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“Além de líder político, Osvaldão se transformou num mito do Araguaia”, diz diretora de filme em sua homenagem

O longa "Osvaldão" resgata a história de comandante da resistência armada à ditadura no Brasil.


Por Wallace Oliveira

De Belo Horizonte (MG)


“O que aconteceu não é contado nos livros escolares”, diz Ana | Foto: Reprodução

Em 1967, um jovem negro de dois metros de altura, natural de Passa Quatro (MG), foi habitar a região do rio Araguaia, próximo à divisa dos estados de Goiás (à época), Maranhão e Pará.

Lá, tornou-se parte do povoado da região, trabalhando como caçador, garimpeiro e mariscador. Seu objetivo era organizar a Guerrilha do Araguaia, movimento de resistência armada à ditadura civil-militar estabelecida com o Golpe de 1964.

Em 1974, Osvaldão foi assassinado por um pistoleiro, quando tinha apenas 35 anos. Seu corpo foi pendurado em um helicóptero e exposto para servir de exemplo. Depois, o Exército deu nele um sumiço.

Agora, sua história é contada no documentáro “Osvaldão”, indicado em quatro categorias no 42º Festival Sesc Melhores Filmes. O Brasil de Fato conversou com Ana Petta, uma das diretoras do documentário.

Brasil de Fato – Como surgiu seu interesse pela figura de Osvaldão?

Ana Petta Os meus pais são militantes de esquerda e participaram da luta contra a ditadura militar. Eu cresci nesse ambiente político e foi nele que conheci a história da guerrilha. Tenho até uma prima que se chama Elenira, que é o nome de uma das mulheres que lutaram na Guerrilha do Araguaia.

Na verdade, é o filme do meu herói, porque o Osvaldão existe na minha imaginação desde criança. Além de ser um líder político, o Osvaldão se transformou num mito do Araguaia. Ele faz parte das lendas da Amazônia, o que tornou a história ainda mais interessante.

O André Fernandes [um dos diretores] foi procurado pela Fundação Maurício Grabois, que teve acesso a imagens reais do Osvaldão quando ele esteve na Tchecoslováquia. São aquelas imagens que aparecem no filme. A partir de então, começamos a tentar a contar a história dele.

Um elemento marcante no documentário é trazer o significado de Osvaldão na vida do povo da região do Araguaia, onde ele foi viver em 1967, a fim de organizar a Guerrilha. É impressionante a força com que ele modificou o cotidiano das pessoas, que até hoje têm uma memória muito viva dele. De onde vem essa força?

Quando foi morar no Araguaia, a tarefa do Osvaldão era se misturar com o povo, ser como as pessoas que ali viviam, tornando-se parte daquele lugar. Ainda hoje, todos falam dele como um companheiro. Dizem: “Osvaldão era meu amigo, caçava comigo, pescava comigo”. Era uma relação de uma pessoa muito próxima. Além disso, ele era forte fisicamente e um excelente guerrilheiro, muito grande e bem preparado. Sabendo disso, fazia um jogo psicológico contra os militares, de modo que o exército tinha muito medo dele.

Um dos personagens do filme é um soldado que lutou contra os guerrilheiros e conta como o exército buscou se preparar para enfrentar o Osvaldão, inclusive com histórias de que Osvaldão atirava com as duas mãos, de que ele se transformava em onça. Isto porque o Osvaldão fazia essa guerra psicológica.

Outro fator que explica ele ter se tornado um mito é todo o trabalho feito pelo exército: a forma como Osvaldão foi assassinado, sua cabeça ter sido exposta, o corpo colocado num helicóptero. Tudo isso criou uma mística muito forte em torno dele. Num diálogo do presidente Geisel com outro general, dizia-se que era preciso caçá-lo.

Por fim, o fato de ser um comandante negro é outro elemento forte, o que fez dele um herói muito brasileiro, que tinha relações com o candomblé, que conseguia entender a alma do povo e era parte do povo.

E por que toda essa história é tão pouco conhecida pela maioria dos brasileiros?

A ditadura tentou apagar os vestígios da guerrilha. Os arquivos não foram abertos, os corpos não foram encontrados, foi feita uma operação de limpeza. Os moradores da região ainda são muito ameaçados para não falarem, algumas pessoas ainda não querem falar. Tudo isso foi parte do esforço do Exército em fazer com que a história se apagasse, como se nada tivesse acontecido. O que aconteceu não é contado nos livros escolares.

Só recentemente, com os últimos governos e toda a discussão sobre as comissões da verdade, as coisas começam a vir à tona e a gente passa a ter espaço para contar e entender quem são os nossos verdadeiros heróis.

Como o filme pode contribuir com o aprofundamento da democracia no Brasil?

Quando começamos a filmar, entendíamos que estávamos fazendo um filme histórico. Quando o filme foi lançado, havia manifestações pela volta da ditadura militar. De maneira triste, o filme ganhou um significado atual. É preciso que as pessoas entendam o que foi a ditadura no Brasil e como é absurda qualquer tentativa de golpe à democracia. Toda ameaça ao Estado democrático é uma insanidade.

Foram muitas pessoas assassinadas pela ditadura e minha vontade é que suas histórias sejam todas contadas e que a gente continue contando a história da Guerrilha, porque há muito a ser dito.

Fale um pouco sobre quem fez o filme.

A realização é da Fundação Mauricio Grabois, Clementina Filmes e Estrangeira Filmes. Quem dirigiu foi o coletivo independente Gameleira, com a participação de quatro diretores: o Vandré Fernandes, o Fabio Bardella, o André Michiles e eu, e a Renata Petta como produtora.

Foi um produção muito coletiva e é o primeiro filme brasileiro que chega ao circuito comercial produzido por movimentos sociais. Todo o financiamento foi feito nesse processo coletivo, com o apoio dos movimentos e por meio da plataforma Catarse. Acho que essa forma de construir o trabalho é a cara do próprio Osvaldão, faz jus à história dele.