Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Oscilação do preço do minério impacta economia e segurança

Economia mineira é muito dependente da mineração



Por Wallace Oliveira

De Belo Horizonte

No período de 2003 a 2013, a alta dos preços das commodities (principalmente agrícolas e minerais) sustentou o crescimento da economia brasileira.

Rompimentos aumentam em épocas de queda no preço do minério | Foto: Mídia Ninja

Porém, essa tendência tem se revertido nos últimos anos, atingindo em cheio o principal produto da pauta mineira de exportações: o minério de ferro.

Comercializado em fevereiro de 2013 a 154,64 dólares por tonelada seca, terminou 2015 cotado a 39,6 dólares, segundo dados da Free Steel Index. Daí que, embora o produto tenha alcançado volume recorde de exportações em 2015, com 349 milhões de toneladas saindo do país, a queda do preço puxou para baixo a receita, que caiu 45% em comparação com 2014.

Recentemente, o preço do minério iniciou uma lenta recuperação, o que, segundo especialistas, não se sustenta ao longo do tempo. A explicação é, entre outras coisas, o desaquecimento da economia chinesa, ao lado da mudança nas importações do gigante asiático.

“O preço crescia em virtude da demanda aquecida no setor produtivo de alguns países, sobretudo a China, com destaque para o ramo da construção civil. A urbanização chinesa gerou grande demanda por aço [liga metálica formada à base de ferro e carbono]. Agora, os bens de consumo duráveis passaram a ter maior peso. Ao mesmo tempo, diminuiu a pressão sobre o aço”, explica o professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Rodrigo Salles Pereira, especialista no estudo da mineração.

Aumenta a produção, diminui segurança, aumentam acidentes

Em artigo científico publicado em 2009 (disponível no link: migre.me/t5dwy), os engenheiros Todd Martin e Michael Davies mostraram que os rompimentos de barragens de rejeitos aumentam em épocas de queda brusca no preço do produto, precedidas por um período de valorização.

Os acidentes se multiplicam porque: 1) durante a valorização, as empresas tentam obter licenciamentos de maneira rápida, sem os devidos cuidados, o que leva à escolha de locais e instalações inadequadas e a uma pressão sobre agências ambientais, gerando perda de qualidade na avaliação dos riscos; 2) o preço dos serviços técnicos sobe e as empresas passam a contratar técnicos menos experientes ou a sobrecarregar os que já têm experiência; 3) quando os preços caem, a produção se intensifica e as empresas tentam reduzir os custos.

“As mineradoras produzem mais para enfrentar a queda do preço, mas não estruturam proporcionalmente os cuidados com as estruturas de exploração. Foi o que aconteceu com a Samarco, que elevou a produção em 37% nos últimos dois anos e deixou de investir em programas de monitoramento e segurança das barragens”, afirma Luiz Paulo Guimarães, do Movimento Nacional pela Soberania Popular frente à Mineração (MAM).

Cai a arrecadação, sobe o desemprego

A economia de Minas Gerais tem sofrido com a perda de receitas de exportação e arrecadação de divisas, como também na arrecadação tributária. Entre 2013 e 2015, o que se arrecadou no estado por meio da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM), diminui cerca de 44%, passando de R$ 1,2 bilhão para R$ 675,4 milhões.

Com a piora nos indicadores econômicos, os trabalhadores são os mais penalizados. “Várias minas estão com unidades fechadas no estado, férias suspensas, quadro de funcionários reduzido”, comenta Luiz Paulo Guimarães, do MAM.

Problema é a dependência

As dificuldades trazidas com a queda dos preços das commodities mostram que o país depende muito de alguns poucos produtos primários, destinados à exportação. Quando o comércio desses produtos entra em crise, os efeitos sobre a economia são devastadores.

“Em 2001, o Brasil exportava mais bens com conteúdo tecnológico e alto valor agregado, mas foi tornando-se cada vez mais dependente das commodities. Em Minas Gerais, a situação é mais grave do que no restante do Brasil. É como se, durante um jogo, o estado apostasse quase todas as suas fichas em uma única jogada. A coisa vai muito bem até que a demanda por minério acabe e a mineradora comece a demitir: a economia dos municípios fica ociosa e com dificuldades para se recuperar ”, conclui Rodrigo Salles.

O que são commodities?

Commodity é uma mercadoria comercializada mundialmente, cujo preço varia conforme oscilações na oferta e demanda. Em geral, esses produtos seguem algum tipo de padronização e têm um baixo grau de industrialização, como o minérios de ferro, a bauxita, a soja e a carne, etc.