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A favela agora virou a alma do negócio

Estado policial militarizado e a entrada do mercado geram novas tensões para a favela











Foto: Pablo Vergara



Gláucia Marinho e Katarine Flor,

do Rio de Janeiro (RJ)

A política de intervenção militar nas favelas cariocas, implementada por meio das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), está completando cinco anos. Nesse período, um novo cenário foi criado nas áreas empobrecidas da cidade. A imposição do Estado policial militarizado e a entrada do mercado geram novas tensões para a favela. A elevação dos preços dos aluguéis, a restrição do direito ao lazer (proibição do baile) e a criminalização do modo de viver provocam a saída de muitos moradores antigos sem precisar de tratores ou tiros.

No Rio de Janeiro, mais de 20% dos habitantes vivem em favelas. São cerca de 1,3 milhão pessoas em 763 comunidades, que movimentam R$ 13 bilhões por ano. Este valor supera o Produto Interno Bruto (PIB) de diversas capitais brasileiras como Florianópolis, Natal e Cuiabá.

“Com a instalação das UPPs nas favelas, o capital pode se instalar nessas regiões com algum nível de segurança jurídica e patrimonial, que antes ele não gozava”, afirma o professor da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Rodrigo Castelo.

Mercado

E isso vem acontecendo massivamente desde a instalação das primeiras UPPs. O mercado está de olho no potencial de compra dos moradores destas localidades.

“O poder econômico da favela é muito forte”, avalia Romualdo Ayres, diretor de Sustentabilidade na Associação Brasileira de Franchising. Todas as franquias brasileiras juntas faturarão, em 2012, quase R$ 14 bi. Enquanto isso, o PIB das favelas é de R$ 13 bi.

“A disponibilidade de renda desse povo todo é quase a disponibilidade de renda de todas as franquias do Brasil. Tem toda uma alimentação econômica deixada pelo tráfico que precisa ser substituída”, afirma Ayres.

Sobram histórias de empreendimentos bem sucedidos em favelas, mesmo antes da implementação das UPP, como o curso de idiomas Yes, na Rocinha. A unidade instalada no morro tinha 750 alunos matriculados, bem acima da média das 550 matrículas registradas nas demais unidades da cidade. A entrada massiva das empresas nas favelas evidencia um interesse financeiro por trás do discurso de segurança pública. A SKY chegou no Jacarezinho um dia antes da entrada da polícia.

De acordo com o Sindicato da Habitação do Rio (Secovi/RJ), o Rio ganhou pelo menos mais um componente inflacionário com a criação das UPPs. Deste então, em algumas favelas e morros, os preços dos imóveis foram valorizados em 100% ou mais. Além do custo dos imóveis, a regularização dos serviços de luz e água, sem programas específicos para pessoas de baixa renda, eleva o custo da vida na favela e inviabiliza a permanência dos antigos moradores. Atualmente, o teleférico do Morro do Alemão recebe mais turistas do que o bondinho do Pão de Açúcar. Chegando a registrar, em novembro de 2012, mais que o dobro das visitas recebidas pelo Pão de Açúcar, tradicional cartão postal do Brasil.

Cadê Amarildo?

A UPP não é só um projeto econômico. A abordagem agressiva e o controle do cotidiano, marcado por uso excessivo da força, tem desencadeando muitas vezes reações dos moradores que acabam criminalizados ou até mortos. Só neste ano, três casos já tiveram grande repercussão.

Em março, o menino Mateus Oliveira Casé, de 17 anos, foi vítima de uma parada cardíaca após ser eletrocutado por um PM da UPP de Manguinhos.

Em abril, Alielson Nogueira, de 21 anos, morreu com um tiro na nuca, enquanto comia um cachorro-quente, durante uma confusão entre moradores e policiais da UPP do Jacarezinho.

O caso mais atual é o do pedreiro Amarildo de Souza, de 47 anos, desaparecido desde o domingo (14), na Rocinha. Amarildo havia voltado de uma pescaria quando foi chamado por policiais militares da UPP para averiguação. Amarildo foi visto entrando na sede da UPP na favela, mas até hoje não saiu.

Foto: Pablo Vergara