Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

O pré-sal e o Greenpeace

Negar ou diluir a dimensão social dos recursos naturais em países periféricos, como o Brasil, é incorrer num elitismo imperdoável








Por Igor Fuser

Logo na chegada a Porto Alegre, onde mora sua família, a brasileira Ana Paula Maciel, ativista do Greenpeace que ficou presa na Rússia por 100 dias por participar de um protesto contra a exploração de petróleo no Ártico, manifestou-se contra a extração do pré-sal no Brasil. Segundo ela, esse empreendimento é desnecessário, traz risco de acidentes ambientais e agravará a crise climática global.

Como era previsível, Ana Paula recebeu uma saraivada de críticas, muitas delas ofensivas, outras debochadas. Um ex-diretor da Petrobras perguntou como foi que ela voltou tão depressa para casa: de bicicleta? De veleiro? Mas o ponto de vista equivocado da militante do Greenpeace merece uma resposta séria.

A exploração do pré-sal – desde que feita de modo racional e conforme os interesses nacionais – é indispensável para viabilizar o acesso de milhões de brasileiros a condições melhores de saúde, educação, cultura, moradia e saneamento. Negar ou diluir a dimensão social dos recursos naturais em países periféricos, como o Brasil, é incorrer num elitismo imperdoável. Na Venezuela, Equador e Bolívia, governos populares alcançaram conquistas extraordinárias em desenvolvimento humano justamente porque canalizaram a receita das exportações de petróleo e gás natural, que antes só beneficiavam as empresas transnacionais e as oligarquias nativas, em favor da maioria.

O risco de acidente é real, como se viu no Golfo do México, vítima de enormes vazamentos de petróleo. Mas será esse fator suficiente para levar o Brasil a abrir mão da riqueza fabulosa existente no Atlântico? Cabe à Petrobras redobrar os cuidados com a segurança das plataformas, isso sim.

Quanto ao aquecimento global, sempre é bom lembrar que sua causa não é extração de combustíveis fósseis e sim o consumo, concentrado nos países industrializados. Vale notar que a proporção a ser fornecida pelo Brasil ao mercado global de petróleo no auge da produção do pré-sal equivalerá a uma ínfima parcela do total.

Nunca se propôs, até hoje, a redução da oferta de petróleo como política ambiental. Mesmo nesse caso, não parece justo que a conta do sacrifício seja paga pela periferia do mundo. Se é para deixar o óleo embaixo da terra, por que não começar pelos Estados Unidos?