Brasil de Fato

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Bem-vindos ao Terceiro Mundo!

A crise financeira global afetou fortemente a Espanha, que vive uma situação bastante conhecida pelas nações do sul





CC Rod RC



22/10/2010


Breno Bringel e

e Janaina Stronzake


“Crise. Desemprego. Miséria.Demissões. Recorte salarial. Fim dos planos sociais. Violência. Ajuste. Sujeição ao FMI. Êxitos esportivos: os países mais pobres do mundo cumprimentam os espanhóis. Bem-vindos ao Terceiro Mundo!”. Essa foi a particular homenagem da revista de humor argentina Barcelona, que dedicou uma capa com essa manchete logo depois da vitória espanhola na Copa do Mundo de 2010.

A anedota desnuda uma grave situação: a crise financeira global iniciada em 2008 afetou fortemente a Espanha, que vive hoje uma situação delicada, bastante conhecida pelos países do sul. A particularidade da crise, na Espanha, consiste em ter se encontrado com um processo simultâneo de profunda precarização das relações de trabalho, privatização dos setores públicos e um esgotamento da indústria imobiliária especulativa que freou o ciclo de crescimento insustentável anterior.

Nos últimos dois anos, sucederam- se os recortes sociais, os salários dos funcionários públicos foram reduzidos e, a cada dia, a lista de desempregados aumenta, chegando já a mais de quatro milhões de pessoas, que representam 20% da população ativa.

A solução do governo espanhol para sair da crise? Continuar protegendo o sistema financeiro, ao mesmo tempo em que propõe uma reforma trabalhista que fl exibiliza a relação patrão-empregado, reduzindo os custos de demissão e facilitando a vida dos empresários. Mas as boas intenções do “socialista” Zapatero não param por aí: ele quer também aprovar uma reforma do sistema de pensões, com o objetivo de aumentar a idade da aposentadoria de 65 a 67 anos.

Como foi a greve

As reformas trabalhista e do sistema de pensões foram o estopim para que as duas centrais sindicais majoritárias na Espanha (Comissões Operárias – CCOO – e União Geral dos Trabalhadores – UGT) convocassem, para 29 de setembro, uma greve geral. Apesar das várias tentativas dos meios de comunicação de criminalizar a mobilização e minimizar a importância da greve, aproximadamente dez milhões de trabalhadoras e trabalhadores pararam por um dia.

Perto da meia noite do dia 28, a mobilização começou com festa. O cantor e compositor José María Alfaya animou a concentração, na praça Santa Ana, no centro de Madri. Outros artistas se somaram e declararam que os 21 teatros da capital espanhola estariam em greve, bem como quaisquer gravações de filmes ou séries.

No campo das expressões culturais, a taxa de desemprego chega a 65%. “Nossa democracia está em perigo”, disse o ator Alberto San Juan. “Precisamos protestar pelo conjunto da situação que estamos vivendo, não só contra essa reforma trabalhista”.

Também na virada do dia 28 para o dia 29, piquetes pararam a vida noturna de várias localidades, começando a criar o clima de mobilização para a jornada do dia seguinte, que começou cedo. Nas grandes cidades, o principal objetivo foi parar o transporte público, a indústria e os mercados de abastecimento.

O êxito foi notório. A capital amanheceu sem ônibus, sem transmissão televisiva local e com os grandes mercados fechados. Durante o dia, piquetes cortaram a Gran Vía, a principal avenida da cidade, e uma manifestação massiva culminou o dia.

Em Barcelona, houve um alto índice de adesão à greve e fortes enfrentamentos entre a polícia e os manifestantes, que acabaram com mais de 40 pessoas presas. Em Sevilha, Vigo, Gijón e Valência, os trabalhadores e trabalhadoras mantiveram os serviços mínimos essenciais, mas também fizeram importantes mobilizações.

O apoio à greve variou muito de acordo com os setores. Foi aderida em massa por setores como a metalurgia, a indústria e a agricultura. Os portos praticamente pararam em todo o país, e vários voos foram cancelados. No outro extremo, nas administrações públicas e no setor do comércio, o grau de adesão foi menor.

Greve ou greves…

Mas talvez um dos dados mais destacáveis seja que não foram somente os trabalhadores e trabalhadoras com emprego e salário que pararam, e que a “greve ofi cial” convocada pelos sindicatos majoritários não foi a única forma de expressão da greve geral.

Houve muitas formas de protesto e ação direta, como ocupações de imóveis, manifestações descentralizadas em bairros, bicicletadas, piquetes festivos e performances, que demonstraram tanto sua oposição às reformas (e de forma mais profunda, às políticas neoliberais que lhe dão origem e sustento) como à posição dos sindicatos que convocaram a greve, distantes dos interesses das classes trabalhadoras e muito próximos ao discurso e jogo da política institucional.

Com esse pano de fundo, o grupo dos chamados “precários” (que incluem desempregados, estagiários, aqueles sem contratos ou com contratos precários e de curta duração, trabalhadores autônomos e estrangeiros, entre outros) encontrou uma forma de se manifestar com criatividade e democracia. Foi aberto um blog (www.cualestuhuelga.net) para várias formas de expressões: os sindicatos mais críticos e os movimentos sociais aproveitaram a conjuntura para lançar um discurso de ruptura, com propostas para uma saída social à crise.

Também interessante foi a crítica ao machismo dos sindicatos: feministas levantaram suas bandeiras contra o patriarcado, acusando a “greve oficial” de machista e excluidora das mulheres. Em Madri, dentro dos protestos conduzidos por coletivos de base, foram organizadas cirandas infantis e almoços coletivos, para garantir que as mulheres também pudessem estar nas ações.

Esperanças
“Que os ricos paguem a crise” tem sido o lema dos movimentos sociais na Espanha. Mas, até agora, quem vêm pagando suas consequências são os trabalhadores e trabalhadoras. Nem a greve geral parece ter sido suficiente para que o presidente Zapatero retificasse o rumo da “europeização” de seu governo, antes considerado “progressista” por causa de algumas políticas sociais que, de forma contraditória, estão sendo totalmente sacrificadas agora.

O controle da União Europeia e das organizações internacionais é estrito nos países da zona do euro, como pôde ser visto meses atrás, quando eclodiu a crise na Grécia, e como está acontecendo também na Espanha. Por outro lado, o aumento da xenofobia, homofobia e racismo é preocupante. Na Espanha, imigrantes são detidos pela cor da pele; e, nas eleições recentes da Holanda e da Suécia, a extrema direita ganhou espaço no governo. Tudo isso num contexto de defesa intransigente a um modelo determinado de democracia (cada vez mais cansada e caduca) que querem exportar a todo o mundo.

Há esperanças. A greve geral mostrou que há uma vontade de rearticular a luta social na Espanha, ainda que os desafios sejam enormes, tanto internamente – devido ao alto grau de fragmentação existente entre os atores sociais, as particularidades autonômicas e uma grande apatia – como no panorama externo, em que é imprescindível unificar as lutas na Europa, aproveitando o alto fluxo de mobilização existente principalmente na França e na Grécia.

O êxito dessa empreitada dependerá, em grande medida, da capacidade da classe trabalhadora de sublimar a frustração em mobilização e estreitar as articulações que permitam uma resistência regional capaz de incidir não só nas políticas nacionais, mas também nas europeias. Mais que tudo, de ir além de reformas do capitalismo decadente e construir um projeto revolucionário, um projeto socialista.

Breno Bringel e Janaina Stronzake são colaboradores do Brasil de Fato em Madri (Espanha)