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Nem segundo turno politizou o debate

Segundo analista, campanha foi a de nível mais baixo desde fim da ditadura


Renato Godoy de Toledo

da Redação

As eleições de 2010 foram marcadas pela forte presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o primeiro mandatário a fazer campanha para seu sucessor, vista sua alta popularidade. Mas a presença de Lula não foi a única marca dessa campanha: a sucessão de denúncias e escândalos também deu a tônica do debate.

Em conluio com a grande imprensa, os escândalos do governo Lula foram martelados diariamente na campanha de José Serra. Analistas apontam que esse fator, aliado ao crescimento de Marina Silva, foram fundamentais para levar a disputa para o segundo turno.

Quando se imaginava que o reinício da campanha pudesse colocar em voga as diferenças políticas entre as duas candidaturas, a nova etapa iniciou-se com temas retrógrados, pondo em dúvida a religiosidade de Dilma e a questão do aborto.

No primeiro debate, na Rede Bandeirantes, a candidata petista começou a bater em uma tecla que trouxe um pouco de politização aos debates, as privatizações da era Fernando Henrique Cardoso. Serra logo sentiu a investida da campanha petista e passou a desmentir as afirmações de que iria privatizar o pré-sal e a Petrobras. Falou até em “reestatizar” empresas que hoje estariam sobre controle privado de aliados do governo.

Em um segundo debate, na Rede TV!, os escândalos apareceram apenas nas perguntas dos jornalistas. Os candidatos se concentraram nos temas em que tinham desempenho mais bem avaliado pelas pesquisas qualitativas dos seus marqueteiros. Dilma fazia as comparações entre os governos Lula e FHC, enquanto Serra exaltava sua experiência e tentava colar na petista o rótulo de “antipaulista”. Aborto e religiosidade saíram de cena, exceto nos “graças a Deus” proferidos por ambos.

Bolinha de papel

No entanto, a melhora do nível da campanha não se consolidou. O “escândalo” da bolinha de papel arremessada em Serra ocupou o espaço dos programas eleitorais do PT e do PSDB. O Jornal Nacional consultou o perito Ricardo Molina, da Unicamp, para negar a versão do PT – de que o tucano fora atingido apenas por uma bolinha de papel. Serra também foi atingido por algo semelhante a um rolo de fita, teria desvendado o perito.

Para o sociólogo Rudá Ricci, o pleito de 2010 ficará marcado como o de pior nível político desde a redemocratização do país. “Foi, de longe, a pior campanha presidencial desde o fim do regime militar. Uma campanha rebaixada, personalizada, despolitizada. O resumo da ópera é a falta de programas de governo, pela primeira vez na história dessa disputa. A causa é a falência do sistema partidário brasileiro: ele não consegue mais representar os anseios da população. Representam os anseios dos financiadores que, muitas vezes, chocam-se com os desejos populares. O que faz uma campanha ficar totalmente à mercê dos malabarismos de marqueteiros”, analisa.

Como se não bastasse o rebaixamento do debate político, a campanha ainda será lembrada por ter reintroduzido temas do “submundo” da política ao debate eleitoral, como a criminalização do aborto e a fé religiosa dos candidatos como pré-requisito para governar o país.

“Para piorar, os temas do ultraconservadorismo que emergiram no final do primeiro turno abalaram ainda mais a luta pelos direitos civis em nosso país. Os candidatos se rebaixaram ainda mais para conquistar lideranças fundamentalistas. Não abriram o debate. Apenas recuaram”, aponta Rudá.

Fator Lula

Desde a redemocratização do país, um governo terminar o mandato na casa dos 80% de aprovação é um fato inédito. Lula foi o principal cabo eleitoral da candidata do PT e recebeu críticas de adversários e multas da Justiça por isso. As últimas pesquisas, anteriores ao fechamento desta edição, em 26 de outubro, apontavam que Lula conseguia transferir seus votos a Dilma. Porém, entre aqueles que consideravam seu governo como “bom”, os votos eram divididos entre os dois candidatos.

Para o sociólogo Rudá Ricci, essa situação é reflexo da má formação política do Estado brasileiro – assunto, aliás, que não foi discutido durante o certame. “Sempre houve [“presidente-cabo eleitoral”], mas não tão declaradamente. A alta popularidade e o poder cada vez mais centralizado no governo federal acabam propiciando essa distorção”, explica.