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Prefeitura descumpre acordo e leva tensão para Vila Itororó


22/04/2010 Patrícia Benvenuti Da Redação A tensão entre a Prefeitura de São Paulo e os moradores da Vila Itororó, no centro de São Paulo, tem ficado mais forte neste ano. Erguida durante os anos 20 pelo tecelão português Francisco de Castro, a Vila Itororó é a vila urbana mais antiga da cidade, e a extravagância de sua construção rendeu-lhe, na época, o apelido de “Casa Surrealista”. (leia A história do palacete “surrealista” que virou a casa de gente simples) A Prefeitura tem planos de transformar a vila em um centro cultural, sob responsabilidade da Secretaria Municipal de Cultura. Para isso, no entanto, pretende remover as 250 pessoas que habitam no local. Os moradores, porém, reclamam da falta de diálogo por parte da Prefeitura e acusam a Secretaria Municipal de Habitação (Sehab) de descumprir um acordo já firmado. Acordo O acordo ocorreu em 30 de novembro do ano passado, durante uma reunião entre a Associação de Moradores e Amigos da Vila Itororó (AMAVila) e o secretário de Habitação, Elton Santa Fé Zacarias, para discutir o futuro das famílias. O acordo estabelecia que uma equipe técnica nomeada pela Prefeitura poderia iniciar as medições da vila, que daria subsídio ao projeto de reurbanização do local. Foi acertado, no entanto, que seriam realizadas apenas as medições externas, de todas as áreas comuns da vila. Já as medições internas, dentro das casas, só poderiam ser autorizadas depois de uma reunião com todos os moradores. Em contrapartida, as famílias permaneceriam na vila durante o período de medições, estimado em um ano e oito meses. No final, os moradores seriam encaminhados para unidades habitacionais construídas pela Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU) em um prédio na rua Conde de São Joaquim, localizado próximo à vila. Medições No final de janeiro, uma equipe da empresa de consultoria Diagonal Urbana, contratada pela Secretaria Municipal de Cultura, iniciou as medições externas, que duraram entre 15 e 20 dias. Em seguida, os técnicos passaram a pressionar para fazer as medições internas, mesmo sem o consentimento dos moradores. A coordenadora da AMAVila, Antonia Souza Candido, conta que chegou a ser procurada por um dos técnicos, que pediu a chave de uma das casas para realizar a medição. A atitude, de acordo com ela, contraria o que foi combinado na reunião. “Estão desrespeitando um acordo que fizemos dentro do órgão”, afirma. Antonia relata que as casas dos idosos são as mais visadas pelo grupo responsável pelas medições. De acordo com ela, os técnicos, acompanhados por uma assistente social, chegaram a ameaçar com força policial os moradores que não permitissem seu ingresso nas residências. Os moradores também foram “avisados” de que não ganhariam casas da CDHU caso impedissem a entrada da equipe. “A gente quer contribuir, mas não desse jeito, por meio de ameaças”, diz o morador Edivaldo Santos. Pressa A equipe técnica informou à Associação de Moradores que pretende realizar a medição de quatro casas por dia. Como a vila é composta por 37 casas e um palacete, a tendência é de que os trabalhos sejam concluídos muito antes do período de um ano e oito meses inicialmente previsto. “Nós estamos vivendo um terror psicológico. A falta de respeito está imperando, e a pressa é absurda”, afirma. A pressa dos trabalhos, pra Antonia, é justificada pelo interesse em desocupar rapidamente a vila para dar início às obras do centro cultural. Apesar da pressão e das dificuldades, Antonia garante que os moradores continuam dispostos a lutar e que só sairão com moradias garantidas. “O que fortalece é a nossa resistência e a certeza de que estamos certos”, destaca. Os moradores reivindicam agora uma nova reunião com a Sehab , mas pedirão que o encontro seja realizado na própria vila, a fim de que todas as famílias possam participar, e não apenas uma comissão. Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa da Secretaria Municipal de Cultura divulgou apenas que está trabalhando em um projeto de restauração da vila, junto com o arquiteto Décio Tozzi, que participou do primeiro plano de reurbanização da área em 1976. Segundo a pasta, o projeto deve ser finalizado até agosto deste ano, e as obras estão previstas para começaram no início do ano que vem. A Secretaria frisou, contudo, que os prazos dependem das negociações para remoção das famílias. Já a assessoria de imprensa da Secretaria de Habitação informou que segue em conversação com as famílias, mas ainda não há prazos para a saída dos moradores.