Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Murales para La Paz

O Brasil de Fato volta a publicar um ensaio fotográfico direto da Bolívia; desta vez, o tema são os murais da capital do país


Fotos: Mauricio Acevedo

Texto: Vinicius Mansur

muraisbolivianos_00_foto_titulo.gif

Os murais já eram pintados há séculos por gregos e romanos, mas foi a sua apropriação por pintores mexicanos na primeira metade do século 20 que deu início ao Muralismo, sendo Diego Rivera seu principal expoente.

De feitio realista e proporções monumentais, o Muralismo foi influenciado pelo expressionismo alemão e pelas vanguardas russas. A originalidade do repertório se deu pela ligação direta dos muralistas ao contexto social e político da época e pela representação das culturas maia e asteca, além de elementos folclóricos do México Colonial.

O Muralismo é impulsionado pela Revolução Mexicana de 1910 como projeto educativo e cultural, narrando a história do país, exaltando o fervor revolucionário e rompendo com a pintura acadêmica de cavalete, restrita a galerias, museus e coleções particulares.

As semelhanças políticas e culturais, especialmente pela presença indígena, trouxeram o Muralismo à Bolívia, já na Revolução Nacional de 1952, quando se destacaram pintores como Miguel Alandia, Walter Sólon e Lorgio Vaca. E não é por acaso que o Muralismo continua sendo pintado nas ruas de La Paz, fazendo arte acessível ao povo, em meio ao “proceso de cambio” encabeçado por Evo Morales. Entre dezenas de murais, o fotógrafo mexicano Mauricio Acevedo, selecionou sete deles.

muraisbolivianos_01_01_teatro-01-e-02_teatro-e-01_03_teatro

“La marcha de los 200 años”, do artista Gastón Ugalde, é o maior mural de La Paz, medindo mais de 300 metros de largura e aproximadamente quatro de altura. Inaugurado em 2010, em comemoração aos 200 anos de independência de La Paz, e pintado com raro realismo nas paredes do Teatro ao Ar Livre, na Avenida do Poeta, este mural traz 200 personagens “paceños” (como são chamados os habitantes de La Paz), entre líderes políticos, religiosos, intelectuais, artistas, figuras do folclore local e representações da cultura andina. Em detalhe, a contraposição entre as formas de representação andina e da arte sacra ocidental, retratando a dominação espanhola.

muraisbolivianos_02_01_UMSA-e-02_02_UMSA

Também em comemoração ao Bicentenário de Independência de La Paz, este mural foi pintado por sete jovens do grupo Apacheta, que ganharam o concurso aberto pela prefeitura, cuja temática era “Movimiento Obrero”. Localizado no túnel que liga as avenidas 6 de Agosto e Arce à Praça do Estudante, em frente à Universidade Mayor de San Andrés (UMSA), o mural retrata, nas duas paredes laterais do túnel, entre outras coisas, a luta indígena pelo acesso à universidade. Na segunda foto, ele se torna um belo pano de fundo para a marcha realizada por professores de escolas públicas por aumento salarial.

muraisbolivianos_03_Prado1

No centro de La Paz, na Avenida 16 de Julho, atravessada por um longo e movimentado calçadão central (o Prado), uma prova do muralismo boliviano exclusivamente indígena, pintado pelo artista Sergio Campos.

muraisbolivianos_04_01_Prado2-e-04_01_Prado2.gif

Também no Prado, outro mural do grupo Apacheta resgata a história de lutas boliviana contra a colonização espanhola, em defesa da folha de coca e da nacionalização dos seus recursos naturais. No detalhe, os artistas destacaram a “Tese de Pulacayo”, documento de orientação trotskista elaborado pelo Partido Obrero Revolucionário (POR) da Bolívia, com destaque para Guillermo Lora, em 1946. A estratégia definida pelo documento culminou na Revolução Nacional de 1952, embora a vanguarda do processo tenha sido o Movimento Nacionalista Revolucionário (MNR).

muraisbolvianos_05_Cristo

Na Avenida Montes, que liga La Paz à cidade de El Alto, o mural feito por Castellón abdica da representação de momentos de luta do povo boliviano, dando destaque para Jesus Cristo. Do lado esquerdo de Cristo, a representação da crescente urbanização de La Paz; do lado direito, símbolos do folclore nacional.

muraisbolivianos_06_01_bolivia_chile-e-06_02_bolivia_chile

Este mural, sem assinatura, localizado na esquina das ruas Tarija e Linares demonstra a capacidade dos muralistas de abordar temas atuais. Pintado poucas semanas depois do terremoto que abalou o Chile em fevereiro deste ano, o mural faz alusão à briga histórica entre Chile e Bolívia, na qual a devolução do acesso ao mar é a principal reivindicação boliviana.

muraisbolivianos_07_espaco

Localizado ao lado da Casa de Cultura de La Paz, na zona popular Pérez Velasco, este mural, também anônimo, mostra outra virtude do muralismo: a capacidade de recriar a noção de espaço.