Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

“Os papas falavam para os pobres. Francisco chama os movimentos para ouvir”, afirma bispo brasileiro

Dom Guilherme Werlang, que participou do Encontro Mundial de Movimentos Populares, considera o encontro com Francisco  um “divisor de águas”. Conheça as histórias daqueles que se encontraram com o líder da Igreja Católica na Bolíiva.


Por Joana Tavares

Especial de Santa Cruz de La Sierra, Bolívia

Papa Francisco e Evo Morales durante o Encontro | Crédito: Lidyane Ponciano

Moisés Chuiu é pedreiro em La Paz. Ele luta para que as empresas chinesas não se apropriem do trabalho dos operários. Leonilda Zurita é dirigente de um movimento de mulheres que se chama Bartolina Sisa, em homenagem à guerreira indígena torturada e assassinada em 1792 pelos conquistadores espanhóis. Hoje, ela é uma das muitas mulheres que ocupam cargos de poder na Bolívia, um país onde metade dos congressistas são homens e a outra metade mulheres.

Orlando Viveiros veio da Colômbia e defende a paz. Mas uma paz combinada com justiça social, que contemple as comunidades, como a dele, “que levamos nas costas o peso da guerra”. Jaqueline Flores carregou em suas mãos muito lixo até perceber que aquilo não só era um trabalho – que, como todos, deve ser protegido com direitos – mas também cumpria papel social e ambiental. “Por que a mim me tocou existir, trabalhar e parir no subsolo da minha pátria?”, perguntava-se, antes de encontrar na organização de outras pessoas como ela a resposta.

Evo Morales é da Bolívia. Líder sindical de agricultores cocaleros, tornou-se presidente de seu país e inimigo do Capitalismo. Ele presenteia seu “amigo papa” com um crucifixo estilizado, na forma de foice e martelo. Em troca, recebe do pontífice um ícone bizantino do Menino Jesus com sua mãe e uma cópia do documento “Laudato se”, quer dizer “Louvado seja” em latim.

São histórias e alternativas como essas que o Papa Francisco busca conectar quando estende sua prática para o diálogo e quando critica o capitalismo como sistema que oprime os pobres e maltrata o meio ambiente. Ele participou do 3º dia do 2º Encontro Mundial de Movimentos Populares, que aconteceu em Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, dos dias 7 a 9 de julho.

“É como um divisor de águas. Porque até então o papa falava para o mundo. Agora o papa quer ouvir o mundo. Os papas falavam para os pobres. O papa Francisco chama os movimentos para ouvir os pobres, para ouvir os excluídos”, avalia o bispo Dom Guilherme Werlang, presidente da Comissão Episcopal Pastoral para o Serviço da Caridade, Justiça e Paz da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

O papa saudou os presentes e recebeu uma carta com os compromissos e denúncias elencados pelos participantes, 1500 pessoas de 400 organizações sociais de 40 países do mundo.

Os três dias do encontro se basearam em discussões em torno dos eixos “Terra”, “Trabalho” e “Teto”. Esses eixos foram inspirados na exposição do Papa Francisco no primeiro encontro, em que destacou que é preciso lutar para que não haja mais “nenhum camponês sem terra, nenhum trabalhador sem trabalho digno e nenhuma família sem moradia digna”.

Diálogo e esperança

A perspectiva de encontrar a figura mais importante da Igreja Católica motivou o eletricitário e diretor sindical Jair Gomes Pereira Filho a sair de ônibus de Belo Horizonte e chegar a Santa Cruz de La Sierra dois dias depois. “O papa tem nos orientado para que pratiquemos as mudanças que o mundo tanto necessita. Ele chama a atenção que todos – inclusive a Igreja – precisamos sair da redoma e fazer o debate das justiças sociais”, diz.

E não só os cristãos foram chamados a participar do Encontro. Macota Celinha, coordenadora nacional do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afrobrasileira, lembrou que o mundo vive hoje um crescimento de intolerância e de ódio, e que apenas com o diálogo e o respeito entre diversas religiões será possível mudar esse estado de coisas.

Participação brasileira

Mais de 250 brasileiros, de várias regiões do país, participaram do 2º encontro. Entre eles, Beatriz Cerqueira, presidenta da CUT Minas e João Pedro Stedile, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), participaram do primeiro encontro e ajudaram a articular sua continuidade.

Beatriz conta que o fato de outra reunião acontecer em tão curto espaço de tempo demonstra que a aproximação sugerida entre o Vaticano e os movimentos populares é real. “É muito significativo quando a história nos presenteia com líderes como papa Francisco. Especialmente neste momento de grande acirramento da luta política, uma liderança como a dele ser utilizada para o bem comum é muito importante”, destaca.

Primeiro encontro e continuidade

Entre 27 e 29 de outubro de 2014, o papa recebeu no Vaticano dirigentes sociais dos cinco continentes, que representaram organizações de base principalmente de três setores - trabalhadores precarizados, camponeses sem terra e pessoas que vivem em moradias precárias – mas também sindicalistas, ativistas de direitos humanos e de pastorais sociais. Está prevista a realização de um encontro de movimentos populares do Brasil com a Igreja em fevereiro do ano que vem.