Brasil de Fato

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O delírio salvadorenho

Violência e guerra de gangues no menor país da América Central evidenciam as estruturas de privilégios que geram corrupção e inviabilizam o avanço social e econômico


Aleksander Aguilar

No limite do macabro. Assustadoramente desafiante e revelador. O crime ocorrido em El Salvador no dia 20 de junho põe em evidência o nível de barbárie e extremismo a que chega a situação da violência na América Central.

Um caso sintomático nesse que é, ao mesmo tempo, o territorialmente menor e o mais violento país do continente. Um indicativo de que, analogicamente ao Brasil, há espaços na sociedade em que a segurança pública é controlada pelo crime organizado e de que isso, se seguir seu ritmo crescente, pode abalar a estabilidade nacional.

No inicio da noite daquele domingo, um ônibus do serviço de transporte urbano da capital, San Salvador, foi metralhado e incendiado com todos os passageiros dentro. Quatorze pessoas, incluindo menores de idade, foram mortas, todas queimadas vivas, dentro do veículo.

Eram cidadãos comuns, em suas rotinas diárias, no percurso da sobrevivência de uma sociedade que massificou o medo e trivializou a violência ao nível do absurdo. Imediatamente após a matança, apenas duas vitimas tinham sido identificadas: uma mulher de 37 anos e uma menina de um ano e meio. Os demais estavam irreconhecíveis e apenas testes de DNA poderiam confirmar suas identidades.

A tragédia ocorreu quando todas as unidades da Polícia Nacional Civil (PNC) e quase metade das tropas do exército do país estão nas ruas cumprindo um controvertido plano anti-delinquência do governo, na tentativa de frear a criminalidade.

Violência endêmica

El Salvador é, atualmente, segundo as estatísticas da Organização Mundial da Saúde (OMS), o país mais perigoso da América Latina e um dos mais violentos do mundo. Os índices de homicídios são de 76 para cada 100 mil habitantes, os mais altos do continente e quase iguais aos que havia durante a guerra civil dos anos 1980.

El Salvador é um Estado sobrevivente dessa “delirante” guerra, como define a própria ONU no informe da Comissão da Verdade sobre o conflito. O fratricídio que vigorou oficialmente entre os anos de 1980 e 1992 deixou um saldo de mais de 70 mil mortos e desaparecidos – mais de 3% da população total do país.

Hoje, é uma nação que busca a paz e o equilíbrio em meio às condições de insegurança, desigualdade social e falta de justiça que se arrastam como consequência de processos não finalizados e de lutos não superados. Os Acordos de Paz de 1992 puseram um fim à guerra entre o governo e as organizações marxistas revolucionárias salvadorenhas, e isso deu passo a uma nova fase na história política do país.

No entanto, a partir disso, também se passou a assumir que o fim da hostilidade bélica significava viver em paz. Como mostra o estremecedor evento do dia 20, um estado de paz significa muito mais do que a mera ausência de guerra.

Um grupo pequeno que pertence a uma grande organização, articulada e coordenada, planejou deter um ônibus, metralhá-lo e incendiá-lo com todos os passageiros dentro. Trata-se de um exemplo de força – e crueldade abismal – dessas organizações que extorquem, roubam, sequestram, matam e se digladiam em um conflito aberto entre si, diante da incapacidade do Estado em pará-las.

Gangues

Consequência indireta das imigrações provocadas pela guerra civil e pela globalização, jovens imigrantes centro-americanos criaram, em Los Angeles, nos Estados Unidos, no início dos anos 1980, as duas principais gangues (“maras”, no jargão da região) que atualmente se enfrentam na América Central: a Mara Salvatrucha (MS) e a Mara 18. Cada uma delas possui sua linguagem codificada, seus rituais, suas tatuagens e seu ódio visceral.

Oriundos do istmo que separa a América do Sul e o Império, uma região quase sempre esquecida mesmo no contexto latino-americano, jovens desorientados pela imigração forçada desenvolveram, no breve espaço de uma década, organizações criminosas estruturadas e hierarquizadas para defender seus territórios e negócios ao custo da vida dos seus inimigos. A primeira foi a MS, mas logo surgiu a 18, que ocupava, precisamente, a rua 18, no sul de Los Angeles.

