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Periferia de Curitiba é protagonista de filme premiado em festival de direitos humanos

Curta-metragem Paixão Nacional foi gravado no Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC). Produção retrata conflitos de classe e vem ganhando as telas do país com olhar periférico sobre a Copa do Mundo no Brasil.


Por Camilla Hoshino,

De Curitiba (PR)

Créditos: Guilherme Chalegre

“Precisávamos falar sobre a Copa e sobre como ela muda a dinâmica da vida nas periferias”. Foi essa a vontade que levou o diretor Jandir Santin a escrever e dirigir o curta-metragem “Paixão Nacional”, ganhador de um dos seis prêmios do Entretodos- Festival de Curtas de Direitos Humanos, que aconteceu na semana passada em São Paulo. Com cenário e elementos que se confundem com a vida real dos personagens, o filme fez parte da mostra especial, que levou o cinema para mais de 78 pontos de cultura, além de diversas escolas municipais.

Santin explica que a ideia foi mostrar, por meio da linguagem audiovisual e artística, duas faces do futebol e do megaevento esportivo no país. A primeira é a clássica e a mais evidente que é poder juntar pessoas de outras culturas, e a outra, mais oculta, que são as contradições econômicas e os conflitos de classe que se acentuam durante este período.

“Quando mostramos uma situação a partir de uma perspectiva que evidencia conflitos de classe, também apontamos para a necessidade de um posicionamento”, defendeu o diretor, deixando transparecer seu lado militante. Ele conta que o coletivo envolvido na produção tentou manter o filme com a forma mais sincera e ética possível. “Em muitas cenas, deixamos a câmera parada por bastante tempo. Quisemos que a vida penetrasse ali”, acrescentou. Assim também foi a escolha do som, dos planos e da fotografia, segundo ele.

Realidade documentada

O curta-metragem conta a história de Café, um jovem negro de 17 anos que mora no Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba (CIC) e que, durante a Copa do Mundo, convence a turista alemã Lina de que achou seu celular na rua e que quer devolvê-lo. Os jovens combinam de se encontrar para um passeio e a partir dali suas realidades distintas ficam explícitas.

“Isso não me pertence”, afirma Café ao receber de Lina um ingresso para um jogo da Copa em Curitiba. E apesar de sorrir pela primeira vez ao se ver diante da Arena- estádio do Clube Atlético Paranaense– em dia de festa, o jovem logo se dá conta de que ali não é o seu lugar. A produção tem 17 minutos de duração.

Ao todo, foram dois meses de pré-produção e dois meses de gravação. “Tínhamos que gravar esporadicamente ou nos finais de semana, geralmente nos horários em que a galera não estava envolvida com o trabalho ou com os estudos”, conta Laís Melo, produtora e diretora de arte do Paixão Nacional. Com um recurso de cerca de 2 mil reais e sem edital de apoio, o filme não contou com orçamento disponível para marketing, publicidade ou distribuição.




Créditos: Guilherme Chalegre

Primeiro filme

Esta é a primeira obra cinematográfica da produtora Gesto de Cinema, formada por Laís Melo, Jandir Santin, Henrique Santos, Caio Baú e Guilherme Chalegre. Surgida em 2012 a partir da experiência de formação de uma escola prática em cinema, a iniciativa parte de um coletivo de amigos que sentiu a necessidade de ir mais além e de fazer com que uma produção com recorte político chegasse até mais pessoas, dialogando com suas realidades e transformando suas vidas.

“Somos classe trabalhadora, fazemos filmes sobre a classe trabalhadora e com a classe trabalhadora”, afirma a diretora de arte, esclarecendo o caráter da produção. Para ela, o mais importante é o retorno do público e saber que as pessoas estão se identificando com a obra.

Melo relata que o filme também foi uma estratégia de lançamento da Gesto de Cinema para que o grupo pudesse começar a formar um currículo neste mercado. “No mundo do cinema existe esta lógica mercadológica, em que para galgar espaços em editais é preciso ter um bom currículo, que é formado por premiações”.

E o resultado tem sido positivo e gratificante, segundo ela. Desde maio, o curta-metragem já foi selecionado para mais de 10 festivais, em diversas cidades do Paraná e do Brasil, entre elas Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, sendo premiado como melhor filme no Latino Film Festival- Official Short Competition, em Perth, na Austrália.

Acesso

Além de gerir a produtora, o coletivo realiza um curso de cinema continuado com jovens da periferia de Curitiba. O Cine Sol, como é chamado, acontece há alguns anos na região de Mandirituba e logo será iniciado no Sabará, região onde o Paixão Nacional foi gravado e cuja a luta por moradia mobiliza os moradores da região.

Santin conta que foi neste curso em que conheceram Maicon, o Café. “Queríamos que a vida real dos atores se misturassem com a vida dos personagens”. Quanto a Lina- Clarissa Nieber-, o coletivo entrou em contato por meio de um grupo do Facebook de intercambistas em Curitiba.

“Este curso é uma forma de ampliar o acesso para outras mãos e outras cabeças. Ele também faz parte daquilo que move o nosso trabalho”, afirma Melo. Ela explica que a intenção é que tanto o coletivo da Gesto de Cinema como os jovens que participam do curso possam enxergar no cinema uma possibilidade de trabalho e de ter condições melhores de vida.