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Copel ignora riscos ambientais e investe na exploração do gás de xisto

Companhia adquire quatro blocos no leilão de blocos de uma fonte de energia considerada arriscada


Davi Macedo

de Curitiba (PR)

Copel afirma que sua missão é “prover energia e soluções para o desenvolvimento com sustentabilidade”, mas a tese torna-se um paradoxo quando a empresa tenta lucrar com uma atividade de alto risco ambiental: a exploração do gás de xisto. A Copel esteve entre as 21 empresas habilitadas para a 12ª Rodada de Licitações da Agência Nacional de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), feita no dia 28 novembro, no Rio de Janeiro.

Foram entregues à iniciativa privada 240 blocos exploratórios terrestres com potencial para gás natural em sete bacias sedimentares, espalhadas pelos estados do Amazonas, Acre, Tocantins, Alagoas, Sergipe, Piauí, Mato Grosso, Goiás, Bahia, Maranhão, Paraná e São Paulo, totalizando uma área de 168.348,42 Km².

A Copel teve participação na aquisição de quatro blocos na bacia do Paraná, com 30% de participação, no consórcio que também envolveu Bayar (30%), Tucumann (10%) e Petra Energia (30%). Dentre os blocos leiloados, 110 estão em áreas de novas fronteiras nas bacias do Acre, Parecis, São Francisco, Paraná e Parnaíba. São 164.477,76 km² de área em regiões pouco conhecidas e com barreiras tecnológicas, chamadas de recursos petrolíferos não convencionais. Aí que está o grande risco.

Para extrair o gás de xisto dessas localidades, a única tecnologia disponível é o fracking ou faturamento hidráulico, que consiste em injetar dentro de poços horizontais milhões de litros de água e substâncias químicas à alta pressão. Uma técnica polêmica, com vasto histórico de acidentes ambientais, principalmente nos EUA. Por isso, muitos países proibiram sua utilização em seus territórios.

“A exploração de gás de xisto tem sido muito questionada pelos riscos e danos ambientais envolvidos. Enquanto o gás natural e o petróleo ocorrem em estruturas geológicas e nichos próprios, o gás de xisto impregna em toda a rocha ou formação geológica. Nessa condição, a tecnologia de extração de gás está embasada em processos invasivos, o que representa uma grave ameaça ao abastecimento de água potável”, afi rma Silvaney Bernardi, petroleiro da Usina do Xisto, em São Mateus do Sul, e presidente do Sindicato dos Petroleiros do Paraná e Santa Catarina.

As áreas a serem leiloadas abrangem reservas responsáveis por fornecer água a 40% da população brasileira. De acordo com o sindicato, o fracking não passa de um “mico tecnológico” que só tem uma utilidade: alimentar a mais nova bolha especulativa do mercado fi nanceiro, com sérias ameaças ao meio ambiente.

“Para se ter uma ideia da idoneidade da empresas envolvidas, a maior fornecedora mundial de produtos e serviços para o fraturamento hidráulico é a multinacional estadunidense Halliburton, que admitiu ter destruído provas relacionadas ao derrame de petróleo no Golfo do México, em 2010, o pior desastre ambiental da história dos EUA”, complementa Bernardi.

Como a perfuração vertical geralmente vai além dos dois mil metros, o poço ultrapassa lençóis freáticos e aquíferos. O problema é agravado no caso da Bacia do Paraná, que fi ca sob o Aquífero Guarani, a segunda maior reserva de água doce do mundo. O Grupo de Trabalho Interinstitucional de Atividades de Exploração e Produção de Óleo e Gás (GTPEG) do Ministério do Meio Ambiente emitiu parecer que condena a extração de gás de xisto em diversas áreas que a ANP pretende licitar. “À Copel cabe a mesma crítica, pois investir na exploração através do fracking não está relacionado ao ‘desenvolvimento com susteb ntabilidade’, critica Bernardi.