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Mobilizações em disputa

Motivados pelo preço das tarifas de transporte, brasileiros vão às ruas e promovem as maiores mobilizações das últimas décadas











Foto: Pablo Vergara




Patrícia Benvenuti,

da Redação

Junho de 2013 deverá entrar para a história. Depois de duas décadas sem mobilizações massivas, o Brasil foi sacudido nas últimas semanas por intensas manifestações, que levaram às ruas pelo menos um milhão de pessoas. Até 21 de junho, haviam sido registrados protestos em 438 cidades, segundo a Confederação Nacional de Municípios.

O estopim das manifestações foram os atos encabeçados pelo Movimento Passe Livre (MPL) contra o reajuste das tarifas de transporte público. Inicialmente reprimidas pela polícia, as mobilizações dos estudantes foram ganhando fôlego e apoio, especialmente via internet. Logo, a questão da mobilidade urbana tornou-se apenas uma pauta em um mar de reivindicações, que transitam de temas como melhorias na saúde e na educação até combate à corrupção.

Participação

A onda de protestos em meio à Copa das Confederações causou surpresa a governos e à própria sociedade, que ainda tentam entender os porquês e a força do fenômeno.

Para o jornalista e presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé, Altamiro Borges, o caráter massivo das manifestações mostra a necessidade de mais mudanças no país. “Apesar dos avanços ocorridos nos últimos anos, há um descontentamento. Se quer aprofundar as mudanças”, avalia.

Membro do Diretório Nacional do Partido dos Trabalhadores (PT), Valter Pomar também atribui as manifestações a uma insatisfação social, que vem acompanhada de uma vontade de participar dos processos políticos. “Como em outros momentos na história, esta insatisfação e essa vontade emergiram de forma basicamente espontânea, atropelando todos os partidos e movimentos sociais, inclusive o próprio Movimento Passe Livre”, considera.

Na avaliação do professor da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (USP) Laurindo Leal Filho, o desejo reprimido de participação por parte da sociedade é uma herança dos anos 1990 e do neoliberalismo que marcou a década. Para ele, a lógica individualista proposta por esse modelo vai de encontro ao desejo natural de associação e mudança por parte da juventude. “Você tirou de duas gerações, pelo menos, a possibilidade de fazer algo para melhorar a sociedade, o país e o mundo. O que aconteceu nos primeiros dias foi o destapar de uma panela que estava sob muita pressão, e isso acabou indo para as ruas”, explica.

Outra característica importante das mobilizações atuais, segundo o professor da Universidade Federal do ABC (UFABC) e pesquisador de redes digitais Sérgio Amadeu, é o fato de elas serem gestadas pela internet, o que lhes confere um caráter descentralizado. “Eu diria que foi um tsunami. A origem do movimento de placas tectônicas foi a redução da tarifa, mas isso gerou uma onda de mobilização em rede e que trouxe para a rua uma série de microlideranças e movimentos específicos em solidariedade àquela questão”, diz.

Guinada à direita

Se o início dos protestos foi marcado por posições progressistas, com o passar dos dias as mobilizações assumiram um tom diferente. Aos poucos, questões sociais foram deixadas de lado e perderam espaço para pautas como corrupção e desperdício de verbas públicas. A realização das obras da Copa virou alvo de fúria e sinônimo de gastança para os manifestantes, a maioria pertencente à classe média.

Mas o que teria motivado, em tão pouco tempo, a mudança de foco nos protestos? Para Altamiro Borges, a resposta está no comportamento da mídia hegemônica. Ele recorda que as primeiras mobilizações do Movimento Passe Livre foram duramente criticadas pelos veículos, que se referiram aos jovens como “vândalos” e “baderneiros”. Editoriais dos jornais Folha de S.Paulo e O Estado de S. Paulo chegaram a pedir ações mais “enérgicas” da polícia contra os manifestantes.

A situação, no entanto, mudou a partir do 4º ato contra o aumento da tarifa em São Paulo, em 13 de junho, quando a Polícia Militar atacou violentamente não só manifestantes, mas profissionais da imprensa e moradores da região da Avenida Paulista.

Com a repercussão da brutalidade nas redes sociais, segundo Altamiro Borges, as empresas de comunicação perceberam que não havia mais como se contrapor às mobilizações. Um símbolo disso, para ele, foi a “mudança” de postura de Arnaldo Jabor. “A mídia é muito hábil, muito flexível. Os caras agem de acordo com os interesses políticos deles”, afirma o presidente do Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. Para o professor Sérgio Amadeu, a estratégia adotada pela mídia foi disputar a pauta do movimento, a fim de fazê-lo atender às suas próprias demandas. A principal delas, hoje, é opor-se ao governo da presidenta Dilma Rousseff. “Eles [mídia] querem conduzir a disputa para uma oposição de direita ao governo Dilma, é isso que está em questão”, afirma.

“Se você não pode vencê-los, una-se a eles”, afirma Valter Pomar. “Foi o que parte da direita e do PIG [Partido da Imprensa Golpista] fizeram: tentar capturar o movimento e direcioná-lo num sentido específico, derrotar o PT e o governo Dilma”, completa o membro do Diretório Nacional do PT.

Para o professor Laurindo Leal Filho, a insistência com o tema da corrupção como mote dos protestos é a maior prova dos interesses da mídia. “É uma pauta que tende a conduzir para um golpe como foi em 1964 e como tentaram contra o Lula em 2005”, analisa.

Disputa

Outro sintoma do crescimento da direita nas manifestações é o fortalecimento do discurso “antipartidário”. Marcado pelo grito de “sem bandeira”, seus seguidores tentam impedir, ao máximo, a presença de bandeiras ou outros símbolos de organização partidária, social ou sindical nas manifestações. O caso mais grave ocorreu no 6º ato do Movimento Passe Livre em São Paulo, onde grupos neonazistas armados hostilizaram e agrediram militantes de esquerda.

Para o professor de Literatura Latino-americana da Universidade de Tulane (EUA) Idelber Avelar, a rejeição da população aos partidos é um reflexo da falência do sistema representativo institucional. No entanto, ele lamenta o nível de intolerância que tomou conta das manifestações. “É muito lamentável que estejam hostilizando militantes do PSTU, PCO e Psol, que estavam nas ruas lutando por várias dessas bandeiras em uma época em que não era fácil lutar”, afirma.

“Não existe democracia sem partido, a bandeira dos sem partido é a bandeira do nazismo”, afirma Altamiro Borges. “É um momento de ser contundente contra essa onda de violência e de barbárie que essa turma tenta impor”, complementa.

Além de ir às ruas, o professor Sérgio Amadeu sugere que a esquerda fique atenta às movimentações que ocorrem na internet, atraindo, assim, os jovens para o seu lado. “O desafio da esquerda é conseguir colocar um conjunto de proposições que atraia os jovens, os internautas, e que consiga que o seu ideário e as suas propostas tenham mais apoio”, pontua.

Foto: Pablo Vergara


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