Brasil de Fato

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Algo de Negro

Grupo Folias leva, para as ruas de comunidades quilombolas, espetáculo que investiga questões raciais e a exclusão social


Aldo Gama
da Redação




O Folias está nas ruas. Mais precisamente, nas vias de comunidades quilombolas, encenando “Algo de negro”, espetáculo integrante do projeto Êxodus: O Homem Cordial (estudo que lança olhares diferentes sobre a cordialidade como característica sócio-cultural do povo brasileiro). “Nunzio”, “Medeia, a mulher fera”, “Medida por medida” e “A dócil” são as peças que completam o projeto que teve como ponto de partida o livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda.


“Queríamos investigar a cordialidade sob a perspectiva afrodescendente”, explica Carlos Francisco, o Carlão, diretor do espetáculo e um dos administradores do Folias. “Tomamos como ponto de partida o paradoxo da cordialidade que, ao mesmo tempo que impedia que o negro tivesse uma ação mais contundente na construção de uma sociedade mais justa, permitia que ele se organizasse, perpetuando sua cultura”, completa.

Mas Carlão avisa que “Algo de negro” não é um estudo feito exclusivamente a partir do ponto de vista racial. A investigação também tem como objeto camelôs e sem teto dos centros urbanos, “tentando ocupar as ruas porque é o que lhes resta”, e os proprietários que buscam expulsá-los porque enfeiam o lugar. Dessa maneira, surgem personagens híbridos, meio moradores de rua, meio ambulantes, que ajudam a discutir a privatização do espaço público.

“Esse é um dos motivos do espetáculo acontecer na rua”, explica Carlão, “mesmo porque a maioria das manifestações culturais afrobrasileiras acontecem nas ruas, como o congado, o reisado, o carnaval…”, enumera.

Concepção e estrutura

Vencedor de um edital da Fundação Cultural Palmares, “Algo de negro” estreou durante as comemorações dos 22 anos de criação da instituição, com a apresentação do espetáculo em Maceió (AL), em meados de agosto. O próximo passo foi colocar a peça na estrada, agendando viagens para comunidades quilombolas e assentamentos no Estado de São Paulo.

Desde a sua concepção, existia a intenção de representar o texto em outros lugares. Tanto que mobilidade foi uma da principais preocupações da produção, que precisa organizar um grupo de seis atores e um espetáculo de uma hora de duração.

“Todos os espetáculos do Folias têm alguma limitação técnica, seja de estrutura cenográfica ou de equipamentos multimídia, o que é um elemento complicador, algo que dificulta ou impossibilita viagens”, conta. “Assim, em ‘Algo de negro’, fizemos uma coisa para a rua, pensando exatamente em ter uma estrutura simples, de fácil montagem”.

Esse planejamento foi posto à prova com a primeira apresentação, realizada dia 25 de setembro, na comunidade de Cafundó, que fica na zona rural da cidade de Salto do Pirapora, interior paulista.

Em Cafundó

“No início da apresentação houve um certo zum zum zum quando o guia, inspirado num guia de umbanda, o Zé Pelintra, entrou em cena”, lembra Carlão. “As pessoas ficaram sussurrando umas com as outras, mas quando ouviram o nome do personagem ficaram satisfeitas porque confirmaram suas suspeitas”, explica, ao comentar a reação do público.

Além dos moradores da comunidade, a plateia contou com o acréscimo dos participantes do 5º Encontro dos Quilombos, evento realizado pela Federação Quilombola e que coincidiu com a apresentação. Para o Folias, a “aceitação foi maravilhosa”, com o público acompanhando todas as canções com palmas. “Queremos levar para outros estados, mas dependemos de recursos”, avisa Carlão

Na rua
Apesar de apresentado na rua, o espetáculo não prevê a participação do público, o que não impede que isso aconteça. Na estreia em Maceió, por exemplo, um homem caracterizado como palhaço entrou em uma das cenas, soprando bolhas de sabão. Completamente fora do contexto, a intervenção acabou por confundir os espectadores.

“Apresentações em lugares públicos estão sujeitas a interferências”, lembra Carlão, “mas, por vezes, pode funcionar a favor do espetáculo”.

Na apresentação em Cafundó, durante uma cena de batalha, alguns cães se reuniram em grupos opostos, rosnando e latindo uns para os outros, como se estivessem se preparando para briga. A animosidade terminou exatamente ao final da cena. “Se tivéssemos ensaiado não teria funcionado tão bem”, comenta Carlão.

Matriz musical
Fundamental na condução da narrativa, a trilha sonora do espetáculo foi concebida a partir da matriz africana, como elemento da construção da cultura brasileira, e respeitando sua importância dentro do universo afro-brasileiro. Dessa maneira, manifestações como o samba, maracatu, congado são expressões carregadas de valores ancestrais, sendo um complemento espiritual genuinamente popular.

O processo de criação das músicas envolveu experimentações com instrumentos percussivos realizadas durante o processo de elaboração da peça. Como resultado, a mistura de ritmos de outras culturas de origem afro-latino-americana evidenciou a riqueza e diversidade desses elementos que fazem parte de nosso cotidiano. Veja a seguir, a letra de uma das músicas “Algo de negro”.

Temporal
(Selito SD)

Levantei o meu barraco
Na encosta do morro
Veio o temporal
Levou tudo morro abaixo
E cuspindo barro
Gritei por socorro
Sob o temporal

Eta vidinha danada
Essa da gente que é pobre
Sofrida, desamparada
Sem ouro, prata e nem cobre

Sem guarida e sem morada
Vai se virando como pode
Sem guarida e sem morada
Vai se virando como pode

Levantei o meu barraco
No vale, eu saí do morro
Veio o temporal
Encheu, transbordou o riacho
E cuspindo barro
Gritei por socorro
Sob o temporal

Eta vida desgraçada
Da gente, que nada tem
Sofrida, desamparada
Sem um mísero vintém

sem guarida e sem morada
Só conta com Deus
Mais ninguém



< O Grupo Folias >


O Folias é um grupo teatral em atividade desde 1997, tendo recebido uma série de prêmios, como o Shell, APCA e Molière. A sede do grupo, o Galpão do Folias, fica no bairro de Santa Cecília, em São Paulo, e conta com uma equipe de aproximadamente 60 artistas.

Depois da estreia em Maceió, e da apresentação na comunidade quilombola de Cafundó, o Folias segue para as comunidades de Camburi e Caçandoquinha (Ubatuba), Brotas (Itatiba), Morro Seco (Iguape) e Pedro Cubas (Eldorado). O grupo aguarda ainda contato de outras comunidades que queiram recebê-los, por meio do telefone (11) 3361-2223. Em novembro, o espetáculo será apresentado nas ruas de São Paulo.