Brasil de Fato

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A favela por ela mesma

Jovens cineastas formados em comunidades carentes chegam ao Festival de Cannes com filme que mostra suas vidas como elas realmente são


08/10/2010



Xandra Stefanel
Revista do Brasil



No verão de 1961, cinco jovens cineastas de classe média subiram morros cariocas e fizeram o filme “5x Favela”. Lá estavam Cacá Diegues, Leon Hirszman, Joaquim Pedro de Andrade, Marcos Farias e Miguel Borges, integrantes do Centro Popular de Cultura (CPC), da União Nacional dos Estudantes (UNE). A obra, hoje difícil de ser vista em locadoras ou cineclubes, tornou-se um marco do cinema nacional como uma das precursoras do Cinema Novo, movimento cinematográfico brasileiro influenciado pelo neorrealismo italiano e pela Nouvelle Vague (nova onda) francesa.

Quase 50 anos e muitos filmes depois, Cacá voltou a subir os morros cariocas. Agora como produtor e na companhia de sete jovens cineastas moradores de comunidades carentes do Rio de Janeiro. O longa-metragem “5x Favela, Agora por Nós Mesmos”, lançado em agosto, tem cinco episódios, assim como o da década de 1960. A diferença é que o olhar dos atuais diretores não é “estrangeiro”: todos moram nos ambientes onde filmaram.

A ideia nasceu na década de 1990, quando Cacá teve o primeiro contato com organizações culturais de várias comunidades e passou a acompanhar os curtas-metragens dos participantes de cursos e oficinas, feitos em câmeras domésticas, editados em programas acessíveis e que circulavam quase que exclusivamente de um núcleo comunitário a outro. Ele e a produtora Renata Almeida Magalhães perceberam que poderiam ajudar a lapidar diamantes e resolveram montar um projeto para proporcionar a esses jovens as mesmas condições de produção de qualquer filme de médio porte e permitir que tivessem acesso à economia formal do cinema.

“A principal diferença entre os dois filmes é que o primeiro foi feito por cinco jovens universitários generosos e bacanas, mas de classe média, com um olhar de fora. E esse, não. Foi concebido, escrito, criado e realizado por jovens moradores de favelas”, compara Cacá. “Essa é a primeira geração de audiovisual das favelas cariocas e uma contribuição importante para a evolução do cinema brasileiro. Eu sabia que estavam prontos para fazer o filme”.

Mais de três anos

Os episódios de “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” trazem histórias do dia a dia no morro. Para chegar ao formato final, foram necessários mais de três anos. Mas valeu a pena: o filme foi selecionado para um dos mais importantes festivais de cinema do mundo, o de Cannes (França), e exibido em caráter hors concours (fora da mostra competitiva). Levou também sete prêmios no Festival de Cinema de Paulínia, em São Paulo: melhor filme de ficção (oficial e júri popular), ator coadjuvante (Márcio Vito, do episódio Acende a Luz), atriz coadjuvante (Dila Guerra, idem), roteiro (Rafael Dragaud), montagem (Quito Ribeiro) e trilha sonora (Guto Graça Mello).

Em 2007, a dupla de produtores organizou oficinas de roteiro para escolher as histórias que seriam filmadas. Elas foram ministradas em cinco comunidades que já desenvolviam programas de audiovisual em favelas: Nós do Morro, no Vidigal; AfroReggae, na Parada de Lucas; Cinemaneiro, que atende moradores da Linha Amarela; Central Única das Favelas (Cufa), na Cidade de Deus; e o Observatório de Favelas, no Complexo da Maré.

Foram mais de 600 inscritos. Na primeira triagem, o número caiu para pouco mais de 240, que participaram de oficinas técnicas de capacitação, como figurino e arte, entre outras. Só esse processo consumiu cerca de 10% do orçamento total da obra, que foi de R$ 4 milhões. Todos tiveram aulas e palestras com grandes nomes do cinema nacional, como Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Walter Lima Jr., Walter Salles, Fernando Meirelles, João Moreira Salles e Lauro Escorel.

Dos 240, 90 trabalharam efetivamente no filme e os demais, segundo Cacá, ficaram aptos a alçar voo no difícil mercado cinematográfico brasileiro. Ele explica que os sete diretores foram selecionados por meio de três critérios: “O primeiro deles, obviamente, era o currículo: quem já tinha feito um filme e demonstrado talento. O segundo foi o aproveitamento na oficina e o terceiro, nossa intuição”.

Concerto para Violino

O produtor conheceu Luciano Vidigal em 1993, quando filmava “Veja Essa Canção”, no qual o jovem atuou. Luciano já trabalhou, entre outras coisas, como boleiro de tênis, trocador de van e carregador de feira. “Comecei a fazer teatro e cinema aos 11 anos porque minha mãe era empregada doméstica na casa do [ator] Otávio Müller. Soube do Nós do Morro e achei que era o passaporte para o mundo”, lembra, aos 32 anos, o agora diretor do episódio Concerto para Violino. O episódio que dirigiu é o mais dramático dos cinco, sobre três crianças que juram amizade eterna, mas que tomam caminhos diferentes na vida: um vira policial, outro, traficante e uma, violinista.

“Quando eu recebi o argumento, senti o desafio. Ninguém queria filmar a violência porque isso é clichê, mas eu, como gosto de drama, adorei. O fato de eu ter um irmão que foi traficante me permitiu colocar elementos da minha vida pessoal na ficção”, comemora Luciano. Ele é morador do Vidigal e já teve seu curta “Neguinho e Kika” premiado em vários festivais nacionais e no de Marselha (França), além de ter trabalhado na preparação de atores de “Cidade de Deus” (Fernando Meirelles) e “Tropa de Elite 2” (José Padilha) e atuado em 13 longas, entre os quais “Orfeu” (Cacá Diegues), “O Primeiro Dia” (Walter Salles) e “Proibido Proibir” (Jorge Duran).

