Brasil de Fato

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“O socialismo é uma inevitabilidade histórica”, diz Rui Costa Pimenta

Candidato do PCO critica setores da esquerda por fazerem política “pequeno-burguesa”











Reprodução/Facebook



Por Bruno Pavan,

Da Redação

Conhecido por frases de efeito mar­cantes e discursos diretos, o Partido da Causa Operária (PCO) nasceu em 1996. Desde 2002, Rui Costa Pimenta, presi­dente nacional do partido, disputa as eleições ao cargo máximo do Executivo brasileiro.

Aos 57 anos, Rui é dono de um discur­so firme e “radical” como ele mesmo ad­mite. Começou a se envolver com políti­ca desde muito jovem, quando viveu na Inglaterra e teve acesso a textos que não teria se morasse no Brasil.

Após seu retorno, entrou na faculda­de de jornalismo em 1979 e ingressou no movimento estudantil. Trabalhou no Sindicato dos Químicos de São Paulo e para a CUT. Militou no PT até o início dos anos de 1990, quando foi expulso.

Em entrevista exclusiva para a série do Brasil de Fato com os presidenciáveis, Rui critica setores da esquerda no Bra­sil, que chama de “pequeno-burgueses”, e aponta que, para o PCO, as eleições são um “palanque para a luta política geral”.

Brasil de Fato – Qual o regime ideal a ser implantado no Brasil para o PCO e qual o principal problema do país?

Rui Costa Pimenta – Não se trata de um problema de regime ideal. Nós acha­mos que o socialismo é uma inevitabili­dade histórica. Lutamos como parte de um processo objetivo, que se desenvol­ve independentemente de nós, do que achamos ou deixamos de achar. O go­verno tem que ser controlado pela clas­se trabalhadora e deve expropriar a pro­priedade privada, o grande capital, as grandes empresas e bancos e colocar a economia a serviço do desenvolvimento amplo da sociedade para permitir uma melhoria na qualidade de vida da popu­lação. O problema histórico do Brasil é que ele é aquele país muito peculiar no mundo que fica no limiar entre os atra­sados e os desenvolvidos. O maior deles é a questão agrária, que é o nó do atra­so nacional que precisaria ser rompido. Além, logicamente, da dependência e da opressão do capital estrangeiro.

Como você vê o que aconteceu na Venezuela em relação ao chavismo em comparação com a ascensão do Lula em 2002?

A ruptura é tanto maior quanto maio­res foram as mobilizações revolucioná­rias das massas numa dada etapa. Não é que o chavismo seja hiperrevolucionário e o PT seja contrarrevolucionário, que é o que muita gente pensa. Tem a ver com as condições políticas. O governo PT, em parte, é um resultado indireto de uma mobilização. A eleição do Lula foi pro­duto de uma ruptura. Você vê que hou­ve uma coincidência, quase toda a Amé­rica do Sul é governada por governos de esquerda, nacionalistas burgueses de di­versos graus. O motivo disso é o fracas­so da política neoliberal. Esses são go­vernos que, como todo o governo nacio­nalista burguês, operam em um quadro de enfrentamento e conciliação com o imperialismo, as duas coisas ao mesmo tempo, sem nunca chegar ao extremo da ruptura, a não ser quando eles são força­dos por uma condição externa.

O governo brasileiro se virou mais para a América do Sul nos governos do PT e muitos acusam o Brasil de ser imperialista com os vizinhos. Como você vê essa situação?

Eu acho que o Brasil se aproxima dos países da América do Sul como uma me­dida de autodefesa contra o imperialis­mo. Não é que ele esteja explorando o país vizinho. O que se tem feito nos tra­tados econômicos no marco do Merco­sul e de outros instrumentos dessa na­tureza é uma política de autodefesa no marco da conciliação. O problema é que o imperialismo vai acabar engolindo to­dos esses governos. Sem uma ruptura com o sistema é impossível controlar a situação. Você vê que o governo chavis­ta, apesar da imensa popularidade, vive na corda bamba. O imperialismo é uma força muito poderosa, que domina com grande facilidade uma nação gigantes­ca como o Brasil. Não é pouca coisa. No marco da conciliação, é o pacto entre o cordeiro e o leão, e isso não é um pacto entre iguais.

Você considera que o PT faz um governo de esquerda?

Considero um governo de esquer­da. Logicamente uma esquerda burgue­sa, extremamente moderada, que pro­cura levar adiante uma política de inte­resses da burguesia nacional e fazer cer­ta abertura para as camadas populares. Muita gente estranha essa posição por­que encara a esquerda como um atesta­do de pureza. Mas o governo Vargas, que teve início em 1950, foi um governo de esquerda, mesmo ele sendo antes o che­fe de um governo de tipo fascista. O PT é um partido de esquerda, assim como os partidos social-democrata francês, ale­mão, que, apesar de responderem aos interesses do imperialismo, mantêm uma relação com os trabalhadores dife­rente da de um partido de direita.

Sobre as manifestações de junho do ano passado, qual a sua opinião sobre o ocorrido nas ruas?

Nós participamos ativamente delas desde o começo, e temos uma opinião muito concreta. Primeiramente, elas co­meçaram como um movimento reivin­dicativo do transporte, que aderiu um caráter político devido à repressão bru­tal do governo do estado de São Paulo. A burguesia, a imprensa capitalista e di­reitista e os partidos de direita trataram rapidamente de desvirtuar o caráter da manifestação, chamando a uma dilui­ção completa e procurando voltar a ma­nifestação contra o PT. Isso estabeleceu uma enorme confusão política. As mani­festações cumpriram uma etapa; está tu­do aberto. A insatisfação que ela mostra contra o PT é real porque o governo de fato não atendeu as necessidades dessa parcela. Mas eu acho que de um modo geral as manifestações, em si, indepen­dentemente das particularidades, foram positivas e nós caminhamos para uma época de maiores manifestações.

