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“Câmara devia dar salva de prata às mães que perderam os filhos nos embates com a PM”

Principal opositor do projeto que homenageia a Rota, o vereador Toninho Vespoli (PSOL) critica aprovação da Casa, pois considera que a PM não está a serviço da sociedade











Foto: Arquivo pessoal



José Francisco Neto

da Redação

Com 37 votos favoráveis, 15 contrários e uma abstenção, a Câmara Municipal de São Paulo aprovou, nessa terça-feira (3), a salva de prata que concede homenagem à Rota (Ronda Ostensiva Tobias Aguiar). Proposto pelo ex-chefe da corporação, vereador Coronel Telhada (PSDB), o projeto enfrentou resistência por parte dos vereadores da Casa e por militantes de movimentos sociais que estiveram presentes para barrar a homenagem. Como era previsto, houve tumulto e truculência policial com os ativistas.

Por três tentativas, a homenagem ficou pendente de votação ao não conseguir o voto favorável de 37 dos 55 vereadores. Isso ocorreu após o vereador Toninho Vespoli (PSOL) pedir votação nominal, o que forçou a bancada do PT, a maior da Casa com 11 vereadores, a votar contra o projeto. Mesmo assim, o esforço do vereador não foi suficiente para barrar a homenagem.

Em entrevista ao Brasil de Fato, Vespoli afirma que o núcleo do PT – exceto dois vereadores - queria que a homenagem fosse logo aprovada ‘para poder votar outros projetos’. Ele também lamenta que essa salva de prata para a Rota tenha passado pela Casa, pois considera que o efetivo da Polícia Militar não está a serviço da sociedade.

“Se a gente for ver mesmo o papel da polícia e suas leis, elas são para proteger quem tem bens, a propriedade privada e o capital. Não está para proteger o ser humano.”

Brasil de Fato - Ontem foi aprovada, por 37 votos favoráveis, a chamada salva de pratas à Rota. O senhor, que desde o início se posicionou contra essa homenagem, como avalia essa aprovação da Câmara?

Toninho Vespoli – Foi ruim para a cidade de São Paulo e principalmente para a imagem da Câmara Municipal, porque é só andar na periferia da cidade que a gente vai ver a avaliação que as pessoas têm dessa organização. A Câmara devia dar uma salva de prata às mães que perderam seus filhos nos embates com a PM. Principalmente da Rota. Até porque a Rota é um efetivo da PM que tem mais ou menos 14% das mortes em confrontos com pessoas da sociedade. E 60% delas nunca tiveram passagem na polícia. Aqui no Brasil tem algumas coisas que são legitimadas. Algumas instituições podem fazer justiça com as próprias mãos. Então, se for bandido, tá no direito de matar. É gravíssimo isso.

O Mapa da Violência aponta que as principais vítimas da violência policial são os jovens negros e moradores das periferias. Para entidades de direitos humanos, a alta letalidade policial é ineficiente no objetivo de conter a violência. Então, qual o sentido ou a justificativa de uma homenagem dessas?

Claro que a princípio todos os vereadores podem propor homenagem. Entre acordos históricos da Câmara, cada vereador pode apresentar oito Projetos de Lei (PDL), oito homenagens por ano. Se você pegar as homenagens do vereador Telhada são todas para a corporação, ou para um coronel, ou para um tenente ou para a cavalaria. Não sou contra. As pessoas têm o direito de propor. O problema é que, por exemplo, eu estou como vereador hoje, mas sou um professor, então eu não posso olhar simplesmente agora de uma maneira corporativista para os professores. Eu tenho que ter propostas para cidade de São Paulo. Eu tenho que prestar homenagens às várias organizações de pessoas que realmente contribuíram para a melhoria de qualidade de vida como cidadãos da cidade.

As vezes eu fico até pensando que algumas salvas de pratas que ele propõe é no que ele vai propor para causar para ficar na mídia. Não é possível. Ele vai colocando essas coisas porque ele sabe que na Câmara tem gente que não comunga com essas questões e que vai polemizar, e a polêmica faz com que ele alcance a mídia.

Em abril, quando teve a primeira votação para essa homenagem, sete dos 11 vereadores do PT foram a favor do projeto. Mas ontem todos se posicionaram contra. O que fez eles mudarem de opinião?

São dois aspectos. Na verdade eles não foram a favor. Quando você propõe um PDL a uma homenagem, passa uma lista para você assinar, se você concorda ou não com o projeto. Esses vereadores assinaram essa lista concordando com o PDL. Conversei com dois deles, inclusive com o vereador Alfredinho (PT) que também assinou. Ele falou para mim que tem tantos papéis para assinar que é meio que de praxe você não ser contra homenagens. As pessoas costumam nem reparar direito e acabam assinando.

As vezes vem 30 ou 40 papéis para você assinar de uma vez só. O certo era você ler com calma cada um. Isso acaba atrapalhando um pouco o raciocínio das pessoas. Isso é uma coisa. É isso que eles falam.

Mas apesar do PT ter votado contra, o núcleo do PT na Câmara Municipal, por debaixo dos panos, não via a hora que o projeto fosse aprovado. Na verdade, a Câmara ficou meio parada, inclusive com pautas com projetos do governo.

Um fato concreto é, por exemplo, na terceira votação, que eles conseguiram 36 votos. O José Américo (PT) [presidente da Câmara] pediu o adiamento da questão por cinco minutos. Na verdade, o adiamento foi quase dez minutos, porque tentava-se equacionar o problema. Um vereador do PSDB tava ligando para todos os gabinetes pedindo para os outros vereadores descerem para votar, nitidamente dando tempo para que o PSDB pudesse articular a situação. Mesmo assim eles não conseguiram.

Nas falas no plenário, os vereadores do PT queriam votar logo o Projeto. Apesar que tinha os contras, que era a Juliana o Nabil. Mas por debaixo do pano o governo se preocupou que isso estava travando a pauta do executivo, dos interesses da Câmara, e queriam limpar isso logo da pauta para poder votar outros projetos. O núcleo do PT trabalhou para isso.

Como é vista pelo senhor essa postura do Telhada em convocar policiais e familiares para forçarem a aprovação do projeto?

Como ele já tinha tentado três vezes e não tinha conseguido, foi uma artimanha para tentar pressionar os vereadores que estavam meio em dúvida. É até legítimo, democrático. Eu posso ter opinião totalmente contrária, divergente, mas você viver com a democracia, mesmo quando você perde, faz parte.

As pessoas que se manifestarem quanto a isso e chamarem outras pessoas para manifestar é legítimo. O que eu não abro mão é das minhas convicções. Sou totalmente contra a proposta.

Se a gente for ver mesmo o papel da polícia e as leis, elas são para proteger quem tem bens, a propriedade privada e o capital. Não está para proteger o ser humano. Mas não dá para falar que eles fizeram errado. Foi a primeira vez que eu vi aquela galeria cheia.

Eu acho que o debate é importante. Independente das posições políticas, a cidade tem que discutir mais as coisas que acontecem na Câmara Municipal.

Qual a opinião do senhor sobre a desmilitarização da polícia?

Eu sou a favor da desmilitarização. Porque é um escopo que vem desde a ditadura, e se a gente olhar para todo esse processo, quando a gente fala que a polícia é violenta, uma ação preconceituosa contra o pobre e principalmente contra o negro, isso vem de todo aquele perfil da ditadura que, inclusive, a Rota fez parte desse processo, que era abafar os movimentos sociais. Toda essa ideologia está ainda carregada na Polícia Militar.

Então, desmilitarizar a polícia, passa por discutir por qual concepção de polícia que a gente quer na sociedade.