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Em ato, blogueiros pedem o fim do monopólio das comunicações

“Os nossos governos não enfrentaram o monopólio da informação. Foi um erro estratégico, profundo”, disse a deputada Jandira Feghali.



Por Renata Bessi,

De São Paulo

Ato contra a Globo em Brasília

A esquerda brasileira carrega uma enorme dívida para com os blogueiros e a imprensa alternativa do país, avalia a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), no ato em defesa da liberdade de expressão, no Centro de Estudos de Mídia Alternativa Barão de Itararé. “Os nossos governos não enfrentaram o monopólio da informação. Foi um erro estratégico, profundo”, disse a deputada federal, no evento na noite de segunda-feira (7), na sede do Sindicato dos Jornalistas, em São Paulo (SP).

O ato aconteceu como reação de entidades, blogueiros e comunicadores à tentativa da Rede Globo em intimidar jornalistas que estão investigando o caso de um triplex, em Paraty (RJ), que pertenceria à família Marinho, proprietária das organizações, construído irregularmente em área de proteção ambiental.

Há duas semanas, a Globo enviou para quatro sites e blogues - O Cafezinho, Tijolaço, Diário do Centro do Mundo e Rede Brasil Atual - notificações extrajudiciais pedindo a retirada do ar de conteúdo referente ao imóvel. “Vocês são artistas das letras, que têm coragem de enfrentar o monopólio da informação”, disse Feghali.

A parlamentar defende ainda que a ação da Rede Globo está atrelada a uma ofensiva maior da direita, que culminou na última sexta-feira (4) com o depoimento coercitivo do ex-presidente Lula. “Estamos em uma guerra política. Não é uma guerra puramente técnica e jurídica, não é uma preocupação com a ética nem com o combate à corrupção. Eles querem retomar as estruturas de poder e do Estado brasileiro”, sustenta. “E não se enganem, para implantar o projeto deles, tem que restringir a democracia”.

Para o senador Roberto Requião (PMDB-PR), sem dúvida houve um “sequestro absurdo” do presidente Lula, mas é preciso aprofundar a avaliação do que está ocorrendo no país. “Há um ataque ao Estado social. O Estado passa a ser um Estado policial para reprimir as mobilizações populares diante da opressão do dinheiro”, avalia.

De acordo com o senador, o capital financeiro atua também em duas outras frentes. “A precarização do Parlamento, que se faz com o financiamento de partidos e campanhas, e a precarização do trabalho. E tudo isso vem acompanhado de privatizações, como estamos vendo com o pré-sal”, sustenta. “O alvo está claro, é o fim da possibilidade da existência de um projeto de Estado nacional e soberano”.

Debate no Barão de Itararé

Olho do furacão

Para Fernando Brito, do blog Tijolaço, que recebeu a notificação extrajudicial da Globo, o ‘olho do furacão’ desta crise é o sistema de comunicação do país. Segundo ele, não cabe mais vacilação, como ocorreu nos anos dos governos do PT. “Agora é hora de vida ou morte. O enfrentamento nos garante a vida, o não enfrentamento nos garante a morte. E nós não temos o direito de morrer”, defende.

O blogueiro anunciou que as investigações em relação ao triplex de Paraty continuam. “Nós vamos mostrar muito mais. Vamos mostrar que não é apenas uma casa, é uma imobiliária inteira de dezenas de terrenos públicos apropriados por esta gente”.

Judiciário autônomo

De acordo com Marcello Lavenère, advogado e presidente da OAB no período 1991-1993, o Judiciário e o Ministério Público funcionam hoje porque foram jornalistas, advogados e setores dos movimentos populares que pressionaram para que estes poderes tivessem autonomia garantida na Constituição Federal. “Depois do Regime Militar, lutamos para que fossem autônomos, independentes e corretos e não acuados e acovardados”.

O advogado defende ainda que a sociedade brasileira não pode aceitar o monopólio das comunicações. “Esse é o único capítulo da Constituição que desde 1988 não conseguimos regulamentar uma linha. Falar em marco regulatório para essa imprensa é falar em censura. Não queremos censura coisa nenhuma. Nós queremos uma comunicação social, aberta, plural e não da propriedade privada”.

É guerra

A deputada Feghali avalia que o cerco vai se intensificar daqui para frente. “Política tem que ter lado, muro não serve nesta hora. O outro lado tem muita força a gente sabe, tem o capital financeiro, tem apoio externo, a grande mídia. Tem tudo isso. Mas eles não têm a coragem que nós temos, do povo brasileiro. Eles não sabem com quem estão mexendo. Isso aqui é uma guerra, não tem como recuar”.

O senador Requião defende que o caminho é a mobilização. “Temos que ter uma posição consciente, consistente, informada e programática de resistência a essa direita. A mídia é um instrumento de amortecimento da consciência nacional. A mídia é um instrumento de precarização do estado nacional, do congresso e das leis que protegem os trabalhadores e o trabalho. Somente mobilização e pressão podem mudar este quadro”.