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Samba do Trabalhador transforma “dia ingrato” em diversão

Clube Renascença é ponto de encontro para trabalhadores que fazem das segundas-feiras dia útil para apreciar o samba








Gabriel Araujo

do Rio de Janeiro (RJ)

Na segunda-feira – tradicional dia de folga dos músicos - um grupo de sambistas sob o comando de Moacyr Luz promove, há oito anos, o Samba do Trabalhador, roda que já se tornou referência para os apreciadores do estilo.

O Clube Renascença, um dos espaços mais tradicionais da cultura negra do Rio de Janeiro, fundado há 62 anos, abre as portas para trabalhadores que fazem do dia que inicia a semana útil, considerado ingrato para muitos, mais um momento de diversão e encontro.

Além de Moacyr Luz, violão e voz, levam o Samba do Trabalhador os músicos Gabriel Cavalcante (da Muda), violão, cavaco e voz; Alexandre Nunes, cavaco e voz; Álvaro Santos, percussão e voz; Luiz Augusto, percussão; Junior de Oliveira, percussão; Mingos Silva, percussão e voz e Daniel Neves, violão de sete cordas.

Apesar da coincidência com o nome da conhecida canção de Darcy da Mangueira, Samba do Trabalhador (ocioso), que tem versos como “Na segunda-feira não vou trabalhar”, Moacyr Luz ressalta que a intenção da roda é justamente o oposto.

“Os trabalhadores músicos emprestam seu dia de folga para os outros trabalhadores, num espaço com música de qualidade. A música do saudoso Darcy fala da pessoa que não quer trabalhar”, esclarece o compositor, que tem canções gravadas por sambistas como Zeca Pagodinho, entre outros.

A roda que acontece no Renascença já foi registrada em CD e DVD duas vezes. A última, em 2013, no recém-lançado “Moacyr Luz e Samba do Trabalhador”.

Clube Renascença

A história do Renascença, erguido por negros de classe média que sofriam preconceito ao tentar frequentar clubes, no início do século, e, por isso, se juntaram para criar um espaço próprio, reforça a singularidade do local escolhido para a roda.

Se em clubes comuns o lazer é a finalidade mais explícita, no “Rena”, como é apelidado, a cultura é o ponto forte. Já na entrada do Clube, barracas vendem CDs de samba e músicas de referências afro-brasileiras, literatura de cordel com títulos curiosos como Arlindo Cruz e a Incrível história do Bagaço da Laranja, acarajé das mãos de baianas, e guias (colares de umbanda) montadas na hora por artesãos.

Encontro de gerações

O Samba do Trabalhador serve também como ponto de encontro para gerações de sambistas. Moacyr Luz, de uma geração mais antiga, conta que a ideia inicial do samba era que os mais velhos apresentassem os novos talentos. E este papel foi cumprido, segundo ele.

Dentre os músicos que tocam ali, dois já lançaram CDs próprios. Gabriel Cavalcante lançou, em 2010, o álbum intitulado O que vai ficar pelo salão e Alexandre Nunes, o álbum Marmita, de 2011.

Nova promessa do Samba do Trabalhador, o percussionista Álvaro Santos foi citado pela cantora Beth Carvalho em recente entrevista. “Eu fiquei lisonjeado e muito agradecido por ter meu trabalho aqui no Samba do Trabalhador reconhecido”, comemora.

Samba de Roda

O clima de samba de roda permeia todo o encontro musical de segunda-feira. “Músicas que não são aceitas pelos programadores de rádio, aqui são cantadas de ponta a ponta”, defende Moacyr Luz.

A roda abre espaço para outros músicos que queiram puxar sambas de improviso. Na última segunda-feira, o compositor Eros Fidelis (da canção Falsa Consideração) participou com algumas de suas músicas.

O público fiel também vira destaque no Renascença. Além de dançar e cantar todas as letras, as palmas das mãos das mais de mil pessoas ali presentes viram percussão. Uma delas é Dona Dalila, moradora da Tijuca e portelense de coração, que comemorou 89 anos na última segunda-feira, no Samba do Trabalhador, ao lado da família.

Ela conta que participa da roda desde seu início. “O samba é a minha vida”, afirma, cantando e sambando.

<SERVIÇO>

Samba do trabalhador

Local: Clube Renascença, Rua Barão de São Francisco, 54, Tijuca

Dia: Todas as segundas-feiras

Preço: R$ 10

Horário: a partir das 16h30