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Estados Unidos planejam “ataque humanitário” contra a Síria

Assassínio com substâncias químicas que coloca Assad como suspeito principal se assemelha a outras situações criadas para justificar uma guerra











Foto: The Prime Minister’s Office/CC



Achille Lollo

de Roma (Itália)

O presidente Barack Obama concordou com o primeiro-ministro britânico David Cameron no “ataque humanitário contra a Síria para salvar os civis” usando apenas foguetes e aviões que destruiriam toda a infraestrutura militar e civil. Entretanto, Rússia e Irã alertam o Ocidente de que foram os rebeldes que usaram nos arredores de Damasco, capital da Síria, as bombas químicas na véspera da chegada dos inspetores das Nações Unidas.

As dramáticas imagens gravadas pelos rebeldes no dia 21 de agosto após o ataque do exército sírio contra as últimas posições do Exército Livre Sírio (ELS), em Goutha, na periferia de Damasco e, em seguida, divulgadas na rede e, sobretudo, nos sites dos jornais europeus e estadunidenses pelo Observatório Humanitário Sírio, sediado em Londres, provocaram nas chancelarias europeias e na Casa Branca o efeito desejado: repetir a “Operação Kosovo” permitindo à OTAN substituir a ONU. Isto é, atacar e destruir a Síria, tal como foi feito em 1999 com a Iugoslávia, o Iraque e, por último, a Líbia e o Mali.

O presidente Barack Obama – que em 1989 foi um dos poucos que votaram contra a invasão no Iraque para procurar as armas químicas de Saddam Hussein – bem como uma boa parte de seus colaboradores, no dia 24 de agosto, ainda não se havia manifestado a favor do ataque. O Secretário da Defesa Chuck Hagel admitiu que os EUA esperavam a resposta dos fiscais da ONU e que por isso respeitariam as leis internacionais.

Em resposta às acusações dos ministros das Relações Exteriores francês e britânico, Lorens Fabious e William Hague, o presidente sírio, Bashar el-Assad sublinhou que “tais acusações são uma ultraje ao bom senso, uma vez que as mesmas respondem a precisas motivações políticas que visam reverter a conjuntura logo após as contínuas vitórias que as forças armadas do governo sírio estão alcançando contra os terroristas”.

De fato, a partir do mês de maio o exército sírio registrou concretas vitórias em toda a região leste e ao longo da fronteira com o Líbano, liberando as importantes cidades de Qasr, Alepo e Homs. A seguir, concentrou sua ofensiva na periferia de Damasco – precisamente nos bairros de Jobar, de Zamalkana, de Goutha, e na cidade de Muaddamiya – onde os rebeldes do ESL criaram fortes bases graças ao contínuo abastecimento de armas e homens vindos da vizinha Jordânia.

A partir desse momento, os serviços de inteligência sionistas, e depois os turcos, veicularam na imprensa britânica e francesa relatórios “confidenciais”, segundo os quais o exército sírio estaria preparando um grande ataque usando as armas químicas.

No dia 24 de agosto, o general estadunidense Martin Dempsey e o britânico Sir Nick Houghton convocavam na capital da Jordânia, Amã, a “Cúpula Militar dos 10 países que sustentam a Oposição síria” (nomeadamente EUA, Grã-Bretanha, França, Alemanha, Canadá, Itália, Turquia, Jordânia, Arábia Saudita e Qatar). Nessa reunião ficou decidido que o uso das armas químicas por parte do exército sírio dava aos países da OTAN a possibilidade de tomar a iniciativa para destruir com foguetes e bombardeios aéreos o exército de Bashar el-Assad permitindo, assim, o avanço triunfal dos rebeldes na capital.

Por sua parte, Turquia e França – no caso dos EUA decidirem esperar pela decisão da ONU – manifestaram a intenção de participar numa outra possível frente na qual os países do Golfo (Arábia Saudita, Emirados Unidos, Bahrein e Qatar) estariam dispostos a criar e, sobretudo, financiar.

Finalmente, no dia 25 de agosto, quando o governo da Síria aceitou que a comissão de inspetores da ONU investigasse os locais onde houve a explosão de bombas químicas e também averiguasse o túnel onde os rebeldes haviam construído para esconder vários barris com gás nervino, aconteceu a incrível reviravolta do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Casus bellis

Na manhã do dia 26, Obama fez uma breve aparição na TV para dizer que havia falado 40 minutos com o primeiro ministro britânico David Cameron e que concordava com ele em intervir duramente contra o regime de Bashar el-Assad, apesar de esse governo ter permitido a chegada dos fiscais da ONU.

Ou seja, segundo Obama e Cameron, o regime sírio seria o único responsável pela explosão das bombas químicas em Goutha e por isso os EUA estariam avaliando a possibilidade de realizar um “ataque humanitário apenas com foguetes, aviões e navios como foi feito no Kosovo”.

O conhecido professor Charles Kupchan, que na Universidade de Georgetown ensina Relações Internacionais e é um “expert” no Council on Foreign Relations sobre Estratégia e Política Exterior dos EUA, logo após a reviravolta de Barack Obama, declarou ao jornal italiano La Repubblica que “não podemos confiar totalmente nos rebeldes. Por outro lado, mesmo se o regime sírio for punido segundo o modelo operativo semelhante à Operação Kossovo, não vai funcionar na Síria”.

Entretanto, às 20h do dia 26 de agosto, o secretário do Departamento de Estado, John Kerry, convocava uma conferência de imprensa declarando sumariamente: “Não podemos esperar as decisões dos fiscais da ONU que estão em Damasco e que nada dirão, visto que os efeitos do gás nervino desaparecem após três dias. Por isso, avaliamos que as informações de nossos serviços e de outros países são suficientes para dizer que os EUA darão uma resposta exemplar ao regime de Bashar el-Assad”.

Após Charles Kupchan, outra voz “independente” a se levantar na mídia, o britânico Gwyn Winfield, notório conhecedor de armas químicas e chefe da Falcon Comunications, declarou ao jornal italiano La Repubblica: “O ataque com substâncias químicas parece um casus belli artisticamente criado para justificar uma escalada de ataques militares contra a Síria, tal como aconteceu em 1964 quando foi provocada a intervenção estadunidense no Vietnã. De fato, é muito difícil acreditar que o regime de Bashar el-Assad realize uma ofensiva com esse material ao mesmo tempo em que chegam os fiscais em Damasco para averiguar se o exército sírio estaria usando as armas químicas. Então, por que o regime deveria fazer algo que certamente o iria prejudicar?”.

As intervenções de Charles Kupchan e de Gwyn Winfield não provocaram efeitos dissuasivos nas chancelarias dos países da OTAN, que após a intervenção na TV do secretário de Estado John Kerry, memorizaram o roteiro belicista dos EUA, manifestando sua participação na nova “guerra humanitária da OTAN”.

Achille Lollo é jornalista italiano, correspondente do Brasil de Fato na Itália e editor do programa TV “Quadrante Informativo”.