoras e outros grupos que tem tido importante papel no financiamento de campanhas de políticos dos mais variados partidos e bandeiras políticas.

Além de ineficaz, insistir em asfaltar cada vez mais a cidade é também perigoso e insustentável. Ao aumentar a superfície permeável, amplia-se também a quantidade de enchentes e o risco para quem mora em áreas vulneráveis. Sem falar que, para tantos carros utilizarem o sistema, é preciso aumentar mais e mais a velocidade. Ignora-se o número indecente e a gravidade dos acidentes de trânsito (e o impacto de tal aumento nos índices nos sistemas de saúde público e previdenciário) em prol do fluxo. De novo, quem não tem dinheiro para utilizar um carro, vive cada vez mais ameaçado. As cidades são hostis para pedestres e ciclistas, cadeirantes, crianças e idosos.

Falar da poluição provocada por tantos carros circulando é quase covardia. A estimativa de Gustavo Faibischew Prado, professor de pneumologia do Hospital das Clínicas e um dos principais especialistas no assunto do Instituto do Coração (Incor), é de que nada menos do que dez pessoas morrem por dia por problemas diretamente atribuíveis a poluição em São Paulo. De novo, o impacto é sobre quem mais deveria ser tratado com cuidado e atenção: os mais atingidos pela péssima qualidade do ar são crianças, idosos e pessoas com a saúde já fragilizada.

Cúmplices

É claro que não será de uma hora para outra que tal lógica será abandonada. Não dá para de repente simplesmente fechar as montadoras e desativar toda cadeia produtiva deixando milhares, talvez milhões, sem emprego ou perspectivas. Definir, porém, que as mudanças são necessárias e começar a trabalhar por elas deveria ser prioridade para o país – e isso nada tem a ver com medidas como a redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) de automóveis, recentemente adotada.

A pressão da sociedade civil pode ser decisiva para dar início às mudanças. Optar por utilizar menos o automóvel, escolher o transporte público sempre que possível e considerar alternativas como a bicicleta estão relacionadas a esta resistência. E o Dia Mundial Sem Carro pode ser uma data chave para que tais transformações aconteçam.

Já existem articulações por avanços. Algumas como o Movimento Passe Livre (MPL) ou as Massas Críticas, como caráter abertamente anarquista. Outras com viés mais institucional, formadas como representação da sociedade civil, como a Associação dos Ciclistas Urbanos de São Paulo. Ninguém está satisfeito em ficar horas parado no trânsito – seja sozinho em um carrão confortável, seja socado em um ônibus com mais 50 cotovelos ao redor. As transformações acontecerão, tem que acontecer.

Mas que ninguém se iluda. Há interesses e alianças poderosas que oferecerão toda resistência possível à construção de uma sociedade mais sustentável. Nas palavras da doutora em Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo e ex-secretária de Habitação e Desenvolvimento da cidade, Erminia Maricato:

“A indústria do automóvel não envolve apenas a produção de carros (incluindo aí a exploração de minérios, a metalurgia, a indústria de autopeças e os serviços mecânicos de manutenção dos veículos) e as obras de infraestrutura destinadas à sua circulação. Somentes nos processos citados já teríamos o envolvimento de forte movimento econômico e, portanto, de significativo poder político. Mas a rede de negócios e interesses em torno do automóvel vai bem mais longe, envolvendo inclusive o coração da política energética, estratégica para qualquer projeto de poder nacionalista ou imperialista. Exploração, refinamento e comercialização do petróleo, com as extensas e significativas redes de distribuição constituem, na verdade, a parte mais importante na disputa por poder no mundo. (…) O capitalismo tem necessidade da expansão ilimitada. É de Karl Marx a demonstração da tese de que não é o consumo que determina a produção mas o inverso, a produção é que determina o consumo no modo de produção capitalista. (…) Produção pela produção e consumo pelo consumo. Uma vasta máquina de propaganda acompanha a indústria do automóvel. A construção de toda uma cultura e de um universo simbólico relacionados à ideologia do automóvel ocupa cada poro da existência urbana. (…) Ao comprar um automóvel, o consumidor não adquire apenas um meio para se locomover, mas também masculinidade, potência, aventura, poder, segurança, velocidade, charme, entre outros atributos”.

É hora de resistir.

Daniel Santini é jornalista e autor do blog OutrasVias (http://outrasvias.com.br), do portal ((O))Eco (http://www.oeco.com.br/)

Em artigo publicado na edição sobre A cultura do Automóvel da revista Ciência&Ambiente, da Universidade de Santa Maria.