Acende a Luz

Luciana Bezerra, de 36 anos, também é atriz, trabalha com cinema há 17 anos e mora no Vidigal. O episódio que dirigiu, Acende a Luz, retrata as dificuldades de vizinhos que estão sem luz às vésperas do Natal. “O Vidigal vive essa história a cada dia. Ela é alegre, tem muito a ver com a minha família, em como a gente encara a vida, mesmo com as dificuldades.” Foi esse o episódio que rendeu a Dila Guerra, da Cia. de Emergência Teatral, que trabalha para o Sindicato dos Bancários do Rio de Janeiro, o prêmio de melhor atriz coadjuvante.

Arroz com Feijão

Em Arroz com Feijão, Rodrigo Felha, 30 anos, e Cacau Amaral, de 38, dirigiram juntos a história do menino Wesley, que ouve o pai confessando que estava cansado de comer o mesmo prato e tenta, com a ajuda do hilário amigo Orelha, arrumar um frango para deixar o aniversário do pai mais saboroso. Felha, que mora na Cidade de Deus, conhece de perto essa realidade, e por isso se sente orgulhoso do trabalho em grupo. “Sempre fomos colocados nas telas sendo exibidos, nunca como exibidores. Esse é o nosso ponto de vista, que contém, naturalmente, uma crítica social”, diz o diretor, ex-estoquista de loja de calçados que virou estagiário na Globo e, depois, coordenador do Núcleo de Audiovisual na Cufa, quando fez a direção de fotografia de “Falcão – Meninos do Tráfico” (MV Bill). “Já fazemos isso há muito tempo. O que o Cacá fez foi nos dar visibilidade. Cannes foi bacana. Tem muito glamour, mas aquilo não me encantou. Entrava no melhor hotel de lá e pensava: ‘Cara, eu sou da Cidade de Deus!’. Eu tinha de ficar com os pés no chão.”

Manaíra Carneiro, de 23 anos, também estranhou as pompas do festival de cinema francês. “Foi um choque. Saí de uma realidade muito pobre para uma muito rica, com gente ostentando, quase que queimando dinheiro. Foi emocionante exibir nosso filme lá, mas era tudo muito estranho. Eu, por exemplo, quase não vi criança lá [risos]! Quando vi, fotografei e fiquei mostrando para todo mundo. Tô acostumada com a favela, cheia de criança e onde as famílias têm sete filhos”, brinca a jovem, que sonha em continuar a trabalhar com audiovisual aliado a novas tecnologias para poder ajudar sua família.

Fonte de Renda

Ela dirigiu com Wagner Novais, de 25 anos, o episódio Fonte de Renda, em que Maicon, um jovem padeiro, passa a levar drogas aos colegas para ter dinheiro para estudar Direito. “Esse é um filme muito humano. Tem quem critique porque tem muita gente feliz, rindo. O que precisam entender é que as pessoas da favela riem e são felizes como todo mundo”, critica Wavá, como é conhecido. “Há oito anos, quando comecei as oficinas de cinema, chorei quando vi meu primeiro curta no campinho de terra batida da Cidade de Deus. Soube que queria aquilo para a minha vida. Hoje posso dizer que fui para Cannes. Eu nunca esperava”, emociona-se.

Wavá teve algumas experiências semelhantes às de Maicon quando entrou no curso de Cinema na Estácio de Sá. “Passei por dificuldades para me locomover e não podia ficar além do período da aula porque não tinha dinheiro para me alimentar. No episódio Fonte de Renda, falo na galhofa sobre o conflito de classes que vi na minha faculdade.”

Deixa Voar

Deixa Voar mostra as barreiras imaginárias do Complexo da Maré, onde mora o diretor Cadu Barcellos. Conta a história de Flávio, que, para buscar a pipa do amigo, é obrigado a ir para o “território” dominado por uma facção rival. É um retrato singelo de uma cidade chamada Maré. “Aquilo é um grande continente com vários países: 16 comunidades, 170 mil habitantes, todas as facções, polícia, milícias… É um episódio sobre o desconhecido, o refugiado”, explica o diretor.
Para Cadu, “5x Favela, Agora por Nós Mesmos” é mais que um filme, “é um marco na história da cinematografia brasileira”. “Nunca vi nada parecido. Um cara da favela falando sobre a sua realidade no cinema é revolucionário. Além disso, tem a questão do ponto de encontro, porque jovens de várias comunidades fizeram o ‘tudo junto e misturado’ realmente acontecer e dar certo”, comemora.

O mais emocionante, para ele, é saber da importância disso para as pessoas que moram na favela. “Viver de arte no Brasil é muito difícil, mas é muito legal ver sua família, os vizinhos e amigos dizendo que se sentem representados naquilo que eu fiz, no jeito de falar, vestir, nas pequenas coisas. Isso não acontece nas novelas, nem em outros filmes. Eu estava cansado de sentar em frente à televisão e receber luz. Eu queria mudar de lado e reluzir.”

Cacá Diegues garante que todos conseguiram esse feito e que Leon Hirszman (1937-1987), idealizador do primeiro “5x Favela”, está comemorando. “Onde quer que ele esteja, está felicíssimo. Leon sempre foi um congraçador que trabalhou pela solidariedade e pela soma das pessoas.”