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Produção literária da periferia ganha versão em espanhol e é lançada nesta terça-feira (29)

O lançamento faz parte da programação da 40° edição da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires; Estão no livro poetas como Binho, Ferréz, Sérgio Vaz, Elizandra Souza, Alessandro Buzo, Sacolinha, Dinha, Marco Pezão, Allan da Rosa, Serginho e Gog











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Por Lucas Amaral de Oliveira,

De Buenos Aires (ARG)

Será lançada, nesta terça-feira (29), a versão em espanhol da primeira antologia sistematizada de autores da literatura marginal-periférica de São Paulo intitulada Saraus - Movimiento/Literatura/Periferia/São Paulo. A atividade faz parte da programação da 40° edição da Feira Internacional do Livro de Buenos Aires na qual coletivos e artistas paulistanos fazem uma participação especial.

A responsável por isso é Lucía Tennina, professora da Universidade de Buenos Aires e pesquisadora da cultura periférica de São Paulo. Foi dela, em parceria com a editora Tinta Limón, a responsabilidade de eleger, organizar e traduzir os textos que compõe a antologia.

Segundo ela, o Brasil “oficial” forjou sua cidadania por meio da narrativa da ordem e do progresso, e construiu sua identidade a partir do mito da democracia racial, o que “gerou esquecimentos de vozes, corpos, agenciamentos, fatos”. Por isso, os contos e poemas selecionados para a edição argentina falam justamente desse esquecimento histórico, abordando “um Brasil lancinante, vinculado à pobreza, ao tráfico de drogas e à violência”. Trata-se, sobretudo, de escritos assinados por pessoas que nasceram e vivem até hoje em regiões histórico, cultural e politicamente negligenciadas de São Paulo, localizadas, muitas vezes, distantes do centro, nas chamadas periferias urbanas.

Hip Hop, cordel e negritude

Para explicar a gênese dessa movimentação em torno da literatura marginal-periférica, a pesquisadora reconhece alguns antecedentes histórico-culturais importantes que permitem entender a articulação dessa literatura em fins dos anos 1990: a inspiração do Hip-Hop, rubrica musical das periferias de São Paulo desde os anos 1980; a literatura de cordel, fruto da forte presença nordestina na cidade; a presença negra nas periferias e nos movimentos culturais urbanos, marcada pela violência, pelo estigma e pela marginalização social; e os universos retóricos e artísticos eminentemente politizados dos escritores.

Dividida em três eixos, a primeira parte da antologia é uma seleção de trabalhos daqueles que pertencem ao que a pesquisadora portenha chamou – seguindo a hipótese da antropóloga Érica Peçanha do Nascimento – de “primeira geração” do movimento literário (Binho, Ferréz, Sérgio Vaz, Elizandra Souza, Alessandro Buzo, Sacolinha, Dinha, Marco Pezão, Allan da Rosa, Serginho e Gog).

O que se segue são textos de poetas participantes dos saraus, muitos deles, inclusive, de caráter inéditos, recolhidos por Lucía durante seu trabalho de campo. O terceiro momento é composto por cinco “Manifestos”, gênero fundamental do movimento. Por fim, a antololgia encerrra-se com um “Anexo” com notas biográficas dos 37 autores escritas por eles mesmos, acompanhado de um artigo final de Heloísa Buarque de Hollanda, que traça um paralelismo entre a poesia brasileira dos anos 1970 e a literatura marginal-periférica contemporânea.

Segundo Lucía, a expectativa é de que “o livro possa servir como guia para que o leitor argentino entenda do que se trata esse importante movimento cultural que ocorre nas periferias de São Paulo.