Brasil de Fato

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A política externa de um Nobel da Paz

Os governos e os organismos internacionais, como a ONU, mostram-se relutantes e amedrontados, quando não totalmente submissos, à politica do big stick (grande porrete)


Editorial da edição 579 do Jornal Brasil de Fato

“Não temos interesse em ficar rodeando a Rússia. E não temos nenhum interesse na Ucrânia a não ser deixar o povo ucraniano tomar as próprias decisões sobre suas vidas”. Estas palavras do presidente dos Estados Unidos da América prima pela mentira e pela hipocrisia.

Mentira atestada por Jack F. Matlock Jr., ex-embaixador dos EUA na antiga União Soviética, de 1987 a 1991, nomeado pelo ultraconservador Ronald Reagan. Em recente artigo publicado em seu blog Matlock Jr. foi enfático ao afirmar que a entrada da Ucrânia à Otan era um objetivo declarado governo Bush-Cheney e não foi abandonado pela administração Obama. No mesmo artigo, o ex-embaixador desmascara a hipocrisia do presidente estadunidense quando afirma que a maioria dos ucranianos não quer a adesão à Otan.

Aparentar uma virtude, um sentimento que não se tem, é a essência da hipocrisia. E, se há algo que a política externa dos EUA não permite é deixar os povos, e entre eles o ucraniano, tomar as próprias decisões sobre suas vidas.

É do conhecimento de todos que Viktor Ianukovich, legitimamente eleito pela maioria dos ucranianos, foi deposto da presidência por se recusar a assinar um acordo de adesão à União Europeia. Para alcançar esse objetivo, o governo de Obama e a União Europeia – contando sempre com a conivência da mídia ocidental – não hesitou em incentivar e financiar meses de manifestações comandadas por grupos neonazistas.

O escritor paquistanês Tariq Ali lembra que os ultranacionalistas da Ucrânia, aliados às tropas nazistas durante a Segunda Guerra Mundial, mataram 30 mil soldados russos e comunistas. Esses são os aliados de Obama na Ucrânia.

Enquanto presidente Ianukovich, ao recusar a adesão com a União Europeia, significava um entrave para a ofensiva imperialista de expandir a Otan ao leste, chegando à fronteira com a Rússia. Expansão que já era temida por Mikhail Gorbachev, último presidente da União Soviética, quando assinou o acordo de reunificação da Alemanha. O então Secretário de Estado dos EUA, James Baker, assegurou, na ocasião, que não haveria expansão da jurisdição

da Otan nem uma polegada para o leste”. Bush e Obama colocaram suas palavras na lata do lixo.

A hipocrisia do presidente Barack Obama, Prêmio Nobel da Paz, se acentua ainda mais ao não reconhecer o resultado do referendo em que 96,77% dos votos decidiu a favor da reunificação com a Rússia. O mesmo desprezo foi destinado ao parlamento da Crimeia que, seguindo a resultado do referendo, se declarou independente da Ucrânia e solicitou oficialmente a anexação da península à Rússia.

O resultado do referendo popular foi saudado por M. Gorbachev como a correção de um erro cometido em 1954 por Nikita Kruschev, presidente da URSS, quando cedeu a Crimeia, parte integrante da Rússia desde o século 18, à Ucrânia. Onde está o presidente Obama quando a população da Crimeia toma as próprias decisões sobre suas vidas?

Há que se fazer uma justiça com Barack Obama: a violência que comete contra os povos de todas as partes do planeta não é nenhuma novidade na política externa dos EUA, e muito menos uma marca singular do seu governo.

O escritor e jornalista Nicolas J.S. Davies produziu uma lista de 35 países em que o governo dos EUA promoveu golpes de Estado, derrubou governos legítimos, apoiou ditaduras ou participou de massacres e genocídios. O estudo refere-se apenas às intervenções entre pós-II Guerra Mundial até hoje. E certamente é uma lista incompleta.

Ainda de acordo com o escritor e jornalista, na Venezuela, tanto o ex- -presidente Hugo Chávez quanto seu sucessor, Nicolas Maduro, promovem políticas de unidade latino–americana que incomodam Washington.

Por isso, seriam, naturalmente, “autoritários”. E, tanto na Ucrânia quanto na Venezuela, os Estados Unidos têm interesse geopolítico claro na queda dos governantes e agiram – agem contra Nicolas Maduro – para provocá-la.

O argentino Atilio A. Boron faz a mesma leitura da contraofensiva sediciosa incentivada pela governo Obama contra a Venezuela Bolivariana.

Está sendo implementado “à concepção de novas estratégias para a “mudança de regime”, que apela para o chamado modo “não violento” de derrubar governos insubmissos aos ditames de Washington. Os casos da Líbia, Síria, Ucrânia e agora Venezuela ilustram didaticamente o que quer dizer a expressão “não violento” para os estrategistas e intelectuais do império.”

Os governos e os organismos internacionais, como a ONU, mostram-se relutantes e amedrontados, quando não totalmente submissos, à politica do big stick (grande porrete) atualizada para os tempos atuais pelo governo Obama. Resta aos povos reagir e lutar contra o poder do império.