Brasil de Fato

Uma Visão Popular do Brasil e do Mundo

Processos de paz na Colômbia sofrem com aumento da violência, indicam especialistas

O avanço no diálogo entre Exército de Libertação Nacional e governo colombiano é comemorado; contudo, assassinatos de ao menos 30 líderes sociais nos últimos meses demonstram que violência persiste


Por María Julia Gímenez,

Da Redação


Mesa de diálogo entre governo e ELN, no Equador | Foto: Telesur

O anúncio de abertura das negociações de paz entre o governo colombiano e o Exército de Libertação Nacional (ELN), na última quarta-feira (30), foi comemorado por ativistas do país. Porém, o aumento da violência contra organizações sociais, movimentos populares e lideranças comunitárias ainda preocupa entidades e defensores de direitos humanos.

“Temos que celebrar [as mesas de diálogo de paz], como parte da sociedade colombiana, que a insurgência sente com o governo para o início de uma vida política sem armas”, afirma Gloria Silva, advogada e integrante da ONG mais antiga da Colômbia, o Comitê de Solidariedade com os Presos Políticos.

Para ela, “a sociedade tem muito o que dizer e esse é um novo cenário que se abre de participação ampla, em todos os setores excluídos, de alternativas aos graves problemas que vêm afetando a sociedade colombiana, que, em geral, pode-se traduzir pela injustiça onde quer que seja.”

No entanto, Gloria lembra que há várias preocupações que se mantêm, como “o fato que o governo colombiano siga pretendendo que no lugar da paz ocorra a pacificação”. Ela ainda destaca que os conflitos armados e o paramilitarismo seguem vivos no país.

A advogada cita que, nesta sexta-feira (1), “ocorre uma paralisação militar em distintas regiões com consequências nefastas para as comunidades; com estruturas militares, muitas ligadas ao ‘uribismo’ (em referência ao ex-presidente Álvaro Uribe, entre 2002 e 2010, e um dos principais articuladores contra os diálogos do Executivo com as guerrilhas), que convocam uma marcha contra o processo de paz”.

Aumento da violência

Segundo o Centro de Recursos para análise de Conflitos (Cerac), que vem estudando o conflito na Colômbia desde 2009, a violência política “é crescente e cada vez mais seletiva”. Entendendo “a violência política como aquela que busca causar dano intencional contra pessoas, grupos ou comunidades, com o objetivo afetar as preferências políticas ou as decisões coletivas”, o Cerac registrou que no ano 2015 o assassinato de líderes sociais, militantes de partidos políticos e sindicalistas aumentou 35% frente aos dados recolhidos em 2014.

Embora se registre uma queda nas ações das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) diante da tentativa da guerrilha em restabelecer as negociações de paz com o presidente Juan Manuel Santos – desde 2012 os diálogos são feitos em Havana, Cuba –, os dados evidenciam um contraditório processo que, longe de estar no fim, evidencia a histórica violência no país.

Segundo denunciam organizações sociais e de defesa dos direitos humanos, nas últimas semanas, o conflito recrudesceu. Desde o último dia 23 de fevereiro, foram registrados ao menos 30 assassinatos de lideranças políticas e sociais comunitárias, além de outras ameaças e perseguições. Num comunicado conjunto lançado pela União Patriótica, a Marcha Patriótica, a Cúpula Agrária e o Movimento de Vítimas de Crimes de Estado (Movice), trata-se de um plano de “limpeza social” que piorou neste ano.

Foto: Reprodução

Processos de paz

Em entrevista ao Brasil de Fato, Angela Castellanos, defensora de Direitos Humanos e membro da organização indígena-camponesa Cúpula Agrária, afirma que as mortes estão relacionadas às ações dos grupos paramilitares que não veem com bons olhos os processo de justiça e paz.

“Ainda que pareça contraditório, os avanços nos diálogos de paz explica o recente aumento da violência”, adverte a ativista, que acrescenta que “existem interesses políticos e econômicos de que a violência persista no país”.

Segundo explica Angela, “a história de violência, que leva décadas na Colômbia, tem como fundamento a extrema desigualdade que vive esse país profundamente rico; aí está o fundamento, a concentração da riqueza e a desapropriação se sustenta na violência e no medo”.

Antioquia, Chocó, Cauca e o Sul da Córdoba são as regiões mais ameaçadas pelos grupos paramilitares. “Não é casualidade, se tratam de regiões ricas em minerais, por isso denunciamos que a violência política está diretamente vinculada aos interesses econômicos, que buscam por um freio aos processos de organização social em defesa do direito à terra”, explica Angela.

Gloria Silva, do Comitê de Solidariedade com os Presos Políticos, acrescenta que, junto ao aumento da violência por parte de setores paramilitares, o governo colombiano tem empreendido uma ofensiva de criminalização da luta e dos protestos sociais, o que foi materializado na sanção da Lei de Segurança Cidadã, em 2011.

“Enquanto se desenvolvem os ‘Diálogos de Havana’ – com as Farc –, tem se aplicado leis que criminalizam com prisões o exercício de direitos a protestas e reprimem comunidades organizadas de camponeses, além de estudantes, trabalhadores e lutadores sociais; e isso é gravíssimo”, afirma Gloria.

Ainda que este seja o panorama, no último dia 17 de março, a demanda por um modelo econômico coerente com o processo de paz – apresentado através de um plano de 15 pontos – mobilizou milhares de colombianos e colombianas, que convocaram a uma paralisação nacional e ocuparam as ruas de mais de 20 cidades do país. “Nós lutamos por uma paz na equidade, que respeite integramente os direitos humanos”, defende Angélica Castellanos.

Ameaças contra jornalistas

Segundo informou no dia 29 de março a agência de comunicação popular Colombia Informa, a organização Repórteres sem Fronteiras denunciou a aparição de um novo panfleto assinado pelo grupo paramilitar “Águilas Negras”, desta vez, no departamento de Cauca. No texto, são nomeados jornalistas, meios de comunicação, organizações sociais e de mulheres como “castrochavistas” (em referência ao cubano Fidel Castro e ao venezuelano Hugo Chávez), o que, para os paramilitares, seriam funcionais a um processo de paz no qual “o traidor [presidente] Santos está entregando o país”.

*Edição: Vivian Fernandes