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“Se ficarmos parados seremos engolidos”, afirma cacique Kaingang

Debate no interior do Paraná criticou atual cenário de ameaças aos direitos dos povos tradicionais e apresentou a comunicação popular como ferramenta de apoio à luta indígena na região.


Por Julio Carignano,

De Nova Laranjeiras

Créditos: Julio Carignano

A questão indígena e atual conjuntura de ataques a direitos das comunidades, o Levante Zapatista no México, a autodeterminação destes povos e a utilização de ferramentas de comunicação popular em apoio à luta dos povos originários pautaram um debate no último sábado (13/2) na Terra Indígena Rio das Cobras, uma das maiores reservas do sul do país, localizada nos municípios de Nova Laranjeiras e Espigão Alto do Iguaçu, Centro Sul do Paraná.

A roda de conversa reuniu lideranças e juventude da Terra Indígena, militantes de movimentos sociais, comunicadores populares e professores e estudantes da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS) e foi organizada pelo Coletivo Anarquista Luta de Classe (CALC), coletivos da Rádio Gralha (PR) e Rádio Xibé (AM) e o Coletivo Estudantil Indígena de Rio das Cobras. A atividade teve o intuito de abrir vias ao diálogo com a comunidade, discutir seus problemas e reunir aliados que possam intervir na realidade, respeitando a autonomia dos povos indígenas.

O cacique Sebastião Tavares apresentou um histórico e o cotidiano da reserva que reúne cerca de 3 mil indígenas divididos nas aldeias da Lebre e Pinhal. Ele falou sobre o atual cenário de ataque a direitos históricos dos povos originários, representado especialmente pela Proposta de Emenda Constitucional 215 (PEC 215), que poderá inviabilizar as demarcações de terras indígenas e quilombolas; o Novo Código de Mineração e o veto da presidenta Dilma Rousseff ao PL que instituiria o ensino multilinguístico nas escolas. “Nossa organização neste momento é fundamental. Se ficarmos parados seremos engolidos”, citou o cacique.

Apesar das críticas ao governo federal, o cacique fez questão de questionar a falta de apoio das prefeituras em relação às necessidades das comunidades, citando a falta de transparência no repasse do ICMS ecológico. “Não sabemos como é gasto esse dinheiro. Em época de política [eleições] eles olham para os indígenas. Nossa saúde está precária, trabalhamos somente com os medicamentos básicos e às vezes até isso falta em nosso posto de saúde”.

Educação e valorização

Preocupada com a formação de novas lideranças, a Terra Indígena Rio das Cobras está constituindo um coletivo estudantil, formado por indígenas que cursam Educação do Campo na UFFS. Segundo Sebastião Tavares, serão esses jovens que irão ser a voz das comunidades e que terão o trabalho da preservação das identidades Kaingang e Guarani. “É a valorização de nossos filhos, de nossa juventude, pois são esses que irão ser as futuras lideranças. Eles têm aprendido muito com os sem-terra e os sem-terra tem aprendido com os indígenas”, comentou Sebastião, lembrando que o curso também é integrado por jovens do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).

“Nunca tivemos a oportunidade de participar das decisões coletivas da comunidade. Nosso papel também na faculdade é não deixar que se perca nossas danças, nossas crenças, nossa língua. Vemos as vezes alguns índios na faculdade com vergonha de dizer que é indígena. Não é porque estamos na universidade que deixamos de ser indígenas”, comenta Lucas Kaingang, acadêmico da UFFS.

Levante Zapatista

O Zapatismo, movimento indígena do México que nasceu em um levante em 1994, também foi debatido no sentido de falar sobre autonomia das comunidades indígenas. A insurreição incentivou a criação de redes de apoio aos indígenas do México em todo o mundo. A revolução indígena mexicana foi um marco histórico no aparecimento de uma nova onda de movimentos e protestos populares no mundo. O professor de Ciências Sociais da UFFS, Cássio Brancaleone, falou de sua vivência em 2008 em Chiapas, território autônomo zapatista. “O que podemos trazer de grande influência dessa insurreição foi o conceito de autonomia indígena e autodeterminação destes povos”.

Comunicação Popular

O debate sobre a utilização de ferramentas de comunicação popular em apoio à luta dos povos indígenas foi coordenado por membros da Rádio Xibé e do Coletivo de Mídia Independente de Tefé, no Amazonas, e do Coletivo Rádio Gralha, de Curitiba.

Uma das experiências apresentadas foi o projeto de extensão ‘Somos todos desta terra’, desenvolvido na UFFS (Universidade Federal da Fronteira Sul), campus de Laranjeiras do Sul. Lançado em novembro do ano passado, o projeto consiste em um programa de rádio voltado ao público indígena. Ele é desenvolvido por estudantes indígenas, professores e servidores técnicos da universidade.

Transmitido pela Rádio Campo Aberto AM, o programa tem seu conteúdo trabalhado nas línguas portuguesa, kaingang e guarani. O objetivo da proposta é dar visibilidade e tornar conhecidas as etnias presentes na Reserva Indígena. Além disso, o projeto visa fomentar o respeito ao princípio da igualdade, conforme preconiza a Constituição Federal, e o respeito à diversidade cultural e étnica, bem como o respeito à tolerância.

A professora Nádia Teresinha Franco, coordenadora do projeto, destaca o desconhecimento da sociedade não-indígena em relação às comunidades tradicionais. “É um projeto que me encanta. O que me motivou foi o sofrimento que os indígenas passam com a questão de sua identidade. É uma proposta modesta de fortalecer a identidade através do uso da linguagem num meio de comunicação de massa”.

O programa é dividido em três momentos. No primeiro, são apresentadas informações gerais sobre a Reserva Indígena; no segundo momento é apresentado um texto da área de Economia, História, Direito ou Antropologia, preparado por professores; e a terceira é utilizada para divulgar a língua kaingang e guarani, com palavras e expressões relevantes para estas etnias.

Para a professora, é fundamental que a comunicação de massa auxilie no respeito e preservação da identidade dos povos tradicionais. “Há um limbo cultural neste momento. O que sentimentos aqui é que os indígenas são estrangeiros dentro de sua própria casa”, conclui a Nádia Terezinha.