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Estudantes da PUC-SP repudiam ação violenta da PM

Em assembleia, comunidade acadêmica pede que reitoria se posicione contra ação da polícia, que lançou bombas de gás e balas de borracha durante protesto, nesta segunda (21)


Por Júlia Dolce e Rute Pina,

De São Paulo (SP)

Os estudantes da Pontíficia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) se reuniram em assembleia na manhã desta terça-feira (22) para repudiar a ação da Polícia Militar de São Paulo (PM) e exigir que a reitoria se posicione contra a truculência da corporação durante protesto realizado na noite anterior na universidade.

Foto: Brasil de Fato.

Um ato convocado por um grupo pró-impeachment na segunda-feira (21) terminou em cenas de violência após discussão de manifestantes discordantes. A PM, então, reprimiu os manifestantes que se posicionaram favoráveis ao Governo, com bombas de gás e balas de borracha. Dezenas de estudantes ficaram feridos. O ato foi convocado em resposta a um evento a favor da democracia e contra o golpe, realizado no Teatro da Universidade Católica de São Paulo (TUCA), na semana passada.

A PUC-SP lamentou “profundamente os episódios de violência”, por meio de nota oficial publicada em seu site. Além disso, a instituição disse que “está à disposição de sua comunidade para prestar todo o apoio necessário”.

No entanto, representantes do movimento estudantil e professores reunidos m assembleia na “prainha”, como é chamado o pátio localizado entre dois prédios da universidade, exigiram um novo posicionamento da instituição. Eles acreditam que a declaração “não é compatível com a história da universidade”, como afirma Vitor Bastos, 21, do coletivo EmFrente. O estudante de Direito disse que o intuito do ato foi mostrar “indignação” contra o posicionamento da PUC-SP.

“É uma vergonha que a PUC diga que apenas lamenta o ocorrido quando já mostrou disposição de criminalizar os estudantes entrando em contato com a Secretaria de Seguranca Pública”, disse.

Os estudantes protocolaram um documento na reitoria que, por meio da assessoria de imprensa, disse que não fará nenhum outro pronunciamento, além da nota oficial.

Violência

Rosalina Santa Cruz, professora do curso de Serviço Social, responsabiliza a PM pelo cenário de violência que ocorreu. “Como uma pessoa que foi presa e sofreu na ditadura, eu acho que essa ação que ocorreu na universidade ontem foi nos moldes da invasão da PUC de 1977, que foi tão truculenta como naquele momento”, compara.

A mobilização de pessoas a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff começou por volta das 16h30, quando um carro estacionou em frente à universidade. No horário da concentração, às 19h, cerca de 50 pessoas se reuniram na rua Ministro Godói, em uma das entradas do prédio, localizado em Perdizes, zona oeste de São Paulo (SP). Além de estudantes, moradores do bairro e pessoas ligadas a movimentos contra a corrupção estavam presentes.

“Eles denunciavam que a PUC era uma universidade marxista e de doutrinadores e chamavam os alunos, dizendo que eles que não tivessem medo de descer”, conta a professora. O grupo exaltava a imagem de figuras como o juiz Sérgio Moro e gritavam palavras de ordem como “fora Lula”. Ao mesmo tempo, em contraposição, um grupo de estudantes de Ciências Sociais faziam projeções, com o dizeres “não vai ter golpe”.

O ato de estudantes decidiu que abririam o diálogo. “Eles disseram que era um ato democrático e que o microfone estava aberto. Então nós decidimos que organizaríamos uma fala”, conta Vitor.

Neste momento, segundo relatos de dois alunos do curso de Ciências Sociais, que não quiseram se identificar, os estudantes foram hostilizados e vaiados. Foi quando a Tropa de Choque da PM separou os dois grupos.

“A partir daí, o pessoal que estava dentro do prédio desceu, pois não concordava com a ação da polícia. Não necessariamente concordavam ou não com o impeachment, mas as pessoas estavam contra ação da polícia naquele momento. Então elas começaram a gritar palavras de ordem contra a PM e contra o facismo”, afirmou um dos estudantes.

Enquanto os manifestantes pró-impeachment entoavam o hino nacional e cantavam “viva a PM”, outro grupo reagiu: “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da polícia militar!”. A PM respondeu atirando bombas de gás e balas de borracha, inclusive dentro do edifício da PUC. Um estudante ficou feriado na nuca. Procurado pela reportagem, o ambulatório médico da PUC-SP afirmou que não daria informações sobre o número de feridos na noite desta segunda-feira.

“Infelizmente o que aconteceu reflete o clima no país, um clima de ódio. E a gente tem que mostrar o papel da PM nisso. Se estão fazendo isso na PUC, se são capazes de fazer isso com a classe média, imagina na periferia? Imagina com os negros e os pobres?”, questionou Rosalina.

Já a Secretaria de Segurança do Estado, até o fechamento do texto, não respondeu aos questionamentos do Brasil de Fato sobre os excessos na atuação da PM. No entanto, em evento de posse de novos 1.028 policiais civis e técnico-científicos nesta terça, o secretário da pasta, Alexandre de Moraes, considerou a ação legítima. Ele afirmou que não tinha outra forma de dispersar os manifestantes e que “a Polícia fez o absolutamente necessário” na ocasião. “Tanto fez que não há feridos”, reforçou.

A estudante de jornalismo Larissa Bernardes relata que ela e mais um grupo de pessoas tentaram se abrigar no Espaço 946 Hostel - Bar, localizado em frente da Pontifícia, após passarem mal com o gás lacrimogênio. Segundo ela, o funcionário do local se recusou a deixá-los entrar por motivações políticas.

“O dono começou a empurrar todo mundo para fora, dizendo que petista não ia ter abrigo lá, que nós que pedimos por isso então teríamos que ficar lá fora respirando gás. [Ele] começou a chamar a gente de baderneiros”, denunciou. Ela estava passando mal e conta que teve que voltar à universidade para conseguir ajuda.

Segundo o dono hostel, Adilson Acosta, os estudantes entraram correndo no bar e quebraram objetos. “Invadiram meu bar, depois que passou o tumulto mandei todo mundo sair”, afirmou Acosta, que acredita ter sido prejudicado pelo o ocorrido. “Se for pra fazer revolução tem que aguentar, não pode se esconder. A PM tinha que ter negociado melhor, mas os estudantes causaram esse tumulto também”, declarou, exaltado.