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Trans e travestis que passaram no vestibular relatam superação da exclusão

Apesar de considerar entrada no ensino superior uma vitória, trans avaliam que há muito o que avançar.


Por José Coutinho Júnior,

De São Paulo (SP)

Crédito: João Bertholini/Reprodução

O ano de 2016 começa com uma vitória para a comunidade trans: o número de transexuais e travestis que prestaram vestibular e entraram na universidade aumentou. Dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) apontam que 278 pessoas pediram o uso de seu nome social no Enem 2015.

Ana Flor mora em Recife, tem 19 anos e se identificou como travesti no final de 2014. Passou em pedagogia na UFPE, e não consegue esconder sua alegria. “Ainda ‘tô bestinha’ menino, parece que a ficha não caiu”.

Para ela, que sempre viveu no bairro da UFPE, entrar na universidade é vencer uma exclusão histórica. “A UFPE sempre mostrou-se enquanto exclusão. Tanto quanto moradora da periferia, como travesti, como negra. Por isso, me sinto realizada de entrar. Nós sempre estivemos nas margens. A partir do momento que nos descontentamos e queremos mais, podemos adentrar outros espaços, como a universidade”.

Magô Tonhon tem 28 anos e se identifica como trans há dois anos. Formada em arquitetura, ela não exerce a profissão, e dá aulas de francês particulares.

Uma de suas alunas indicou a linha do mestrado em Estudos Culturas da USP, na qual ela se inscreveu e agora irá iniciar o ano como mestranda e pesquisadora.

“Falar de trans e travestis na universidade é falar de ausências. Nós temos que nos apropriar desses espaços, que ainda são um privilégio muito grande. Não basta entrar e acessar, tem de haver algum tipo de política para essas pessoas permanecerem. Por isso eu quero estudar a questão do ingresso e sobretudo da permanência das pessoas trans nas instituições de ensino”, diz.

Já Amara Moira tem 30 anos, e está terminando seu doutorado sobre teoria literária este ano na Unicamp. Se descobriu como trans há dois anos, no meio do doutorado. Segundo ela, a entrada de mais pessoas trans na universidade é uma vitória, mas ainda há muito o que se fazer para avançar.

“As pessoas trans estão chegando, mas a maioria é da classe media. Ainda temos uma dificuldade de trazer as pessoas mais vulneráveis, pobres, para dentro da Universidade”.

Ato político

O ambiente elitizado das universidades, que acaba excluindo pessoas e pontos de vistas diferentes, tem muito a ganhar com mais pessoas trans ocupando seu espaço. É o que acredita Magô.

“O nosso ingresso na universidade é por si só um ato político. Falar das nossas vivências sob o nosso olhar, que é perpassado pela realidade trans de preconceito, é importante, e difere de quem fala sobre o tema e não é trans”.

Ana acredita que a entrada de mais pessoas trans pode proporcionar a criação de novas óticas. “A universidade se constrói numa ótica onde ela exclui todo e qualquer sujeito que seja diferente do que é lido enquanto algo ‘saudável’ daquele espaço. Então, quando a gente adentra esse espaço e consegue construir as nossas próprias narrativas e pertencente àquele espaço, tudo se modifica”.

Para Amara, é importante que existam programas do governo que possam tirar as pessoas trans de seu estado de vulnerabilidade dar oportunidade a elas de se qualificarem.

“Um programa como o TransCidadania, por exemplo, dá oportunidade de estudos e uma estabilidade financeira, mas precisamos de mais iniciativas. Tem muita coisa boa acontecendo, muitas amigas minhas preparadas para prestar o vestibular e isso pode trazer um ganho significativo para a universidade, obrigando esse espaço a conviver com a diferença”.

O TransCidadania é um programa da prefeitura de São Paulo que oferece bolsas para que homens e mulheres trans voltem à escola e frequentem cursos de capacitação e de formação em cidadania.

Transfobia

A população trans brasileira é uma das que mais sofre violência por conta de sua identidade. Só em janeiro deste ano, 48 pessoas trans foram mortas. Além disso, a marginalização e vulnerabilidade derivados do preconceito leva mais de 90% das pessoas trans a se prostituir.

Amara diz que, no geral, o ambiente que encontrou era aberto, mas sempre há preconceito.

“Encontrei um ambiente muito mais aberto para me receber, porque já era militante LGBT como bissexual, então passei por poucas experiências ruins na Unicamp. A pior experiência que tive foi quando feministas radicais fizeram uma pixação gigante no banheiro feminino, com coisas do tipo ‘vamos cortar suas picas’ escrita”.

Quando questionada se vai enfrentar preconceito na universidade, Ana diz que sim. “A transfobia existe em qualquer espaço onde uma pessoa trans esteja. Até porque a maioria dos espaços são habitados por pessoas que se construíram socialmente aprendendo a excluir qualquer pessoa trans e travestis, e a universidade não está livre disso”.

Magô costuma dizer que passou por transfobia sem saber, na época da faculdade, e espera que o mestrado seja diferente.

“Na faculdade, eu não enfrentava preconceitos relacionados à transfobia, até por uma falta de compreensão da minha identidade. Passei por muitas situações de preconceito, até por parte de professores, por não habitar essa categoria ‘homem’ da forma que deveria, segundo os padrões sociais. O que espero da experiência do mestrado é que ela vai ser positiva, principalmente porque, amparada pelos decretos legislativos dos últimos anos, redigi uma carta me declarando mulher trans e pedindo que minha identidade de gênero fosse respeitada em todos âmbitos da universidade”.

Às que vieram

Magô, Ana e Amara são enfáticas ao afirmar que só chegaram onde estão porque outras pessoas ocuparam o espaço universitário e lutaram para ter sua identidade respeitada.

“Há cinco anos, não tinha nenhuma trans assumida aqui na Unicamp. Aí surge a Bia, que veio num momento particular, e a classe dela tinha muitos LGBTs que a defenderam na universidade. Ela ‘cavucou’ espaço para as que vieram. Tem umas 13 ou 14 pessoas trans aqui. Quando me assumi, encontrei todo o espaço preparado e já tinham outras pessoas trans, então foi mais fácil”.

Magô ressalta que, no mesmo dia em que soube que passou no mestrado, recebeu a notícia de que duas mulheres trans tinham sido assassinadas.

“O nosso sucesso de ter alcançado e entrado na universidade não pode ser apenas pautado por uma questão meritocrática, individual, e também não pode fazer com que se ignore a violência e a vulnerabilidade diária que sofrem as trans”.

Ana acredita que, com mais pessoas trans na universidade criando referência, outras irão ser motivadas a entrar. “Sempre faltava muita referência, do tipo ‘eu consigo entrar ali? Não existe ninguém igual a mim nesse lugar’. Se eu não vejo nenhuma pessoa trans, se não tem ninguém igual a mim, eu não consigo adentrar aquele espaço. A partir do momento que percebo que existem pessoas iguais a mim, que entram e permanecem naquele espaço, eu vou querer alcançá-lo também”.