Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Dronecracia

O papel dos drones como símbolo da nossa relação com o mundo já vinha sendo sugerida pelo sociólogo inglês Benjamin Noys. Mas foi o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, principalmente numa entrevista a Eliane Brum, quem definiu claramente como estamos nos tornando drones ao distanciar os efeitos das nossas ações de nós mesmos








Silvio Mieli

SIM, ESTAMOS VIRANDO drones. Deixamos de arcar com as consequências dos nossos atos. E apesar da fes­ta democrática, da aura participativa e da sensação cívica, o sinal eletrônico das urnas concretiza uma atitude muito distante de ação política direta.

O papel dos drones como símbolo da nossa relação com o mundo já vinha sendo sugerida pelo sociólogo inglês Benjamin Noys. Mas foi o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, principalmente numa entrevista a Eliane Brum (http://bit.ly/1r8O7Sc0), quem definiu claramente como estamos nos tornando drones ao distanciar os efeitos das nossas ações de nós mesmos. “A pessoa está lá nos Esta­dos Unidos apertando um botão num computador, aquilo vai lá para o Paquistão, joga uma bomba em cima de uma escola, e a pessoa que apertou o botão não está nem sa­bendo o que está acontecendo. Ou seja, nós estamos dis­tantes. As consequências de nossas ações estão cada vez mais separadas das nossas ações…”, diz Viveiros — que acabou de lançar o livro “Há mundo por vir?” em parceria com sua esposa, a filósofa Déborah Danowski.

Do ponto de vista antropológico, os índios sabem que matar para comer exige um certo comprometimento, além de ser perigoso e trazer consequências, enquanto quem compra comida no supermercado não quer nem saber das condições dos matadouros e abatedouros. E o mesmo raciocínio vale para os demais embates com a rea­lidade concreta, das catástrofes ambientais às eleições que ora acabamos de vivenciar. Aperto um botão e a res­ponsabilidade passa a ser deslocada para outra dimensão.

Essa “dissociação mental” é de fato cada vez mais evi­dente. Bruno Latour, um dos articuladores do recente colóquio “Os Mil Nomes de Gaia” (http://osmilnomes­degaia.eco.br), reforçou essa questão ao dizer que é pre­ciso criar instrumentos que nos sensibilizem e que nos levem a pensar, algo que ligue as “estatísticas da ciência” ao que elas indicam. Vale lembrar que a palavra drone vem do inglês arcaico e significa zangão. É o macho das abelhas que tem papel de reprodutor. Através de visão e olfato apurados protege a colmeia de outros insetos que possam ameaçá-la. As abelhas são responsáveis pela po­linização de 80% dos cultivos do planeta e sua extinção (causada pelas monoculturas, intensificação do uso de agrotóxicos e as queimadas) pode significar o fim da vi­da na Terra.