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Pacifismo feminino silenciado na Colômbia

Mulheres se mobilizam pela paz e contra a impunidade, em um país com meio século de conflito armado





Helda Martinez
IPS



“Quando nós mulheres falamos claro, sem mostrar medo, pagamos um alto preço, de viver com esse medo”, disse uma dirigente comunitária que trabalha pela paz na Colômbia. “As ameaças não paralisarão nosso trabalho pela paz e a justiça social”, destacou outra.

Estas vozes são o eco de mulheres colombianas que se mobilizam pela paz e contra a impunidade, em um país com meio século de conflito armado entre guerrilhas esquerdistas, as forças do Estado e os grupos paramilitares de extrema direita que se somaram nos anos 1980.

São camponesas, indígenas, negras, mães de desaparecidos, vítimas da guerrilha, dos paramilitares ou da força pública, bem como integrantes de organizações promovidas por instituições públicas.

A figura mais relevante é a senadora do Partido Liberal, Piedade Córdoba, uma afrodescendente feminista que foi gestora direta da liberação de 14 presos pelas esquerdistas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) em 2008, 2009 e 2010, e que promove a solução pacífica da guerra.

Nesse esforço, Piedade trabalha em conjunto com organizações não governamentais, como a Casa da Mulher ou o grupo Colombianos e Colombianas pela Paz, que ela fundou e que mantém um diálogo público e por carta com as Farc e com a segunda maior guerrilha, o Exército de Libertação Nacional (ELN).

“A paz não tem volta” ou “nossa missão é derrotar a guerra” são os mantras de Piedade, que paga altos preços, como a proibição de exercer cargos públicos por 18 anos, decidida em primeira instância pelo procurador-geral, Alejandro Ordóñez, no dia 27 de setembro, que a acusa de colaboração com a guerrilha.

Em 1996, nasceu a Rota Pacífica das Mulheres, que se declara “antimilitarista e construtora de uma ética da não violência”. Seus integrantes, desde teóricas feministas até camponesas de aproximadamente 300 organizações de nove regiões, entram em caravana por áreas de conflito com uma mensagem que desagrada a todos os envolvidos em armas.

“Frequentemente recebo telefonemas agressivos por minha condição de líder”, disse ao Terraviva María Arizabaleta, integrante da Rota no departamento de Valle do Cauca. “No Valle, somos 300 mil mulheres”, acrescentou esta mulher de 76 anos e 60 de ativismo.

“A nós cabe construir a paz”, disse ao Terraviva a diretora da Casa da Mulher, Olga Amparo Sánchez. No segundo semestre de 2009, pelo menos 11 de suas dirigentes foram vítimas de ameaças, abusos e maus-tratos físicos. Outra organização denunciou, em maio, ameaças contra outras 90 ativistas.

“Quando nós mulheres falamos claro, sem mostrar medo, pagamos um alto preço: viver com esse medo”, acrescentou Pilar Tobón, negociadora comunitária do Programa Paz e Convivência da Prefeitura de Medellín, capital do departamento de Antioquia.

As mulheres e as crianças representam “a imensa maioria prejudicada pelos conflitos armados”, afirma a Resolução 1325 do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, que completará dez anos no dia 31.

Neste país de 45 milhões de habitantes, 75% dos deslocamentos forçados são de população feminina e infantil, segundo a Assembleia Nacional pela Paz. A Colômbia é o segundo país do mundo com mais população deslocada interna, que já passa dos quatro milhões de pessoas.

Entre julho de 2002 e dezembro de 2007, o conflito causou a morte de 1.314 mulheres e o desaparecimento de 179. Em cada 103 vítimas de abuso sexual no contexto do conflito, cem são mulheres e meninas, acrescenta a entidade.

Por isso, “a resolução é importante em termos formais, pois ressalta o papel feminino na conquista da paz, e chama os atores armados a respeitarem os direitos das mulheres”, disse ao Terraviva María Eugenia Ramírez, da Mesa Mulher e Conflito Armado.

Seu grande déficit é que “compromete o Estado colombiano na implementação de medidas, esquecendo que este faz parte do conflito com suas forças militares”, disse María Eugenia, acrescentando que, para o “direito humanitário, têm responsabilidade tanto a insurgência quanto o Estado”.

Portanto, “é urgente agenciar o compromisso político governamental com as organizações de mulheres, gerar mecanismos e estratégias que tornem visíveis suas contribuições em processos de paz e sua permanência neles”, acrescentou Esmeralda Ruiz, assessora de gênero e direitos humanos do Fundo de População das Nações Unidas. “Esse é o sentido da resolução”, acrescentou.