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Redação do ENEM pode fazer com que mulheres “percebam que não estão sozinhas”, diz pesquisadora

Exame trouxe violência contra a mulher como tema da redação e questão citando Simone de Beauvoir; Advogada e militante da UNEAfro acredita que escolas particulares podem abrir os olhos para essa realidade.



Por Bruno Pavan,

De São Paulo

No último domingo (25), o Ministério da Educação (MEC) resolveu abordar o tema da violência contra a mulher no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), uma das principais portas de entrada para diversas instituições de ensino universitário. O tema da redação do exame foi “A persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira” e foi motivo de muita comemoração entre as feministas brasileiras.

“Ter a violência doméstica como tema de redação de uma prova que é a entrada para tantas universidades federais no Brasil significa fazer com que 7 milhões de estudantes reflitam sobre isso. Durante a redação, as mulheres tiveram a oportunidade de parar para refletir e, talvez, perceber que não estão sozinhas, que a violência de gênero é real e precisa ser tratada como tal pelo poder público”, disse a educadora do Instituto Paulo Freire Deisy Boscaratto.

De acordo com uma pesquisa do DataSenado, em 2013, 83% das mulheres ouvidas já tinham sofrido violência doméstica. O relato mais comum é o de violência física, com 62%. Violência moral e psicológica foram apontadas por 38% e 39% respectivamente.

Reações conservadoras

Além da redação, uma questão da prova também abordava a questão do feminismo. Ela citava um trecho da obra de Simone de Beauvoir “O segundo sexo” que diz: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto intermediário entre o macho e o castrado que qualificam o feminino”.

Logo a citação foi alvo de críticas dos deputados conservadores Jair Bolsonaro (PP/RJ) e Marco Feliciano (PSC/SP) que acusam o governo de “doutrinação marxista”. “Me parece que a inserção desse texto, uma escolha adrede, ardilosa e discrepante do que se tem decidido sobre o que se deve ensinar aos nossos jovens”, disse Feliciano.

Para a advogada e militante da UNEAfro Rosangela Martins a obra da escritora francesa quer alertar para o papel da mulher em uma sociedade patriarcal e de classes. “[ Os deputados] distorcem a frase que quer explicar o que é ser mulher numa sociedade de classes, e que, dependendo da sua educação, o seu papel na sociedade já vai estar pré-estabelecido”, explicou.

Boscaratto reforça que a tentativa de chamar de o ENEM de doutrinador ou marxista e colocar o feminismo como algo exclusivo da esquerda serve para “manter os privilégios que o patriarcado traz”.

“A importância de falar sobre violência contra a mulher não é algo que contempla só as mulheres de esquerda. Estamos falando de todas as mulheres. A alegação da ‘imposição de uma doutrinação feminista’ me parece, nesse contexto, um ataque à tentativa do ENEM de colocar em pauta a mulher”, criticou.

Papel da mídia

Não é raro ver mulheres nos telejornais e na publicidade na mídia televisiva e impressa no Brasil. Acontece que normalmente elas são extremamente estereotipadas ou hipersexualizadas, o que faz com que haja uma naturalização da violência e do feminicídio. Essa é a opinião da pesquisadora e psicóloga Rachel Moreno.

“Os programas sensacionalistas reproduzem e exploram a violência e isso tem como consequência a naturalização. Fora que há sempre uma suspeita do comportamento moral da mulher que eventualmente justifique um ato de violência. Na publicidade o que acontece é uma exploração do corpo da mulher. Temos um comportamento mostrando que a mulher tem que se exibir pra chamar a atenção e o quanto que isso é desejável. Além de criar um certo padrão de beleza que é impositivo porque é autoritário e que não tem a ver com a mulher brasileira”, criticou.

Ela ainda aponta que em várias democracias que colocaram em prática a regulamentação da mídia existem pontos que proíbem a reprodução de violência sexual, psicológica, patrimonial, moral e de esteriótipos e preconceitos contra a mulher.

Um novo momento?

Desde 2011, quando o Ministério da Educação vetou o kit anti-homofobia nas escolas, a questão de gênero tem sido amplamente debatida nos planos estaduais e municipais de educação. Na capital paulista, por exemplo, pressões de setores conservadores fizeram com que o texto original do plano municipal fosse alterado sem que tivesse qualquer menção a questão de gênero.

Martins reforça que os cursinhos populares sempre se preocuparam com a formação política dos alunos e sempre tentam fazer os recortes de gênero, raças e classe e que a escolha dos temas do ENEM podem também influenciar outros cursinhos a adotarem essa visão mais progressista.

Para Boscaratto, com a escolha do tema da redação, o MEC tomou uma posição nesse debate político entre forças conservadoras e progressistas. Mas a pesquisador se mostrou cética quanto a uma mudança de direção na estrutura da educação do país.

“Estamos longe de ter o apoio da sociedade brasileira nas questões de direitos humanos. Ela também é, assim como Bolsonaro, racista, machista, homofóbica e classista. O ENEM, sozinho, não tem como mudar estas posturas, elas tem que ser mudadas durante toda a formação do ser humano. Mas apontar essa postura como problemática já é um grande avanço”, destacou.