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Em greve, USP, Unicamp e Unesp realizam audiência pública na Alesp

Trabalhadores e alunos questionam que, embora as universidades tenham crescido significativamente na última década, o repasse estadual está congelado desde 1995











Bruno Pavan




Por Bruno Pavan

De São Paulo (SP)


Aconteceu nesta terça-feira (27) uma audiência pública, na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), para discutir a situação financeira das universidades e escolas técnicas públicas da cidade. Convocada por deputados, a atividade contou com a presença de professores, funcionários e alunos da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e Universidade Estadual Paulista (Unesp), além de representantes de Centro Paula Souza. Ambos estão em greve, desde ontem (27), reivindicando melhores salários e investimentos em infraestrutura.

Um dos principais pontos discutidos foi o congelamento dos salários. Segundo os presentes, o Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) não propôs qualquer tipo de reajuste para as categorias, nem mesmo a reposição da inflação.

Uma das alternativas reivindicada pelos trabalhadores é o aumento do repasse do ICMS para as universidades: de 9,5% para 11,6%. O percentual é o mesmo desde 1995, embora, de acordo com o Fórum das Seis, grupo que representa as associações de trabalhadores e professores, tenha ocorrido um aumento significativo da oferta de vagas e cursos nas instituições nos últimos anos. Na USP, por exemplo, a oferta de cursos aumentou de 132 para 249, de 1995 até 2012. Já o número de alunos matriculados nos cursos de graduação da Unicamp aumentou 99,8% no mesmo período.

Para o deputado Carlos Giannazi (PSOL) esses problemas nas instituições educacionais acontecem pela má gestão das universidades estaduais e pela “falta de democracia” das reitorias. “A greve ocorre porque os reitores jogam os trabalhadores, professores e estudantes nessa situação. Isso tudo é fruto da péssima gestão das reitorias sustentadas pela atual administração do PSDB aqui em São Paulo. Precisa acontecer urgente o aumento do repasse do ICMS para essas instituições e, também, a eleição direta para reitor”.

Ausência

Os três reitores foram convidados para a audiência, mas não compareceram. No entanto, um primeiro passo para mais esclarecimentos sobre a crise financeira de uma das instituições foi dado. Em abril, a Comissão de Educação e Cultura da Casa aprovou um requerimento de convocação para que o reitor da USP, Marco Antonio Zago, prestasse esclarecimentos sobre a situação do campus USP-Leste e sobre as providências adotadas pela reitoria em relação à situação orçamentária e seus cortes.

Enfraquecimento do ensino

Foto: Bruno Pavan

As dificuldades financeiras também refletem, segundo os trabalhadores, uma tentativa de enfraquecimento das universidades públicas e gratuitas não só no Estado como no Brasil.

Realidade que, consequentemente, para alguns críticos, coloca a privatização das universidades como uma alternativa viável. No entanto, segundo os presentes, a ideia de cobrar por aulas de quem tem um poder aquisitivo maior deve ser rechaçada.

“Iniciativas nesse sentido sempre vão ocorrer. É a velha disputa entre termos uma instituição pública e universal forte e a defesa de instituições privadas que são feitas para uma elite. Quem confunde um problema de gestão de uma reitoria com o descontrole do sistema todo, está querendo argumentos para privatizar. Os países mais desenvolvidos do mundo na questão da desigualdade são aqueles que a educação pública é gratuita e nós vamos continuar defendendo a gratuidade nessas instituições”, afirmou o presidente da Associação dos Docentes da USP (ADUSP), Ciro Nogueira.

“Nós não viemos aqui corporativamente para pedir aumento de salários. Viemos aqui para defender o direito do cidadão de ter um ensino público de qualidade, que é essencial para uma sociedade mais justa”, afirmou Marcilio Ventura, dirigente do Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp (STU).

Mobilização estudantil

A crise financeira nas instituições também afeta a vida dos estudantes das três instituições. Com orçamentos muito menores, as universidades já estão cortando investimentos em infraestrutura como em restaurantes populares e nos alojamentos e diminuindo o número de bolsas socioeconômicas. A estudante Yardena Sheery, da Comissão Estadual de Mobilização (CEM), da Unesp, explica que, com isso, muitos estudantes não conseguem se manter na universidade.

“Muitas pessoas precisam de um lugar pra ficar, já que veem de outras cidades estudar. Precisam da bolsa e do restaurante a um preço popular e não tem. Não adianta colocar estudantes negros, pobres e indígenas na faculdade, tem que dar as condições deles permanecerem “, disse.

Reflexo

A consultoria britânica QS anunciou também, nesta terça (27), o novo ranking das melhores faculdades da América Latina: a USP, líder desde 2011, perdeu a primeira colocação para a PUC do Chile.

Segundo a consultoria, a PUC tomou o primeiro lugar por conta do impacto de suas pesquisas, com citações de artigos em publicações internacionais. A reitoria da USP não quis comentar a queda no ranking.

Entre as dez melhores universidades, seis são brasileiras. Além das três universidades paulistas (USP 2º, UNICAMP 3ª e UNESP 9ª), estão a UFRJ (4ª ), a UFMG e UFRGS, que dividem a 10ª colocação.