Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Os negócios da Copa do Mundo

O futebol-arte próprio da criatividade humana se transforma no miserável futebol propagandístico próprio da sociedade do espetáculo











Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr



Por Roberta Traspadini

Estamos em plena Copa do Mundo e somos tomados por tantas sensações, inquietações. Através dos jogos vemos as disputas entre as nações, a concorrência e o destaque individual, a periferia con­tra os centros, times ricos e times pobres. Os gramados e as camisas com propa­gandas, o solo e os corpos como estan­dartes das mercadorias.

Mas qual o verdadeiro significado da Copa do Mundo? A Copa do Mundo no Brasil nos coloca de frente para uma rea­lidade grotesca: a apropriação privada do jogo e o desenvolvimento do futebol co­mo uma mercadoria rentável, especula­tiva e fictícia, em contraposição ao pra­zeroso encanto do simples valor de uso do gozo.

Vivemos a era da substituição do jogo de passe de bola e das traves improvisa­das com o que se encontra nas ruas, pro­tagonizado por crianças, jovens e adul­tos em várias comunidades ao longo dos desconhecidos Brasis que conformam o Brasil, pela camisa verde-amarela patro­cinada pelos grandes capitais financeiros mundiais.

É o futebol no movimento contradi­tório entre o poder ser para além das regras do capital e o onipotente dever da ordem dominante. Neste estar en­tre o poder ser e o não conseguir ser, no qual vivem os trabalhadores, o fute­bol se apresenta na história popular do Brasil contemporâneo como um crime hediondo do capital contra o trabalho: a convivência com a morte do direito à vida, ao jogo, ao encanto e à realização da maioria.

O futebol-arte próprio da criativida­de humana se transforma no miserável futebol propagandístico próprio da so­ciedade do espetáculo em que a oculta­ção do real não revela o preço pago por muitos na concretização do show pro­duzido para o ostentoso acúmulo priva­do de poucos.

Fifa, o futebol mercadoria

A Federação Internacional de Fute­bol (Fifa) com sede em Zurique-Suí­ça foi conformada legalmente em 1904, em plena era hegemônica do capital mo­nopolista financeiro (imperialismo). O negócio do futebol de forma ocorre no mesmo momento em que o mundo pas­sa a ser regido pela dinâmica do capital financeiro.

O site da Fifa informa que de 2007 a 2010 seus negócios do futebol foram exitosos, em especial, nos preparativos para a Copa do Mundo da África do Sul. A indústria patenteada da bola acumu­lou neste período uma receita de 4,189 bilhões de dólares em que parte subs­tantiva deste valor de mercado se ori­gina dos eventos do grande espetáculo do futebol.

Além desta fonte, o atual capital finan­ceiro Fifa lucrou 37 milhões de dólares com a venda de quinquilharias patente­adas no mesmo período. Camisas, bone­cos, bolas, meias, todos os kits da ven­da do sonho de pertencer à grande al­deia global do futebol “arte”, materializa­do nas campanhas de marketing do ca­pital Fifa.

Os ganhos da Copa do Mundo no Bra­sil prometem. Ao modernizar-se en­quanto capital financeiro, a indústria Fi­fa.com disponibilizou quase 3 milhões de ingressos dos quais 2,9 milhões já fo­ram vendidos, com uma lista de espera de 8 milhões. Além disso, as recordações da Copa do Mundo do Brasil, através dos produtos cadastrados no site, expressa a gigantesca máquina de fazer dinheiro da indústria.com da Fifa.

A Fifa reforça em seu site que os custos de 2 bilhões de dólares para os preparati­vos da Copa são arcados por ela. Como se os custos não fossem debitados da conta do trabalho e dos cofres públicos do país sede da copa.

Além disso, como educação e futebol para os negócios estão diretamente re­lacionados, a Fifa possui na Suíça um centro internacional de estudos esporti­vos que oferece especializações e cursos de curta duração organizados para a ad­ministração dos negócios esportivos do futebol. Merece destaque e um estudo o mestrado internacional da Fifa em ad­ministração, direito e humanidades do esporte.

O país do futebol foi escolhido como o palco benevolente da reprodução so­cial do capital financeiro Fifa que se apresenta como um representante glo­bal dos interesses do futebol. Os tristes trópicos alegram o palco carnavalesco da acumulação de capital dos robustos cofres da Fifa.

O vermelho do verde-amarelo

Enquanto isto, no país do futebol-ar­te os “invisíveis” populares seguem seus rumos na procura por trabalho, na luta por moradia, por inserção na educação e projeção de saúde mínima, para não terem que usar o falido sistema de cura dos lotados hospitais brasileiros. Popu­lares e invisíveis.

Na imagem aérea da arena do teatro moderno do futebol, não há espaço para a veiculação do quanto os estádios estão rodeados por gigantescas periferias, ter­ritórios em que seus ocupantes não apa­recem na fita da fantasia Fifa, mas que são os verdadeiros celeiros de craques desconhecidos em várias áreas da produ­ção de vida.

O futebol é uma entre tantas paixões mundiais. E belo por ser próprio à cria­tividade humana. Mas a capacidade de transformar o belo em mercantil e de sujeitar todos à sua ordem hegemônica, não sem contestações, cobra seu preço. Entre o sonho do ganhar dinheiro com a bola, vive-se uma realidade concreta de se fugir ao menos das balas: venham elas do Estado ou dos corpos armados.

O país do futebol é vermelho além de verde-amarelo. Porque vermelha é a cor dominante nas ruas. Vermelho é o san­gue sobre os asfaltos, nos corredores dos hospitais, nas contas não pagas pe­la maioria que vive para tentar arcar com sua sobrevivência no palco mercantil do futebol fantasia do mundo do trabalho atual. Outro Brasil, verdadeiramente be­lo pulsa.

E vermelho também é a sua cor. Por­que vermelha é a luta popular, vermelha é a cor da bandeira da luta, vermelho é o sonho que sempre presente, está por des­pertar. Galeano ama a bola que vive den­tro dos pés do Messi. Talvez ele enxergue a origem vermelha oculta pelas chuteiras do craque.

Roberta Traspadini é professora da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) e da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF).