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Norte Fluminense: vizinhos, mas diferentes

A reportagem pôde acompanhar um pouco das atividades de uma escola do MST e também como estudam as crianças e jovens em áreas rurais




Leila Leal e Raquel Júnia
Revista Poli



Depois de um grande engenho, dobra-se à direita, e depois de passar por um pequeno povoado, chega-se à estrada de terra. Pergunta-se a um e a outro onde é a localidade chamada Floresta e depois onde é Cajueiro, local em que se encontra o assentamento Zumbi 5. Em um descampado, avista-se uma pequena casa verde e branca na qual está escrito: “Escola MST”. Na porta, a diretora Leidemaria, junto às duas funcionárias Marlene e Wilma, esperam a reportagem. A escola existe há nove anos e está localizada na zona rural do município de São Francisco do Itabapoana, no norte fluminense.

Estudam ali 23 crianças – com idades entre cinco e 12 anos – filhos dos assentados do Zumbi 5 – um dos cinco assentamentos resultados da desapropriação das terras da antiga usina açucareira São João. A escola funciona em cinco cômodos: uma sala onde fica a direção, três salas de aula e uma cozinha, além de dois banheiros. Apesar de pequena, é bem organizada e bonita. “É preciso conhecer a realidade de cada escola, de cada região, eu não posso chegar de fora e colocar a minha visão”, comenta Leidemaria Pereira, que é professora da rede municipal de São Francisco do Itabapoana e está na escola desde que foi inaugurada.

Durante dois dias do último mês de julho, a reportagem pôde acompanhar um pouco das atividades da Escola MST e também como estudam as crianças e jovens dos assentamentos e áreas rurais próximas ao Zumbi 5. De acordo com o Sindicato Estadual dos Profissionais da Educação (Sepe) – Núcleo Campos, só em 2010, foram fechadas mais de 12 escolas rurais em Campos dos Goytacazes. O Sepe denunciou o fato ao Ministério Público. “Fizemos algumas vistorias nas escolas e, na verdade, a demanda existe. Alguns alunos têm que se deslocar por uma distância muito grande para conseguir estudar. O município deixou de investir há muito tempo nestas escolas”, afirma Ângela Barbosa, diretora do Sindicato.

A Secretaria Municipal de Educação de Campos confirmou o fechamento de 11 escolas e, por meio da assessoria de imprensa, declarou: “As escolas foram desativadas por uma série de razões, tais como difícil acesso, não possuir transporte, falta de professores e orientadores pedagógicos, e prédio necessitando de reformas”. Ainda de acordo com a secretaria, todos os alunos foram transferidos para outras unidades de ensino da rede municipal; em dois dos casos, as novas escolas estão distantes dois e três quilômetros das unidades desativadas.

A Secretaria não informou a distância dos locais de moradia dos estudantes até as outras 14 escolas para as quais foram transferidos, mas, segundo o documento protocolado pelo Sepe junto ao Ministério Público, há situações nas quais crianças estão tendo que deslocar 12 quilômetros. “Quando o município toma uma atitude como esta, dizendo que fechou porque as escolas estavam precárias, está assumindo uma desobediência da lei. É um desrespeito profundo com a infância, porque é preciso trabalhar com sua cultura, favorecer ao máximo a permanência da criança e não colocá-la no ônibus para uma hora de viagem até a escola. Quando o município faz isso ele tenta cumprir a lei burlando os requisitos educacionais e da infância. Desta forma, se está quase condenando estes estudantes a uma evasão escolar”, questiona a pesquisadora Isabel Brasil, doutora em educação e diretora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz).

Segundo a Secretaria Municipal de Educação de Campos, há 104 escolas rurais no município, destas, apenas 20 oferecem o primeiro e o segundo segmento do ensino fundamental. Em 81 delas, só há o primeiro segmento. “Este número não é suficiente, percebemos que a demanda é muito maior do que a oferta em todos os níveis. No caso da escola de segundo segmento, que também é atribuição do município, ela não está ali. Inclusive, existe muita demanda de Educação de Jovens e Adultos, porque os jovens não conseguem se deslocar para estudar em outros locais, e também por se inserirem no mercado de trabalho terminam evadindo. Só mais tarde, com 16, 17 anos, quando percebem que vão precisar de qualificação e começam a fazer outros projetos de vida é que buscam a escola novamente para o Educação de Jovens e Adultos e aí esbarram em outro problema porque também não há escolas suficientes de EJA para atendê-los”, detalha a professora licenciada do Sepe, Graciete Santana. Ela lembra que o município de Campos tem o menor Índice de Educação Básica (Ideb) do Estado do Rio.

Multissérie no Zumbi 5

As aulas na escola MST começam às 7h30, com um café da manhã, e terminam às 11h30. Os estudantes também almoçam na escola. O corpo administrativo da instituição é composto por quatro pessoas – a diretora, duas merendeiras e mais uma professora. De acordo com Leidemaria, não existe evasão na unidade e os alunos faltam pouco. A escola oferece educação infantil e as séries iniciais do ensino fundamental. Na primeira sala, estudam as crianças da educação infantil e nas outras duas se dividem os alunos do fundamental. A escola trabalha com multissérie, ou seja, alunos de séries diferentes em uma mesma turma. “No 2º ano, só temos dois alunos, no 3º ano, apenas um aluno, então, não tem como acabar com a multissérie”, diz.

Para Roseli Caldart, do setor de educação do MST, o modelo multisseriado não é o ideal, mas, segundo ela, o movimento também não vê nas séries uma boa proposta para a educação. Ela explica que a educação por ciclos etários tem sido trabalhada com bons resultados em algumas escolas de assentamentos e escolas itinerantes.

Leidemaria conta que, neste ano, a escola recebeu um material didático novo, do programa Escola Ativa, do Ministério da Educação. Ela mostra os livros e elogia o material por ser mais próximo da realidade dos alunos. “O que víamos nos livros didáticos? Apartamentos, carros. Eles têm que conhecer os assuntos da cidade, mas do campo também. Alguns exemplos falam de hortas, cooperativas agrícolas”, observa. Para a diretora, é importante que os estudantes consigam estudar no campo, já que, na cidade, muitas vezes, existe uma visão distorcida da realidade rural. De acordo com Leidemaria, a ampliação da escola para atender as outras séries é um desejo das crianças e dos pais do assentamento. Ela acredita ser viável que a escola continue a oferta de ensino, desde que o prédio seja adequado com melhores condições para receber os alunos – a estrutura atual já é bastante apertada.

Entretanto, de acordo com a secretária municipal de educação de São Francisco do Itabapoana, Iara Nogueira, não existe a possibilidade de o segundo segmento ser implementado no Zumbi 5. “É algo totalmente inviável, mesmo porque teríamos que ampliar a escola e manter dez professores para menos de 30 alunos. Aí depois o próprio aluno não vai querer ficar mais lá: é o que acontece nas outras localidades. Como o nosso município oferece transporte em todo o município, ele acaba indo para outras escolas”, diz. Isabel Brasil, no entanto, acredita que a relação é inversa: é a não oferta da continuidade dos estudos no campo que favorece o êxodo rural. “O jovem está saindo dali porque quer melhores condições de vida, inclusive escola, isso denuncia que não há uma política de fixação do jovem no campo na qual a questão da educação é central, bem como da cultura e geração de emprego”, alerta.

Sem escola no Zumbi 4

Enquanto no Zumbi 5 as crianças podem estudar dentro do próprio assentamento – pelo menos enquanto estão no primeiro segmento do ensino fundamental –, no Zumbi 4, a poucos quilômetros dali e onde vivem cerca de 136 famílias, existe uma escola abandonada. A Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro informou que a Escola Estadual Bartholomeu Lysandro oferecia até 1996 o antigo primário (primeiro segmento do ensino fundamental) a 53 estudantes. Em 1997, a escola parou de funcionar e os alunos foram matriculados em outras instituições.

De acordo com os moradores do local, a escola atendia aos filhos dos trabalhadores da antiga usina São João. A assentada do Zumbi 4 Viviane Ramiro lembra a história de uma moradora do local que foi aluna da instituição e precisa pegar o histórico para comprovar a conclusão do antigo primário, mas não consegue. “A justificativa para não reabrirem a escola é a de que há pouco aluno, mas não são tão poucos. O transporte escolar que leva para a cidade sempre dá problema, sem falar na qualidade do ensino lá que é terrível. Tem gente que está na 5ª série e não sabe escrever o nome”, reclama Viviane.

De acordo com a Secretaria de Educação do estado do Rio, os históricos dos antigos estudantes da escola desativada foram levados para as instituições para onde foram transferidos. No caso dos alunos que não continuaram os estudos, os documentos podem estar na coordenadoria regional da educação localizada em Campos. Ainda segundo a Secretaria Estadual, reabrir a escola não é uma prioridade, já que o primeiro segmento do ensino fundamental, que era oferecido antes do fechamento, desde a LDB é considerado responsabilidade prioritária do município.

Enquanto o poder público não cria condições para que a escola do Zumbi 4 funcione, os próprios assentados, com a ajuda da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Projeto Mova-Brasil, mantêm uma escola de Educação de Jovens e Adultos no período noturno: é a Escola Popular Zumbi dos Palmares. Para as aulas, é utilizada uma parte do antigo prédio abandonado da escola. A iluminação na sala é precária, o quadro foi doado pelo Cefet de Campos, alguns dos bancos pela CPT e a mesa pela própria comunidade. Em dias de aula e outras atividades, os bancos da igreja próxima também são emprestados para a escola.

Viviane explica que o Mova-Brasil, um projeto da Petrobras de estímulo a habilidades de leitura e escrita, é responsável pelo pagamento dos professores e pelo material didático utilizado durante as aulas, das quais participam cerca de 20 alunos. Em outros turnos, também funcionam na escola oficinas de artesanato e um grupo de teatro. Thamires, Marcell, Natália e Jéssica, do coletivo de teatro, já têm duas peças de teatro montadas – uma que conta a história de Zumbi dos Palmares, que dá nome aos assentamentos, e outra sobre o itinerário dos cortadores de cana.

Trata-se, segundo Isabel Brasil, de uma mobilização que preenche o vazio da falta de atenção do poder público. “O Estado deveria perceber que se trata de uma denúncia contra a ausência de políticas para o campo”.

Marimbondos tomam conta

Do lado oposto da rodovia em que ficam os assentamentos da antiga usina São João (Zumbis 1, 2, 3, 4 e 5), uma estrada leva ao acampamento do MST Madre Cristina e ao assentamento Dandara. É neste caminho que fica a Escola Municipal Flor de Maio, pertencente ao município de São Francisco do Itabapoana. Segundo os trabalhadores rurais do acampamento e assentamentos próximos, a escola está fechada desde 2008.

O mato já está grande o suficiente para cobrir quase toda a frente da escola. Os desenhos pintados e gravuras de papel com letras e números afixados nas paredes revelam que ali já houve atividade escolar e não faz muito tempo, mas os marimbondos tomaram conta do prédio. São tantos que praticamente impedem a entrada no local. Os trabalhadores rurais contam que a escola foi furtada duas vezes, o que teria feito com que a prefeitura desistisse de manter as aulas no local.

De acordo com a secretária de educação do município, Iara Nogueira, a escola já estava desativada quando a gestão atual assumiu o governo e não há planos para reativá-la, já que o número de estudantes próximos à escola é pequeno e o transporte escolar os leva para outras localidades. Para ela, mais cedo ou mais tarde, o estudante terá mesmo que sair do campo. “Sabemos que ele um dia terá que sair desta escola. Principalmente o que identificamos é que os alunos não querem estudar nestas localidades, querem ter o convívio com outras pessoas e hoje uma das grandes funções da escola é socializar”, argumenta. Viviane Ramiro, educadora da escola popular do Zumbi 4, alerta para o risco desse pensamento, que naturaliza o êxodo rural. “Às vezes, até a escola de dentro do assentamento não garante uma boa formação. Muitos professores dizem: ‘ah, vocês têm que estudar para saírem daqui’. Para muitos deles, ser desenvolvido é ser da área urbana”, critica.

Para Roseli Caldart, o número de alunos também não pode ser um argumento para se fechar uma escola. “É evidente que há um prejuízo se há uma socialização pequena com turmas de cinco, quatro alunos. Este não é o nosso ideal de educação, mas é preciso analisar isso de um ponto de vista maior: o que está acontecendo neste local para ter tão poucas crianças? O que temos discutido enquanto movimento é que a análise não pode ser estritamente econômica, administrativa. Há situações em que o fechamento da escola representa, do ponto de vista da comunidade, uma perda que é mais do que a questão da escola, que é uma perda de referência”, analisa.

Há cerca de 30 estudantes no acampamento Madre Cristina, no assentamento Dandara e nas redondezas. Ana Carolina Pereira, de 16 anos, está cursando o 3º ano do ensino médio em uma escola de São Francisco do Itabapoana. A estudante toma o ônibus escolar e faz baldeação em Floresta, povoado mais próximo do acampamento. De lá, segue para São Francisco. Na volta, Ana Carolina não pode se descuidar do tempo porque corre o risco de não conseguir pegar o último transporte escolar que sai de Floresta em direção ao acampamento, às 12h15. “Já aconteceu de eu perder o ônibus e ter que vir andando: demorei umas quatro horas e meia”, conta a estudante. Ana Carolina relata que na escola da cidade os outros alunos são curiosos sobre a condição dela de acampada. “Ser sem terra não é vergonha. Às vezes algum colega diz: ‘ah, vocês estão invadindo’. Aí eu explico: ‘não, a gente está ocupando, é diferente’”.



<Para entender>


Escola por ciclos etários – A modalidade considera a idade das crianças, adolescentes e jovens no processo educacional. Desta forma, os estudantes não são divididos em séries ou segmentos, mas por idade, de acordo com as especificidades locais e também considerando as necessidades, interesses e desenvolvimento cognitivo desses estudantes.

(Fotos de Raquel Torres)