Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Vai ter Copa

As lutas populares que ocorrem durante a Copa, em sua maioria, são justas e necessárias


Editorial da edição 587 do Jornal Brasil de Fato

Há poucos dias da abertura da Copa do Mundo de Futebol, organi­zada pela Fifa, segue quente o deba­te sobre as contradições, vantagens e desvantagens do maior evento espor­tivo, realizado há cada quatro anos.

A chamada grande imprensa, par­tidarizada, há meses dá demonstra­ções de seguir jogando a favor do fra­casso do evento, na ânsia de que is­so se traduza em resultados eleitorais favoráveis aos partidos políticos ali­nhados com seus interesses econô­micos e corporativos.

Chegou a apostar que as gigantes­cas mobilizações populares ocorridas em junho do ano passado se repetis­sem às vésperas da Copa. Não hesi­tou em condenar a repressão policial contra as mobilizações populares, desde que essas tivessem o carimbo de ser contra a Copa e o governo fe­deral. Até mesmo as ações violentas contra lojas, revendedoras de carros e bancos foram tratadas, no mínimo, de forma complacente. Aliás, há inte­resses, não desvendados ainda, entre essas mobilizações violentas e o di­ferenciado tratamento repressivo do Estado e da mídia a elas?

Todas as vezes (poucas vezes!) que o governo federal, em defe­sa dos interesses do país ousou en­frentar o poderio da Fifa, encontrou na mídia um forte adversário. A do­bradinha revista Veja e Rede Globo – tantas vezes acionada pelo bichei­ro Carlinhos Cachoeira – foi atuan­te em repercutir uma denúncia cla­ramente forjada contra Orlando Sil­va, então Ministro dos Esportes. Repetida incessantemente, a farsa provocou a queda do ministro, um desejo já manifestado pela Fifa em outros momentos.

As falcatruas da Fifa, seus esque­mas de propinas e corrupção, docu­mentados em programas jornalís­ticos em redes de TV como a BBC de Londres e em livros publicados em inúmeros países, contou sempre com o conivente silêncio dos meios de comunicação empresariais do Brasil. Não é mais segredo a troca de favores e acordos espúrios feitos entre a Rede Globo e os “donos” do futebol brasileiro, João Havelange e Ricardo Teixeira. Uma relação tão estreita que o jornalista Amaury Ri­beiro Jr. considera Teixeira o quar­to filho do “doutor” Roberto Ma­rinho. Um conluio que, certamen­te, facilitou à Rede Globo sonegar impostos no valor de bilhão de re­ais, atualizados, referentes à com­pra dos direitos da Copa de 2002. Frente a afirmativa que já quitou sua dívida com a Receita Federal, não são poucas as vozes que pedem: mostre o Darf, Rede Globo!

Não há limites para a sandice des­sa mídia, desde que iniciou sua trilha de partidarizar sua atuação e, clara­mente, assumir um lado nas disputas eleitorais. O escritor e jornalista An­tônio Barbosa Filho, em recente arti­go, denunciou que chegaram ao cú­mulo de “queimar a marca-Brasil”, como uma estratégia eleitoral. Para Babosa Filho há evidente torcida “pa­ra que o Brasil saia derrotado dentro e fora dos gramados. Um caos nas ci­dades-sede seria de grande proveito para as oposições na campanha elei­toral que se aproxima…”.

Recentemente, alguns colunistas dos jornais patronais, tidos como formadoresde opinião, não hesitaram em expressar suas expectativas de que um possível fracasso da Copa influencieo resultado das eleições de outubro. Assim, não escondem quantotorcem para tudo dar errado e issoajudar a emplacar candidatos representandoo arrocho, o neoliberalismo,e o entreguismo ao capital internacional.

Não estão, e nunca estiveram, preocupados com os problemas da Copa e muito menos com os problemassociais e estruturais que afetamo povo brasileiro. Fingem defenderagora recursos para saúde e educação, quando sempre defenderama privatização desses serviços. São os mesmos que tiraram 40 bilhõesde reais da saúde quando forçaramo fim da CPMF. Sempre ávidosde poder e dinheiro, defendem o arrocho salarial e a diminuição do Estado nos gastos sociais.

Enriquecem com as bilionárias verbaspublicitárias dos governos e das empresas estatais – quantias inúmerasvezes superiores aos gastos da Copa. Calam-se frente as escandalosasquantias que o governo transfere,anualmente, aos bancos. Exigem cada vez mais gastos com repressão policial e menos com moradia popular,transporte público, saúde e educaçãopúblicas, gratuitas e de qualidade.

Essa burguesia brasileira, nessa Copa do Mundo, nada faz de diferentedo que já faz há 500 anos: estar contra os interesses do país e do povobrasileiro.As lutas populares que ocorrem durante a Copa, em sua maioria, são justas e necessárias. São diferentes segmentos sociais, populares, historicamente injustiçados e desassistidosde políticas públicas, que aproveitarãoo período do evento para ganharforça em suas lutas por direitos e reivindicações justas.

Acontecem em todos os países que recebem eventos como este, de repercussãointernacional. E a existênciae atuação dos movimentos popularesé exatamente uma demonstraçãodo fortalecimento da democracia de um país. É saudável para a democraciaque as bandeiras vermelhas e os rostos sem máscaras voltem a ocuparas ruas. As manifestações popularesestiveram sempre presentes nas lutas que promoveram as conquistas econômicas, sociais e políticas que beneficiam o povo brasileiro.

Já os que se restringem ao slogan “não vai ter Copa” são tão fugazes quanto a duração do torneio mundial.Ou alguém imagina que continuarãosaindo às ruas para fortalecer as lutas em defesa da saúde e educaçãopúblicas?