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Literatura Periférica e o lodo no meio do caminho

A questão é: Como ter um plano eficaz e digno sobre o livro e a leitura na cidade, se as iniciativas que já realizam os objetivos dessa projeção não são valorizadas?








Por Michel Yakini

Na última década os Saraus que acontecem aos montes nas quebradas de Sampa têm firmado ações de incentivo à leitura, livros independentes, práticas educativas, bibliotecas comunitárias e articulações diversas para ampliar o acesso à literatura.

O verbo que ecoa nos becos teima em arrancar os espinhos-invisíveis dos livros. Ações com os Saraus da Cooperifa e do Binho são referências que (re)significaram a decadência dos butecos e consolidaram uma cena literária, inspirando outros arrabaldes sem espaço na vitrine jabá das editoras-empetecadas.

No dia 12 de novembro de 2013, vários coletivos que representam essa cena estiveram no encontro Existe Diálogo em SP- Saraus, com o então secretário municipal de cultura Juca Ferreira. A intenção era diminuir o fosso entre a secretaria e os articuladores/as dessas iniciativas.

Uma carta foi lida e entregue ao secretário e reivindicava, entre outras coisas, a continuação e ampliação do programa “Literatura Periférica - Veia e Ventania nas Bibliotecas de São Paulo”, que é realizado desde 2011, numa parceria entre o Sistema Municipal de Bibliotecas e alguns Saraus. O programa prevê a contratação dos grupos para realizar apresentações e mediação de leitura nos seus respectivos bairros.

Um dos encaminhamentos sugeridos era a criação de um edital público, que pudesse abrir margem para outros coletivos participarem do programa e atender mais regiões e equipamentos culturais para além das bibliotecas.

Somente um ano depois, após pressão realizada pela articulação dos Saraus na Câmara dos Vereadores, foi garantido R$ 1,8 milhões para o “Veia e Ventania”, mas até o momento prevalece o lodo no caminho e nada de edital, contratação ou algo que garanta a continuidade do programa. Crise, cortes e contingenciamentos são a bola da vez na fala emperrada da burocracia para justificar o fato.

Essa indefinição sobre a ampliação e continuidade do Programa “Veia e Ventania”, é incoerente com a elaboração do PMLLLB (Plano Municipal de Livro, Leitura, Literatura e Biblioteca) na cidade, que vem na linha do Plano Nacional.

As quebradas têm intimidade com a palavra não é de hoje. Basta revisitar nossa história, desde os provérbios que sobreviveram nos navios negreiros, na saliva sangrenta que regou as raízes daqui, que versou nos terreiros, na capoeiragem, no samba, na embolada e repente, nos improvisos do hip-hop e nas batalhas de poesia (Slams). Tudo na contramão do serviço público chulézento que vivenciamos.

E mesmo a escrita e a leitura oferecida feito um farelo envenenado, temos uma prosa firmada na Imprensa Negra, no início do século XX, nos cordéis vindos nos paus de araras nordestinos e nas letras de Luiz Gama, Solano Trindade, Carolina de Jesus e da geração Cadernos Negros que demonstram um revide antigo.

Nossa ciranda faz da palavra e do livro um ato de ousadia, de identidade, semeação e horizontes dignos, e isso precisa ser considerado por qualquer lei ou plano que se tenha. Valorizando os ventos antigos, seja por políticas de fomento, incentivos ou premiações, mas sem que prevaleça o ego oficial patenteando o “novo”.

A cultura é (e sempre foi) nosso fio de energia, pois a educação tá planejadinha pra manter um exército de analfabetos, a saúde inala o bolor da urgência marcada pra daqui 5 meses, a habitação se edifica com bombas de gás e reintegração de posse, a segurança segue, protegendo o “cidadão de bem” da “atitude suspeita”, e o casco da nossa indignação inchando… inflamado de tanto pus.

Por isso, é fundamental que a Secretaria de Cultura em São Paulo, em nome do atual secretário Nabil Bonduki articule com mais ação junto aos Saraus de SP, pra amenizar as náuseas de tantas reuniões e reivindicações repetidas e faça valer o que está florido e fértil. Que coloque em prática a promessa-fantasia que deixa um bucado de lodo na sola e dificultam nosso movimento.

Michel Yakini é escritor e produtor cultural. www.michelyakini.com

Para saber mais sobre o PNLL (Plano Nacional de Livro e Leitura) clique aqui e leia o artigo do escritor Rodrigo Ciríaco, representante da sociedade civil no Conselho Diretivo do plano. Para conhecer a discussão sobre o PMLLLB clique aqui e visite a página do grupo de trabalho.