Em 1996, Washington aprovou as terríveis “Immigration Reform” e a “Immigrant Responsability Act”, que permitiram às autoridades dos Estados Unidos expulsarem imediatamente mais de 100 mil membros de gangues para a América Central. Esse fluxo de delinquência gangrenou a ordem social, principalmente, de Honduras, Guatemala, Nicarágua e El Salvador.

Marcas da guerra

Os anos da guerra em El Salvador deixaram marcas profundas. Hoje, há uma violência endêmica alimentada por mais de 400 mil armas de fogo que circulam no país e que podem ser compradas por preços irrisórios. O nível de consumo de drogas é alto e aumenta com a liberalização, a toda velocidade, da economia – dolarizada desde 2001 –, o que desestabiliza o tecido social do país.

No informe de 2007 do Escritório das Nações Unidas para o controle de Drogas e Delitos, El Salvador aparece como a terceira nação do mundo em consumo de cocaína. O país, juntamente com o México (onde o exército também foi mandando às ruas para tentar combater o narcotráfico), é o corredor pelo qual passa 90% da cocaína que chega aos Estados Unidos.

Os números oficiais de membros de gangues são muito variáveis, devidos às dificuldades de se calcular o nível de envolvimento dos jovens com as organizações, mas estima-se um mínimo de 10 mil mareros em El Salvador. No começo dos anos 2000, o presidente salvadorenho Francisco Flores adotou o programa “Mão Dura” para combater as maras, utilizando um forte aparato repressivo.

Mas, dos mais de 16 mil suspeitos detidos, apenas 807 foram considerados culpados. Essa legislação foi, então, considerada inconstitucional e criticada por não enfrentar os problemas ligados à miséria e à violência familiar que determinam a marginalização dos jovens e o desenvolvimento de vínculos com as maras.

Sem ideologia

Os subúrbios de San Salvador são ninhos de casebres e pequenas favelas que formam um limbo, um espaço que separa a capital de sua cadeia de vulcões, o que, segundo o cineasta franco-espanhol Christian Poveda (assassinado em 2009 pela mesma mara que retratou no documentário internacionalmente premiado La Vida Loca), conforma a topografia ideal para a violência. Ao contrário dos guerrilheiros dos anos 1970 e 1980, os jovens mareros rechaçam ideologias e expressam sua rebeldia por meio de uma violência que ultrapassa as raias do absurdo.

Faltam hoje em El Salvador, vontade política e recursos financeiros para combater a violência urbana. A inédita e histórica chegada da FMLN (Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional) – a antiga guerrilha convertida em partido institucional depois dos Acordos de Paz – ao Executivo do país no ano passado trouxe consigo a expectativa de mudanças substanciais na nação centro-americana.

Porém, ainda não se iniciou o desmonte de estruturas de privilégios na sociedade que geram corrupção e inviabilizam o avanço social e econômico. Um Estado com alta sonegação de impostos obstrui a distribuição de recursos e as instituições nacionais terminam debilitadas e incapazes.

Paz positiva

A violência constante em El Salvador se inicia desde a política e a educação. A violência direta, resultado da violência estrutural vigente, conforma a inconsistente base sobre a qual se tenta realizar a reconstrução da sociedade salvadorenha.

A conformação de uma cultura de violência está determinada pela incidência de um sistema de normas e valores que aceitam, toleram e retroalimentam culturas violentas.

O conflito salvadorenho não está encerrado, senão manifesto em atos abomináveis como o ocorrido na capital no dia 20 de junho. Ele precisa ser transformado tendo como norte o estabelecimento de uma paz positiva, sem violência estrutural, que permita o desenvolvimento de uma cultura de paz.

Isso passa por uma diferente atitude do Estado diante de suas dívidas em matéria de verdade, justiça e reparação em relação a seu próprio passado recente; uma nova postura do setor privado diante de seus compromissos para com o país; e a decisão do Estado em enfrentar decididamente as enormes falhas do seu sistema político e judicial.

Aleksander Aguilar é jornalista, licenciado em Letras e Mestre em Estudos Internacionais