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Em ato pela democracia, mackenzistas relembram papel da universidade na ditadura

Manifestação em defesa pela democracia é convocada por estudantes para que "a história não se repita", afirmam organizadores



Por Rute Pina,

De São Paulo


Ato com mais de 300 estudantes na Rua Maria Antônia, em SP/Foto: Rute Pina

Entre os mais de 300 estudantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie que bloqueavam a Rua Maria Antônia durante o ato pela Legalidade e pela Democracia que ocorreu na noite desta quarta-feira (23), a professora Dea Conti registrava tudo atentamente em um tablet, mesmo debaixo da chuva. Ela afirmou estar emocionada por presenciar seus alunos se manifestando na mesma via onde, há 48 anos, seu companheiro Leonel Itaussu, então estudante de ciências sociais da Universidade de São Paulo (USP), também lutou por democracia.

A professora faz referência à batalha da Maria Antônia, um embate entre estudantes USP e do Mackenzie que aconteceu em 2 em outubro de 1968 e resultou na morte de um jovem de 20 anos. Na época, grupos paramilitares de direita encontravam abrigo no Mackenzie, onde estudavam membros da Frente Anticomunista, do Movimento Anticomunista e do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), além de policiais infiltrados.

“Com certeza, se estivesse vivo, ele estaria aqui para viver essa emoção de ver o Mackenzie em uma reação pela legalidade e pela democracia – o que a gente nunca esperava”, disse.

Convocado por uma frente de coletivos de esquerda que atuam na universidade, o ato dos atuais mackenzistas lembrou que há 48 anos a instituição fechou suas portas aos estudantes que lutavam contra a ditadura. Atualmente, é proibido usar símbolos do período do golpe em qualquer ato político.

“A cor vermelha do logo que a universidade tanto preza, para nós, é a cor do sangue de cada estudante morto na luta contra a ditadura e pela democracia”, diz um trecho da carta-manifesto lida logo na início do ato.

Mackenzie alega “imparcialidade”

Melissa Cambuhy, estudante de Direito, relata que a instituição não cedeu sala para o debate sob a justificativa de que o Mackenzie deveria “manter a imparcialidade”. Na mesma linha, uma carta foi enviada aos professores pela reitoria nesta sexta-feira (18), orientando-os a não falar com a imprensa.

“A universidade fechou os portões para nós, não nos deixando fazer o evento lá dentro, mostrando mais uma vez como o facismo é institucional aqui no Mackenzie”, lamentou Melissa, que também militante do Levante Popular da Juventude.

A estudante de direito Tamires Sampaio, que participou da organização do evento, afirma que a ideia se deu a partir de um grupo de estudantes que sentiu a necessidade de se posicionar no complexo contexto político do país. “Na ditadura, o Mackenzie cumpriu um papel vergonhoso, porque apoiou o regime. Esta rua foi palco de uma batalha muito triste na nossa história e hoje a gente faz este ato aqui por causa deste simbolismo”, explicou.

Veteranos apoiam

Renato Martinelli foi estudante de Direito na instituição entre 1965 e 1968 e, naquela época, participou de uma frente estudantil de centro-esquerda que queria garantir a participação do movimento estudantil na luta contra a ditadura militar. “Hoje estou aqui para dar meu apoio aos mackenzistas, aos professores e intelectuais ligados neste evento que, para mim, representa um elo das lutas que nós tivemos na década de 1960 contra a ditadura. Hoje, os democratas empreendem em defesa de um governo legalmente constituído e eleito”, comentou.

O livreiro José Adão Pinto também foi apoiar o ato dos estudantes. Ex-militante da Ação Libertadora Nacional (ALN), ele foi preso por cinco anos e seis meses durante a ditadura.

“O Mackenzie representou o máximo da repressão universitária naquilo que foi o massacre da Maria Antônia. E, neste momento, estou na luta por um projeto progressista e popular e para não aceitar, mais uma vez, a obstrução do Estado de Direito, como em 1964”, argumentou.

Em um carro de som, além dos estudantes, movimentos sociais e coletivos fizeram falas em apoio ao ato e aos alunos que se organizam em defesa da democracia na universidade. Bruno Ramos, vice-presidente da Liga do Funk, afirma que, ainda que faça muitas críticas ao atual governo, estava lá para defender um processo democrático mais coerente. “Eu não levanto nenhuma bandeira partidária, mas defendo um projeto que dê oportunidades para quem nunca teve. Para as favelas, periferias”, argumentou.

Sem confronto

Mesmo com um início de um discussão entre grupos discordantes, o ato terminou pacificamente. Duas bombinhas, das utilizadas em estádios de futebol, foram lançadas, sem identificação, contra os manifestantes. Alguns vizinhos do Mackenzie, para demarcar protesto, batiam panelas, e um morador de um edifício ao lado lançou para o ato um “pixuleco” inflável, boneco que satiriza o ex-presidente Lula. “Sempre quis ter um”, disse sorridente a moça que resgatou o boneco.

Posição

A reportagem questionou a reitoria sobre a razão de o ato não poder ter sido realizado nas dependências da unive rsidade. Em nota, o Mackenzie afirma que “pautado por seus princípios confessionais, segue defendendo seus valores, amor ao próximo e convivência harmoniosa, reafirmando o respeito à liberdade de pensamento e expressão. Para preservação do bom funcionamento das atividades no ambiente acadêmico não consideramos oportuno no presente momento, manifestações que reúnam grande número de pessoas dentro de seu campus”.