Brasil de Fato

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Fora do Eixo ou trabalho colaborativo?

Existem formas de fazer acontecer uma produção cultural coletiva em que as pessoas mantenham seus direitos e sua dignidade








Márcio Boaro

Existe uma entrevista de Lula no início dos anos de 1980 onde um dos entrevistadores pergunta a ele se uma determinada pessoa ligada à esquerda e com grande renome na política nacional poderia ingressar no Partido dos Trabalhadores. A resposta de Lula foi que sim, era só a pessoa procurar o núcleo do partido mais próximo de sua casa, se filiar e iniciar a militância por este lugar.

Em sua resposta Lula deixou claro que qualquer brasileiro poderia vir a ser um dirigente do PT desde que fosse a partir da base. Os anos passaram, o partido mudou e, após a derrota de 1994, optou por alianças em um campo político mais à direita.

No início do governo Lula, o partido tinha 22 anos e havia se formado pela ação de diversas forças concorrentes. Existia uma grande expectativa sobre o Ministério da Cultura, e desde o primeiro momento foram criadas iniciativas importantes, mas não obrigatoriamente coordenadas, iniciativas que, de certa forma, representavam as forças internas do partido. Entre muitos exemplos, podemos falar das conferências de cultura ouvindo a população sobre sua produção cultural, Pontos de Cultura e a Economia Criativa.

Em 2005, estas forças já estavam em debate quando surge o Fora do Eixo. Sem exagero, podemos dizer que ele é fruto das políticas do MinC. Senão diretamente, indiretamente surgiu pelas ideias sobre produção cultural que circulavam pelo país. Afinal, é uma rede (como a Teia dos Pontos de Cultura) que tem uma proposta criativa de produzir cultura de forma “sustentável” (como é o indicativo dos partidários da Economia Criativa). Radicalizaram as políticas ligadas ao mercado com a criação de uma empresa com atuação agressiva, que tem a criatividade e as atividades artísticas como motor, mas esquecendo o restante das políticas do MinC que buscam a democratização.

O Fora do Eixo tem uma identidade política confusa: se diz apartidário, tem uma perspectiva de trabalhar coletivamente, mas está ligado somente ao mercado. Se apropria dos meios de produção e aliena os trabalhadores de forma mais violenta que os empresários: retira da pessoa a identificação com o trabalho e até os direitos básicos do trabalhador. A pessoa que “colabora” não tem seu trabalho reconhecido nem como criador, nem como trabalhador remunerado.

Por utilizarem a maioria dos vernáculos da modernidade e utilizarem a tecnologia, se acham modernos, mas esta “rede” não tem nada de moderna: se assemelha mais a uma estrutura feudal, onde os integrantes das pontas são lacaios, sem direito algum, os intermediários vassalos submissos dos senhores feudais que montaram a rede. Não é exagero. Se esquecermos as conquistas dos trabalhadores, voltamos para a idade média, mesmo usando um “Mac Pro”. Para melhor disfarçar seu caráter de exploração de mão de obra escrava, usa as ideias de “militância” e de “trabalho voluntário no coletivo”.

Existe um outro modelo que podemos comparar com o Fora do Eixo. Há mais de 30 anos os grupos de artes cênicas se organizam por todo o país em “coletivos de coletivos”, ou seja, cooperativas, federações de grupos.

As formas de trabalho dos grupos podem diferir em detalhes, mas de modo geral trabalham de forma colaborativa onde as pessoas participam ativamente do processo criador e têm voz para opinar sobre as produções. Na maioria dos casos, tendem a um trabalho a longo prazo.

No caso das organizações que unem diversos grupos, a democracia interna dos grupos é continuada, é comum os votos serem por grupos. São milhares de grupos, que têm mais semelhanças do que diferenças, nos quais o indivíduo recebe pouco (porque as verbas são escassas), mas tem seu trabalho reconhecido.

Talvez por esta organização das artes cênicas, o Fora do Eixo não tem grande expressão neste segmento, da mesma forma que não conseguiu se estruturar na música (o seu campo de ação mais “forte”) em Pernambuco.

Estes grupos, apesar de organizados e de serem uma força criativa expressiva, no geral tem pouco apoio, mas um exemplo a ser seguido são os programas de fomento da cidade de São Paulo, iniciados com o Fomento ao Teatro, e continuando com o Fomento à Dança.

Com centenas de grupos beneficiados, são milhares de pessoas que trabalham e levam uma produção diferenciada para cidade toda, além de um exercício contínuo no desenvolvimento de diversas formas e de linguagem. Ou seja, existem formas de fazer acontecer uma produção cultural coletiva em que as pessoas mantenham seus direitos e sua dignidade.

Márcio Boaro é diretor da Cia. Ocamorana.