Por que os bancos lucram mais do que os outros setores?
O que acontece então quando a economia cresce menos, em ritmo menos dinâmico? Nesse caso, os bancos também ganham! Existe uma fonte de receita extremamente relevante e histórica do setor bancário brasileiro: os ganhos com financiamento da dívida pública

Por Juvandia Moreira
Mais uma vez em 2013 o setor bancário brasileiro foi o mais rentável da economia brasileira. De acordo com dados das empresas de capital aberto feitos pela Economatica, a rentabilidade mediana dos bancos com ação na bolsa em 2013 foi de 12%. Esse valor representa o meio do caminho entre as rentabilidades de cerca de 30 bancos que tem ação em bolsa, bancos de diversos tamanhos e segmentos. Se olharmos a rentabilidade dos maiores bancos que atuam no país, no entanto, veremos que os valores são ainda mais impressionantes. A rentabilidade mediana destes bancos – que concentram mais de 80% do mercado - gira em torno de 20%.
Isso significa que enquanto as aplicações de um trabalhador na caderneta de poupança fizeram seu patrimônio aplicado render cerca de 5,2% no ano passado, o patrimônio bilionário dos bancos rendeu 12% e se considerarmos só os maiores, 20%. Outros setores da economia apresentaram rentabilidade bem inferior ao setor financeiro: Setor de Construção (10,7%), Energia Elétrica (9,8%), Têxtil (6,6%), Alimentos e Bebidas (5,8%), Siderurgia e Metalurgia (5,6%), Setor Químico (5,09%) e Telecomunicações (-1,42%).
A diferença de rentabilidade entre as empresas financeiras e não financeiras se explica pela natureza de suas atividades, principalmente no Brasil. Uma indústria de alimentos, por exemplo, para gerar valor precisa de capital inicial para realizar compras dos meios de produção - prédios, máquinas, insumos, terra, matéria-prima, etc. -, precisa contratar trabalhadores assalariados para realizar o processo produtivo e neste processo gerar lucro. Para que esse processo se realize em sua plenitude, no entanto, precisa realizar seus lucros, ou seja, precisa ter condições de vender no mercado aquele produto gerado no processo produtivo. O que significa que se a demanda agregada da economia estiver com ritmo baixo, há uma boa chance de as vendas das empresas produtivas caírem e consequentemente seus lucros e sua rentabilidade.
Quando a economia está crescendo, com mais empregos e renda o setor financeiro ganha. As empresas precisam investir e os trabalhadores se sentem mais seguros para consumir, o que muitas vezes se traduz na busca por crédito concedido pelos bancos. O preço cobrado por isso são os juros e sabemos que, no Brasil, esse preço é particularmente elevado. A taxa de juros do cheque especial, por exemplo, gira em torno de 171% ao ano e a do crédito pessoal não consignado 100,3% ao ano. Trata-se, sem dúvida, de uma fonte de ganhos inigualável. Mais do que isso, a receita de crédito dos bancos é garantida por contrato, ou seja, mesmo que a empresa que tome crédito demore mais do que previu para obter receitas ou que a família que faz um empréstimo tenha alguma dificuldade financeira, existe um instrumento jurídico que garante que os bancos irão receber os valores, independentemente de como anda a economia. Além disso, quando a economia cresce mais pessoas abrem conta em banco (porque conseguiram emprego, por exemplo) e sabemos que ser cliente de banco significa pagar tarifa. Em 2013 os maiores bancos no Brasil ganharam R$ 97 bilhões apenas com receitas de tarifas e prestação de serviços.
O que acontece então quando a economia cresce menos, em ritmo menos dinâmico? Nesse caso, os bancos também ganham! Existe uma fonte de receita extremamente relevante e histórica do setor bancário brasileiro: os ganhos com financiamento da dívida pública. Os títulos públicos no Brasil pagam uma das mais altas taxas de juros do mundo, com alta liquidez e baixíssimo risco. As instituições financeiras no Brasil detêm diretamente 30% dos títulos públicos do governo e os fundos de investimento administrados por estas instituições são detentores de mais 20%. Quando a taxa Selic sobe retraindo o crescimento econômico, portanto, os bancos ganham e muito! Vejamos o que vem ocorrendo em 2014: com as recentes altas da taxa Selic os três maiores bancos privados do país ganharam em seis meses R$ 37 bilhões (alta de 19,5%) com operações de títulos e valores mobiliários e mais R$ 7 bilhões como remuneração das aplicações compulsórias (elevação de quase 70%).
Além disso, se por um lado, a elevação dos salários leva as pessoas a se sentirem mais seguras para contrair empréstimos, por outro, a estagnação dos salários muitas vezes leva as famílias a “complementarem” a renda com crédito, gerando novos ganhos com juros para os bancos. Isso ocorreu por décadas de estagnação salarial nos EUA, por exemplo. Concluímos, portanto, que os bancos têm lucro e rentabilidade de forma independente do ciclo econômico e, nestas circunstancia não tem nenhum compromisso com o país. Seu compromisso está ligado apenas aos retornos de curto prazo garantidos aos acionistas.
Juvandia Moreira é formada em direito e pós-graduada em política e relações internacionais. Está à frente da presidência do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região desde 2010.