Brasil de Fato

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Marighella, lutador do povo: organizador, elaborador, anti-burocrata


16/11/2009Pedro Carrano, de Curitiba (PR)Em noite marcada por poesia e análise sobre os caminhos da esquerda na década de 1970, o debate sobre Marighella serviu de um espelho invertido, ao refletir sobre questões que, inevitavelmente, trazem à luz problemas para os revolucionários de hoje. Ricardo Gebrim, da Consulta Popular, e Cláudio Ribeiro, advogado trabalhista e militante à época dos anos de chumbo, trouxeram elementos que caracterizaram a militância de Carlos Marighella, o contexto no qual viveu e definiu a linha de ação da Ação Libertadora Nacional (ALN), organização construída por ele, após o rompimento de grande parte da esquerda com o Partido Comunista Brasileiro (PCB). O debate, feito no dia 9, teve a organização do jornal Brasil de Fato, em Curitiba e o apoio do Sindicato dos Engenheiros do Paraná (Senge-PR).Marighella, na voz de Gebrim, militou em um longo período histórico no qual a esquerda brasileira aglutinou-se em torno do Partido Comunista Brasileiro (PCB), ferramenta que sintetizava as diferentes forças de esquerda e hegemonizava uma leitura de país e do caráter da revolução. Foi um dos chamados ”ciclos de esquerda” na história da luta de classes no Brasil, ciclo que dava sinais de esgotamento e se acelerou após o golpe civil-militar de 1964. Na avaliação de Marighella, conta Gebrim, ”o PCB perdia a perspectiva do poder, a partir de uma relação subordinada do proletariado em relação à burguesia”, avalia. Outros ”ciclos” das organizações da classe como este nos podem remeter ao início do século, com o movimento anarquista. Desde os anos 1980 até o final da década de 1990, o Partido dos Trabalhadores (PT) representou esta meta-síntese para a esquerda brasileira.Neto de uma negra e escrava ”haussás” e de um operário italiano, Marighella é aprisionado aos vinte e um anos. Seria apenas a primeira vez de um militante que apostava no trabalho com a juventude e não se burocratizou. ”Marighella desenvolveu o conjunto de atividades de um revolucionário: agitador e tribuno parlamentar (1946), enfrentou os cárceres da ditadura (1932), escrevendo um texto ‘Quando fores preso camarada’. Além disso, o mini-manual do guerrilheiro urbano até hoje é lido pelas escolas militares da burguesia”, comenta Gebrim, ressaltando a capacidade de a repressão renovar-se e aprender com as formas de lutas populares, daí a impossibilidade de copiar antigos formatos nos dias de hoje.Uma análise do pensamento revolucionário de Marighella, expresso na obra ”A crise brasileira”, aponta que a teoria de Marighella não se resume a um tratado baseado no ”foco” guerrilheiro, mas aponta a necessidade do trabalho com as massas, a partir do exemplo pedagógico, apontando a necessidade do poder. A partir de uma linha estratégica, a concepção de organização de Marighella visava a aproximar também outros setores para o projeto do proletariado: os camponeses, professores, estudantes, e camadas da pequena burguesia.Gebrim chamou a atenção de que, na tradição revolucionária latino-americana, Julio Antonio Mella e, antes, as idéias de José Martí, foram fundamentais para orientar a estratégia do Movimento 26 de julho, que chegou ao poder em Cuba. O mesmo aconteceu na Nicarágua e El Salvador, quando os movimentos revolucionários da década de 1970 recuperaram os heróis tombados na década de 1930. Neste sentido, a simbologia e identidade é um elemento importante para a luta. ”Fundamental porque nos apontaram o caminho para a nossa revolução”, comenta.Já Cláudio Ribeiro lembrou que o debate acontecia na mesma data (09) quando a direita celebrava a queda do Muro de Berlim. O militante recordou que a época na qual ele e Marighella militaram, a juventude enxergava o horizonte da revolução como palpável a curto prazo. Nos anos 1960, naquele contexto de ascenso da luta de massas, a poesia e o estudo teórico faziam parte da vida dos militantes. ”Hoje debatemos fatos, e não mais a teoria por trás deles. Os revolucionários todos têm uma ligação estreita com a poesia – expressão mais concentrada e transparente de todos os elementos”, define.