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“Na guerra das barragens, o bordado virou arma política”

Integrante do Movimento dos Atingidos por Barragens, Neudicléia de Oliveira apresenta o projeto que resgatou uma experiência feminista chilena em áreas afetadas por hidrelétricas no Brasil.





Divulgação



Por Guilherme Weimann,

De São Paulo (SP)

Durante a ditadura militar chilena (1973 – 1990), as mulheres dos subúrbios de Santiago se utilizaram de um afazer cotidiano para criar uma ferramenta de resistência.

Documentário Arpileiras | Foto: Divulgação

Conhecidas como arpilleras, os bordados foram uma das principais formas de denúncia da repressão sofrida durante o regime comandado pelo general Augusto Pinochet.

No Brasil, esta técnica foi resgatada há dois anos para contribuir com a organização das mulheres atingidas, vítimas de uma série de violações de direitos humanos.

Nesta entrevista, a atingida e integrante da coordenação do Movimento dos Atingidos por Barragens, Neudicléia de Oliveira, relata a experiência das atingidas com as arpilleras. Confira:

Brasil de Fato - O que é ser uma atingida?

Neudicléia de Oliveira - Eu gostaria de frisar que ninguém escolhe ser atingida. Você não tem a opção de escolher se quer ou não ser atingida. Quem determina são as empresas do setor elétrico que constroem as barragens. Mas entre nós e elas não há consenso do que é ser uma atingida ou atingido. Para nós, são todos aqueles e aquelas que tem suas vidas prejudicadas. Ser atingida é ter os vínculos culturais, comunitários e familiares destruídos. Mas também é construir uma luta e se fortalecer com a organização.

Quem são especificamente essas mulheres e quais as principais violações que são submetidas?

Eu fui atingida pelas barragens de Machadinho (RS e SC) e Campos Novos (SC) quando ainda era uma criança. Fazendo um resgate histórico, podemos afirmar categoricamente que as mulheres são as mais prejudicadas pela construção de barragens no Brasil. Isso não é diferente do resto da sociedade, onde somos oprimidas diariamente pelo patriarcalismo. No nosso caso, um exemplo concreto é o título da terra, que está quase sempre no nome dos homens, o que nos exclui mulheres dos reassentamentos e indenizações.

Como é a organização das mulheres no movimento?

O marco do trabalho com as mulheres dentro do Movimento dos Atingidos por Barragens foi o Encontro Nacional das Atingidas, que aconteceu em 2011 e reuniu mais de 500 mulheres em Brasília. A partir daí, enxergamos a necessidade de lutar contra as violações cometidas pelas empresas do setor elétrico, mas também por mais espaço dentro do movimento. As arpilleras surgiram como uma alternativa interessante para contribuir com o empoderamento dessas mulheres.

Qual foi a fonte de inspiração e o que são as arpilleras?

As arpilleras são uma técnica de bordado que foram utilizadas pelas mulheres de Santiago, no Chile, como uma forma de resistência e denúncia durante a ditadura. Nós resgatamos essa técnica e começamos o trabalho com as atingidas a partir do início de 2013. Nestes dois anos foram realizadas mais de 100 oficinas com aproximadamente 900 mulheres de 10 estados brasileiros. As arpilleras representam a ressignificação do papel da costura na vida das mulheres. O que antes era apenas uma forma de subsistência é agora utilizado como uma ferramenta de luta. Na guerra das barragens, o bordado virou arma política.

E quais são os próximos passos do projeto?

Queremos expandir nossa experiência para o maior número de pessoas. Para isso, estamos com um projeto de financiamento coletivo no Catarse para produzir o documentário Arpilleras: bordando a resistência. A ideia é contar a história de cinco mulheres atingidas das cinco regiões do país para ter uma amostra do que é ser uma atingida por barragem.