Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Nas mãos de Eike Batista

Homem mais rico do país contrata ex-funcionários da Petrobras para concorrer com ela


Leandro Uchoas e

Alessandra Murteira

do Rio de Janeiro (RJ)

Que Eike Batista é o homem mais rico do Brasil, e oitavo no ranking mundial, todos sabem. A revista Forbes já havia anunciado em março. No entanto, o que poucos sabem é que o bilionário é também o maior magnata de petróleo do país. Através dos leilões realizados nos campos brasileiros, com auxílio direto de ex-diretores e ex-gerentes da Petrobras, contratados por ele, sua empresa, a OGX, tornou-se o maior grupo privado de exploração marítima do Brasil – em termos de áreas de exploração de petróleo em mar, a companhia de Eike só perde para a Petrobras. Entretanto, a atuação do bilionário no setor é polêmica. Além das contratações de ex-integrantes da Petrobras, que estariam usando informações privilegiadas a favor do empresário, a OGX ainda tem se envolvido em problemas de segurança do trabalho.

Os negócios no setor do empresário são bilionários. Em junho de 2008, quando a OGX fez sua primeira oferta pública de ações, Eike lucrou cerca de R$ 25 bilhões. Ao estrear no mercado, antes de furar seu primeiro poço de petróleo, a empresa já valia R$ 35 bilhões – 40% a mais do que a quantia anterior. Aos executivos que arremataram a oferta, o empresário retribuiu de forma muito generosa: foram pagos 8% do capital da empresa, cerca de R$ 3 bilhões. Em seguida, Eike anunciou à imprensa que está negociando com transnacionais do setor – que chamou de “big boys” – a venda de 20% de suas áreas de exploração na Bacia de Campos.

Eike não esconde que a exploração do petróleo na camada do pré-sal tende a ser a sua menina dos olhos. Para isso, conta com uma carta na manga de peso. Os ex-diretores e ex-gerentes da Petrobras contratados por ele para a OGX teriam acesso a informações privilegiadas sobre áreas de exploração e produção do Brasil e do exterior. Rodolfo Landim e Paulo Mendonça, hoje presidente e diretor de operações da OGX, respectivamente, têm em seu setor sete ex-gerentes e dois ex-consultores da Petrobras. Não é por acaso que a estatal passou a considerar a OGX uma de suas principais concorrentes.

“Nós levantamos suspeitas sobre a atuação deles. Não cumpriram sequer uma quarentena para atuar fora da Petrobras. Agora, utilizam informações privilegiadas. Não é por acaso que este empresário se tornou um dos homens mais ricos do mundo”, protesta Emanuel Cancela, do Sindicato dos Petroleiros (Sindpetro-RJ). “É preciso que se diga que isso só se deu porque houve a quebra do monopólio estatal do petróleo. E, no mundo, o controle estatal é cada vez maior – 70% das reservas estão nas mãos dos Estados nacionais. É preciso retomar o monopólio, para que os brasileiros tenham controle”, completa.

Em 2007, a OGX arrematou, na 9ª Rodada de Licitações da Agência Nacional do Petróleo (ANP), 21 blocos em áreas potencialmente produtoras de petróleo – algumas delas localizadas na franja do pré-sal. A empresa estima que estas reservas contenham, em média, cinco bilhões de “barris de óleo equivalente” (boe). Em seu portal, na internet, a OGX informa: “os Recursos Potenciais Riscados da OGX consideram uma probabilidade média de sucesso de 27%. No entanto, a equipe de exploração da Companhia, enquanto atuava na Petrobras, obteve um índice médio de sucesso de 53% nos últimos quatro anos”.

Lei de iniciativa popular

Os salários dos ex-diretores e ex-gerentes são considerados faraônicos. Critica-se o fato desses profissionais utilizarem informações privilegiadas e conhecimento estratégico, adquiridos nos anos em que trabalharam na Petrobras, para beneficiar a empresa de Eike. Além disso, o bilionário ainda é investigado por denúncias de irregularidades de licitações nos processos. A Federação Única dos Petroleiros está realizando uma ampla campanha de coleta de assinaturas. A intenção é apresentar no Congresso Nacional um projeto de lei de iniciativa popular que garanta o controle estatal e social sobre as reservas brasileiras.

A OGX foi a empresa que, durante a 9ª Rodada de Licitações, mais investiu em compras de blocos de exploração do mineral. Foram R$ 1,4 bilhão – 66% de toda a arrecadação do leilão. Na ocasião, o governo federal havia retirado, na véspera, o pré-sal da negociação. Ao todo, são 29 blocos exploratórios nas Bacias de Campos, Santos, Espírito Santo, Pará-Maranhão e Parnaíba. Apenas na Bacia de Campos, a OGX tem sete blocos, e já descobriu petróleo em cinco deles. Segundo a empresa, ali já foram encontradas reservas que variam de 2,6 bilhões a 5,5 bilhões de barris. Como a maior parte das empresas do grupo EBX, a OGX ainda não está em fase de produção. A previsão é que ela comece a produzir em 2011, a um ritmo de 20 mil barris por dia, alcançando 730 mil barris diários em 2015 e 1,38 milhão de barris por dia em 2019.

Em 2009, Eike adquiriu participação de 70% em sete blocos terrestres na Bacia do Parnaíba, Maranhão. A compra foi feita junto à empresa Petra Energia. A bacia é considerada uma nova fronteira de grande potencial na produção terrestre de gás. Os blocos BT-PN-4, BT-PN-5, BT-PN-6, BT-PN-7, BT-PN-8, BT-PN-9 e BT-PN-10 estão localizados em uma área que se estende por 21 mil quilômetros quadrados. O grande potencial para produção de gás, segundo afirma a OGX, foi confirmado através de um poço perfurado em 1987, onde foram constatados indícios de hidrocarboneto.

(Leia mais na edição 392 do Brasil de Fato)