Brasil de Fato

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Empregadas domésticas: elas não querem mais “servir”

A reportagem que trata com naturalidade as “agências” para trabalhadoras filipinas a serviço da alta classe média é infeliz. Mas me alegra notar que começa a se reconstruir a dignidade do povo brasileiro, que hoje pode recusar uma relação de trabalho serviçal.








Por Juliane Furno

No último domingo, 10 de maio, me surpreendi mais uma vez com a matéria veiculada pela Folha de São Paulo com o seguinte título “Empresas ‘importam’ babás e domésticas das Filipinas” (link: http://naofo.de/4dgm)

A infeliz reportagem trata com naturalidade a criação de “agências” de emprego que buscam trabalhadoras nas Filipinas e em Singapura para execução de tarefas domésticas e de cuidado das crianças por famílias da alta classe média paulistana.

Dentre os motivos alegados pelos contratadores, destaco a seguinte opinião de uma empresária que utiliza os serviços da empresa Global Talente: “A língua é o de manos: passaram mais de dez babás por aqui e nenhuma dava certo, por que ficavam de má vontade. […] A Liza (doméstica Filipina) está sempre bem humorada e eu preciso até pedir para ela parar de trabalhar; o povo filipino gosta de servir”.

Para ampliar as minhas suspeitas da ridicularidade do que estava sendo propagado na reportagem me deparo com a seguinte afirmação: “As babás filipinas são tipo médicos cubanos, mas sem pagar pedágio para o Fidel”. (pagar pedágio para uma empresa privada pode???)

Poderia, com isso, dar essa reflexão como encerrada, porque ela, por si só, retrata a decadência de uma alta classe média que se desenvolveu em privilégios nas custas da supressão de direitos, porém, resolvi tecer mais algumas opiniões.

A construção do mercado de trabalho brasileiro, característico de uma formação subdesenvolvida e dependente, tem como marca a informalidade, marginalidade, heterogeneidade estrutural e excedente de mão de obra. Dessa junção de fatores, o emprego doméstico emerge como uma das principais formas de inserção das mulheres na classe trabalhadora no mercado assalariado.

Somado a isso, a herança de um passado escravista com a consolidação de gritantes desigualdades sociais, possibilitou as classes médias e burguesas dispor de um enorme exército de serviçais, com ausência de direitos sociais e baixo custo da mão de obra.

No período da experiência neoliberal dos anos 1990, o emprego doméstico se tornou o principal receptor de mão de obra feminina e foi uma das ocupações que mais cresceu, somando 3,3% ao ano.

No período recente, no entanto, com a melhora nas taxas de crescimento da economia, ampliação de políticas sociais e, sobretudo, pelo baixo índice de desemprego aberto, o trabalho doméstico passou a perder oferta de mão de obra. Assim como encarecendo o custo da força de trabalho pela tardia e tão necessária regulamentação do conjunto dos direitos trabalhistas.

Orgulha-me quando o que está por trás de afirmações desses setores privilegiados da sociedade brasileira é a constatação de que o povo brasileiro “não gosta de servir”. Esse talvez tenha sido um dos grandes legados dos governos do PT (embora com uma perspectiva de desenvolvimento ainda muito limitada e pouco ousada).

Ou seja, começa a se reconstruir a dignidade do povo brasileiro, que hoje pode recusar uma relação de trabalho serviçal, ou optar por um emprego que garanta o conjunto dos direitos conquistados a duras penas pela luta da classe trabalhadora.

Esse é o Brasil que queremos ver edificado. O país no qual os trabalhadores tenham dignidade, acesso aos seus direitos e a um rendimento que permita não se limite apenas à reprodução da força de trabalho.

Estamos falando de um Brasil que assusta os setores “abastados” da sociedade, que tremem de medo ao ver a possibilidade do povo se tornar gente, reivindicar seus direitos e não mais se sujeitar ao trabalho serviçal. Que tema ainda mais a tradicional classe média, por que o povo pede passagem!

Juliane Furno é mestranda em Desenvolvimento Econômico na Unicamp e militante da Consulta Popular/SP.