Qual a sua opinião sobre as eleições como elas se dão hoje no Brasil? Tendo em vista esse pensamento de que a mudança só viria pela revolução, qual é o motivo da presença do PCO nas eleições?

Nós encaramos a eleição como uma tri­buna para a luta política geral. É o que os marxistas sempre pensaram: o po­vo é chamado pela burguesia, que é uma força política no país, a se mobilizar em torno de um embate político. Nós acha­mos que temos que fazer parte desse de­bate embora nós não concordemos com as virtudes reformadoras do processo. A eleição acaba sendo sempre o produ­to de uma manipulação. Não é como um restaurante à la carte, o cidadão chega lá e quer comer filé, mas dizem pra ele: só tem macarrão e peixe. Se o garçom ain­da falar que o peixe está estragado, final­mente ele só pode escolher mesmo o ma­carrão. Se você falar “vote na esquerda”, o eleitor vai olhar e perguntar: mas que esquerda, a esquerda do PT ou a esquer­da do PSOL, PSTU, PCO e PCB? O eleitor vai acabar votando no PT porque é o par­tido que vai conseguir vencer a eleição.

Em um vídeo disponível no site do PCO, você faz uma crítica a alguns setores da esquerda brasileira os chamando de “pequeno-burgueses”. Num certo momento você declara que o socialismo com democracia é contrarrevolucionário. O que você quis dizer com essas colocações?

Vamos pegar o caso mais óbvio que é o do PSOL. O PSOL é uma federação de parlamentares, isso já define o parti­do como um partido pequeno-burguês. Um partido operário não pode ser isso. O parlamentar é que tem que ser contro­lado pelo partido. O problema todo é es­se tal de socialismo com democracia, ve­ja bem a peculiaridade da frase, existiria um socialismo com democracia e um so­cialismo sem democracia. O socialismo rigorosamente é a superação da demo­cracia. Considerar que o socialismo seria um regime econômico superior, mas po­liticamente aquém do regime da burgue­sia é uma contradição lógica. Se ela é um absurdo teórico, na prática, ele faz a mes­ma coisa da política do PT, só que de um ponto de vista utópico. [Quando] o PT defende que só dá pra progredir através de acordos, ele pratica uma política bur­guesa. “Você quer aprovar um aumento para o Bolsa Família? Chama o PMDB, oferece cargos, faz aquele toma lá da cá e aprova o que você quer”. É uma políti­ca que nunca vai chegar a favorecer o po­vo brasileiro, mas é uma proposta con­creta porque o partido que ganha a pre­sidência não consegue ter mais do que 100 deputados dos quase 600. Pra fazer qualquer coisa tem que ser por acordo. Os outros estão falando a mesma coisa. A não ser que antes de chegar ao poder você modifique totalmente o regime po­lítico, o que não está em pauta, você vai cair na mesma situação do PT. Eu vi que o Randolfe Rodrigues falava assim: “Vou governar sem o PMDB”. Mas o PSOL é um partido que elege muito menos de­putados que o PT, [de modo que] com al­gum partido burguês ele vai ter que go­vernar. O socialismo com democracia é isso: ele não rompe revolucionariamente com a ordem burguesa; é uma proposta que não tem nada de concreto. Eles vão fechar o Congresso? Eles têm apoio das Forças Armadas pra fazer isso? Vão cha­mar o povo pra invadir o Congresso? O que ele vai fazer? Sobre a nossa política você pode perguntar: “Será que vai ter (a revolução)?” Eu não sei. Pode ser que sim, pode ser que não, mas a mudança revolucionária é uma maneira concreta de mudar o quadro, ou então, é o acor­do, não tem muito terreno intermediá­rio. Agora, é preciso ficar claro, e isso de­ve ficar bem enfático: pra nós, o socialis­mo é uma superação da democracia bur­guesa. Se estivermos pensando em al­go que seria inferior ao regime de Esta­do de direito, de garantias democráticas, então, não vale a pena porque é um re­gime de barbárie. Você também não po­de ser um regime progressista no terre­no econômico se a expressão política de­le é a barbárie.

Qual a sua posição em questões como o aborto, casamento gay e legalização das drogas no país?

Nós somos contra todo o tipo de proi­bição, cada um faz o que quer! Você é drogado e fulano acha que isso aí é muito feio, autodestrutivo, tudo bem, mas não é crime e, portanto, não deve ser proibi­do, nem ser objeto da legislação. Sobre o casamento gay e o aborto, a mesma coi­sa. Nossa posição nesse sentido é bem radical, nós não queremos dar a socieda­de escravagista, capitalista e repressiva nenhum tipo de poder sobre o cidadão. Os direitos têm que ser todos garantidos. Para nós, o Estado de direito é quando você consegue forçar o Estado a garan­tir os direitos do povo. Quando ele co­meça a tirar o direito do povo, não é Es­tado de direito, é um Estado de arbitra­riedade. Então, somos contra a diminui­ção da maioridade penal; a favor da re­dução de todas as penas criminais; con­tra o encarceramento de pessoas por vá­rios motivos pelas quais elas são encar­ceradas hoje.