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Belo Horizonte pode dobrar número de partos humanizados com abertura de nova maternidade

Remédios e cesáreas são maior causa de morte materna; Aprovação da maternidade Leonina Leonor aconteceu na quarta (14), depois de quatro anos pronta e abandonada.


Por Rafaella Dotta,

De Belo Horizonte (MG)

Foto: Wikimedia Commons

Com atraso de seis anos, o equivalente a oito gestações, mais um hospital para partos humanizados deve finalmente ser inaugurado em Belo Horizonte. A maternidade Leonina Leonor Ribeiro, localizada no segundo andar da UPA Venda Nova, teve enfim aprovada a inauguração pelo Secretário Municipal de Saúde no último dia 14 de outubro, mas atenderá 66% a menos que o projeto original.

Sem data para a inauguração, um abaixo-assinado online está sendo organizado para demandar a abertura da maternidade, além de mobilizações nas redes sociais com a hashtag #NasceLeonina.

Segundo a coordenadora da Comissão Perinatal da Secretaria de Saúde, Sônia Lansky, em reunião com representantes de movimentos de mulheres, o obstáculo transposto foi a resistência dos gestores públicos em inaugurarem uma maternidade sem médicos. Ela, que também é médica, explica que o hospital receberá somente partos de baixo risco, em que a assistência pode ser feita por enfermeiras obstetras e doulas, profissionais que acompanham a gestante no pré -parto, parto e pós-parto.

A novela das obras

A Leonina Leonor foi prometida para 2009, porém, terminou de ser construída em 2011. A estrutura possui sete quartos, sendo seis suítes com banheira, e capacidade para receber 300 partos por mês. Foi projetada para oferecer partos normais com assistência humanizada, com o mesmo caráter do Sofia Feldman.

Contudo, há dois meses a Prefeitura de Belo Horizonte colocou em dúvida a utilização do espaço, alegando “objetivo de atender a real necessidade da população”. Em nota, a PBH afirmava que a maternidade poderia se transformar em anexo da UPA Venda Nova, para urgências e cirurgias de pequeno porte.

O movimento de mulheres “Nasce Leonina” vem acompanhando o processo desde então. Pollyana do Amaral, doula e integrante do movimento, explica que Belo Horizonte tem a chance de dobrar o número de atendimentos humanizados e se transformar em referência nacional. “Em nenhum lugar do Brasil se encontra um sistema com seis suítes, tudo pelo SUS. É a oportunidade de sermos pioneiros nisso”, defende.

O atraso na inauguração aconteceu por conta de uma reforma no entorno, que daria mais conforto às gestantes, segundo a Secretaria Municipal de Saúde. Entre licitações e a desistência da construtora que faria a obra, passaram-se quatro anos e a maternidade continua fechada.

Foto: Reprodução

Agora, a secretaria municipal concorda em iniciar os atendimentos, com a condição de que a maternidade funcione apenas no segundo andar, o que gera queda de 300 para 100 partos ao mês. O terceiro andar seria destinado a casos de urgência da UPA Venda Nova. A expectativa é que o hospital Risoleta Neves, que possui maternidade, fique de “retaguarda” para o Leonina, recebendo as gestantes que tenham complicações durante o parto.

O próximo passo é uma conversa entre poder municipal e estadual, afirma Sônia Lansk, para acordar detalhes e recursos. Após inaugurada, o Leonina poderá contar também com verbas da “Rede Cegonha”, programa do governo federal.

Morte materna

A pesquisa “Nascer em Belo Horizonte: Inquérito sobre o parto e nascimento”, divulgada pela UFMG em julho deste ano, mostrou que 45% dos partos realizados na cidade são cesarianas. Índice muito superior aos 15% indicados pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

É dessa realidade que a gestante Vivian Prado, atual- mente com 2 meses de gravidez, foge. “Na verdade, eu tenho muito medo do momento do parto”, diz, lembrando de casos que envolveram lavagem intestinal, compressão da barriga para forçar o nascimento e jejuns a que outras gestantes foram submetidas sem conhecimento prévio e, muitas vezes, sem necessidade.

Segundo Sônia Lansk, as principais causas de mortes maternas em Belo Horizonte são os procedimentos desnecessários. “É um modelo com o qual nós ganhamos muitas vidas, mas agora as intervenções são demasiadas e estão produzindo diversos danos”, afirma.

A doula Lena Rúbia Borgo reforça que o ambiente cirúrgico não é favorável ao parto. “Para o nascimento acontecer de forma mais saudável, o ideal é uma suíte de parto, usando banheira, chuveiro, massagem, música”, diz. “Também é importante a presença da família ou de pessoas que a gestante deseje”. No parto humanizado, a mulher é quem faz as escolhas, não o médico