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Velório de trabalhador sem-terra morto pela PM reúne cerca de 500 pessoas

Antes do sepultamento de Leonir Orback, vítima da ação policial, advogados do MST solicitarão nova perícia.


Por Ednubia Ghisi e Julio Carignano,

De Quedas do Iguaçu (PR)

Foto: Julio Carignano/Brasil de Fato

Cerca de 500 pessoas participaram no final da tarde de hoje (8) do velório do trabalhador rural sem-terra Leonir Orback, de 25 anos, no acampamento Dom Tomas Balduíno, em Quedas do Iguaçu, região central do Paraná. Ele foi uma das vítimas fatais de uma ação de policiais militares e grupos de elite da PM ocorrida na tarde de ontem (7).

O segundo trabalhador assassinado foi Vilmar Bordin, que está sendo velado no município de Três Barras, onde vivem os familiares, e também terá cerca de uma hora de velório no Acampamento na manhã deste sábado (9), a partir das 7h. Bordin tinha 44 anos e deixou três filhos e esposa.

“Esse velório que está acontecendo nesta comunidade vai ficar marcado na vida de cada família acampada, de cada criança e de cada companheiro que está aqui”, garante Diego Moreira, integrante da coordenação estadual do MST/PR. O dirigente classifica o momento como lamentável na história da luta pela terra no Paraná e no Brasil. No lugar do termo “conflito”, utilizado por grande parte da mídia comercial, Moreira garante tratar-se de um massacre: “Mais um vez do lado nosso, do lado dos trabalhadores, é que as pessoas perderam a vida”.

Nilton Bezerra Guedes, superintendente do INCRA no Paraná, esteve na homenagem ao militante assassinado e também caracterizou a ação da Polícia Militar como uma emboscada “visivelmente desastrosa”. Segundo o superintendente, apesar de um histórico grave de violência no campo no Paraná, que inclui condenações em organismo internacionais para a condução da política agrária, nos seis anos houve acertos, sem despejos forçados.

A ação desta quinta-feira, na avaliação de Guedes, foi desproporcional e desnecessária. “[…] Eu até trato como isolada. Nós devemos ter a preocupação de não transformá-la em uma ruptura com o governo do estado e com a Polícia Militar”, assim, avalia que o caso deve ser investigado e os culpados identificados, mas com preservação de uma política estadual de mediação de conflitos, de maneira que “a reforma agrária seja vista como questão social e não de polícia”.

Luta por terra e justiça

Para Diego Moreira, a ação promovida pelo Estado e pelas milícias privadas na região central do Paraná reflete o cenário nacional de acirramento, em que lideranças de direita insistem na intolerância. “A resposta da militância do MST será na ocupação das terras, nas ruas e nas mobilizações. Nos mobilizaremos no Brasil inteiro e na região. Não iremos descansar enquanto todas as terras da Araupel não se transformarem em assentamento da reforma agrária”.

Guedes relembra o fato de haver duas ações em andamento a respeito da área, uma de 2004, outra de 2015 -, e nas duas já houve vitória da União em primeira instância. “No nosso entendimento, essas áreas foram tituladas irregularmente e tem que ser feita justiça, no sentido dessa área retornar para a União”. A expectativa do INCRA é de que a decisão se confirme em segunda instância para que seja possível criar o assentamento o mais breve possível.

Perícia questionada

Antes do sepultamento de Orback, advogados do MST solicitarão nova perícia sobre a causa da morte. “O laudo do exame cadavérico informa que a causa da morte foi um tiro no abdômen, mas as pessoas que liberaram o corpo também viram um disparo de arma de fogo na cabeça com saída pela nuca. Isso indicaria uma execução do trabalhador rural”, informou Ney Strozake, advogado do MST e da Rede Nacional de Advogados Populares (RENAP).