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Nos 50 anos do golpe civil-militar, juventude escracha torturadores

Em São Paulo, houve escracho contra Aparecido Laertes Calandra, conhecido como capitão Ubirajara, acusado de torturar, assassinar e estuprar mulheres; Em Minas Gerais, jovens pediram Justiça pelos crimes do torturador Pedro Ivo dos Santos Vasconcelos











Mídia Ninja



Por José Coutinho Júnior, de São Paulo (SP) e

Rafaella Dotta, de Belo Horizonte (MG)

Nesta terça-feira (1), data que marca os 50 do golpe civil-militar (1964-1985) no Brasil, dezenas de manifestantes de movimentos da juventude realizaram um escracho contra torturadores do período, lembraram os 21 anos de ditadura no país e pediram julgamento para os crimes cometidos.

Foto: Pilar Oliva

Em São Paulo (SP), membros do Levante Popular da Juventude, Coletivo Juntos (do PT), da Consulta Popular e do Comitê Paulista pela Memória, Verdade e Justiça, fizeram um escracho na frente da casa de Aparecido Laertes Calandra, conhecido como capitão Ubirajara, acusado de torturar, assassinar e estuprar mulheres durante o período da ditadura. Ao longo da rua que dá acesso à casa de Ubirajara, as paredes, calçadas e ruas foram pichadas com palavras como “torturador”, “64 nunca mais” e fotos do escrachado onde se podia ler “Dr. Calandra – Capitão Ubirajara = TORTURADOR” foram coladas.

O ex-militar e delegado aposentado Ubirajara era o segundo em comando no Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi) paulista, abaixo apenas de Carlos Brilhante Ustra.

Em Belo Horizonte, Minas Gerais, houve escracho contra o torturador Pedro Ivo dos Santos Vasconcelos, que, na sede do DOPS, realizou sessões de torturas entre os anos de 1969 e 1971. O movimento contou a história de Herculano Mourão e Emely Salazar, militantes torturados por Pedro Ivo. Emely, inclusive, foi impossibilitada de tirar uma fotografia de reconhecimento após a tortura, dado o nível de desfiguração do seu rosto. Nos depoimentos dos torturados, constam choques elétricos nos pés e órgãos genitais, queimaduras com pontas de cigarro, além de muito espancamento.

O Coronel Pedro Ivo ocupou a Secretaria Municipal de Segurança Pública, Trânsito, Transporte e Defesa Civil de São Sebastião do Paraíso até 2012. Para Renan Santos, da coordenação estadual do Levante Popular, é preciso julgar os crimes da ditadura para limpar os resquícios existentes até hoje. “A Polícia Militar continua exterminando jovens e isso é uma herança desse período”, declara.

Passado que condena

Após um tempo se manifestando em frente ao portão que dá entrada à vila da casa de Calandra, em São Paulo, os jovens forçaram as trancas e foram até a casa do ex-militar, onde denunciaram para todos os vizinhos “que do seu lado mora um torturador que estuprava mulheres”.

A reação dos vizinhos ao escracho foi variada. Um deles fechou a afirmar que já conhecia o passado de Calandra, e que “ele é muito fechado, nunca conversa. Mas ele nunca mexeu com ninguém”. Na mesma linha, outra vizinha afirmou que não se importar com o passado, pois “o que passou, passou”. Segundo ela, “temos outros problemas do presente como educação e saúde para nos preocupar”.

Surpresa, uma das vizinhas disse não saber do passado de Calandra e afirmou que “o que ele fez é terrível. Muitas pessoas morreram naquela época e ações assim são importantes para denunciar e informar a gente”.

Segundo Danilo Nunes, do Levante Popular da Juventude, Calandra era uma das pessoas que tinha uma das tarefas mais destacadas da repressão. “Ele não era um simples torturador, pois tinha a função de organizar as equipes que realizavam torturas dos militantes, além de ser responsável por sistemas de escutas e de vigilância”, disse.

Ubirajara é acusado de envolvimento no desaparecimento do estudante Hiroaki Torigoe, na tortura e morte do ex-dirigente do PCdoB Carlos Nicolau Danielli e na construção do cenário da morte do Vladmir Herzog.

Ele também é responsável pela tortura de Amélia Teles, fundadora da Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos Políticos e, recentemente, integrante da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, e do deputado estadual pelo PT e presidente da Comissão da Verdade em São Paulo, Adriano Diogo.

“Ele era um sádico”

Danilo Nunes afirma que Ubirajara usava os filhos e filhas de quem torturava para conseguir extrair informação dos pais militantes. “Inclusive há relatos de que ele torturou mulheres grávidas”, disse.

Adriano Diogo, ao saber do escracho, elogiou a iniciativa. “Já que essas pessoas não podem ser processadas pelos seus crimes, o que a juventude pode fazer é por em evidência estas pessoas e seus atos. É uma forma lúdica, bem humorada, de por a público uma situação de impunidade.

O deputado foi preso aos 24 anos, quando era estudante de geologia da USP, em um sábado de manhã. Ele e sua mulher foram recebidos por Ustra e Ubirajara.

“Ubirajara era muito sádico. A especialidade dele era torturar mulheres, deixar elas nuas e realizar torturas e abusos. Era metido a sedutor, e se orgulhava do título de ‘torturador de mulheres’. Era um covarde, que usava da tortura física e da psicológica”, diz Diogo.

Durante a realização do escracho, que durou por volta de 40 minutos, Aparecido Laertes Calandra, ou capitão Ubirajara, não foi visto. As janelas de sua casa permaneceram fechadas.