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“Criou-se um clima de terror na região”, diz dirigente do MST sobre Quedas do Iguaçu (PR)

Joaquin Piñero, da Direção Nacional do MST, explica o contexto de disputa que culminou na morte de dois sem-terra


Por Maria Julia Giménez,

Da Redação

Tiros disparados contra sem-terras nesta quinta (7) /Foto: Julio Carignano

Na tarde da última quinta-feira (7), famílias do Movimento de Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), organizadas no acampamento Dom Tomas Balduíno, no município de Quedas do Iguaçu (PR), foram vítimas de uma emboscada realizada pela Policia Militar e por seguranças contratados pela madeireira Araupel. Para dar mais detalhes sobre essa tragédia e conhecer o posicionamento do movimento frente ao crime, o Brasil de Fato entrevistou Joaquin Piñero, da Direção Nacional do MST. “Nós, do MST, estamos muito indignados com os assassinatos dos nossos companheiros do Paraná”, lamentou.

Ele explicou que, no ano passado, o MST ocupou um latifúndio improdutivo, supostamente pertencente à Araupel. “Digo supostamente, porque o governo atua por meio do Incra [Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária], processou a empresa por estar em área ilegal, já que ela ainda está sendo disputada judicialmente. Por isso, nós do MST fizemos uma ocupação dessas terras no ano passado”, explicou Piñero.

Na semana passada, houve uma reunião entre o secretário de Segurança do governo do estado de Paraná, o comandante da Polícia Militar e outras autoridades estaduais, junto a representantes da Araupel, supostamente para tratar dos assuntos de segurança na região. “É importante explicar que quem detém o comando da polícia nos estados são os governadores. O governador do Paraná [Beto Richa] pertence ao Partido da Social Democracia Brasileira, o PSDB, histórico inimigo do MST e dos setores de esquerda no Brasil. Esta reunião estava, na verdade, tramando um ataque ao nosso acampamento, e esta ação resultou em dois companheiros mortos, sete feridos e dois detidos [logo após liberados]. Criou-se um clima de terror na região”, defende o dirigente.

A interpretação do MST é que esse episódio de violência foi comandado pela polícia local em aliança com a empresa latifundiária da região. “Isso para nós é muito grave. Por isso, estamos muito preocupados, pensando nos próximos passos em relação ao acontecido”. Confira a entrevista completa abaixo:

Brasil de Fato - Quem foram as vítimas deste ataque?

Joaquin Piñero - O companheiro Leomar Bhorbak, de 25 anos, que deixa a sua companheira grávida de nove meses, e Vilmar Bordim, de 44 anos, casado, pai de três filhos. E também temos companheiros que ficaram feridos e detidos. O clima na região é de muita preocupação.

Quais medidas o MST vai tomar?

Primeiro, é importante contextualizar esta situação no cenário nacional. Justamente neste mês, faz 20 anos que aconteceu o Massacre do Eldorado de Carajás, no estado do Pará. Também foi uma ação comandada pelo governo do estado, na época comandado pelo mesmo partido, o PSDB, e também em aliança com os latifundiários da região. Assassinaram vinte companheiros nossos.

O que é mais grave é a impunidade, que continua acontecendo na luta pela terra no Brasil. Até agora, nenhum dos responsáveis foi punido. Isso é tão grave que denunciamos à comunidade internacional.

A outra questão é que, neste mês estamos começando uma jornada de lutas e mobilizações por todo o país, pedindo justiça para que esses crimes não fiquem impunes. Portanto, vai ter muita luta neste mês, em vários estados do nosso país. Estes crimes no Paraná, na Paraíba, na Bahia etc., estão em consonância com um clima de perseguição por setores da direita, racistas, reacionários, golpistas. Isso gera uma insegurança nos militantes sociais de nosso país.

Mas o MST vai continuar a luta. Amanhã [sábado, 9 de abril] vamos fazer um ato nacional na cidade de Quedas do Iguaçu, onde vai ter o funeral dos nossos companheiros. Vamos estar mobilizados e seguiremos denunciando este crime. Estamos em contato com o Governo Federal para que envie uma força da Polícia Federal para que se possa de fato investigar este crime e passar à esfera federal, porque se ficar nas mãos do governo estadual, sabemos que não vai ter avanços e, como sempre, os assassinos e os mandantes ficarão impunes.