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Presidenta de um país machista

Segundo analistas, eleição de Dilma é, simbolicamente, fundamental; expectativa é por aumento de mulheres na política





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03/11/2010

Patrícia Benvenuti

da Redação

A eleição de Dilma Rousseff (PT) para a Presidência da República representa um marco para a história do Brasil que, pela primeira vez, será governado por uma mulher.

Para a integrante da Coordenação Nacional da organização Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), Maria José Rosado, a vitória de Dilma significa uma conquista para as mulheres. “É um fato histórico, do qual nós devemos nos encher de orgulho”, afirma.

A militante da Marcha Mundial das Mulheres (MMM), Nalu Faria, também ressalta que a vitória é importante não apenas por ser a eleição de uma mulher, mas de uma mulher que construiu uma trajetória política. “É extremamente importante, ainda mais por ser uma mulher do campo da esquerda. A Dilma tem um significado a mais”, destaca. Para Maria, houve uma ambiguidade em relação à imagem de Dilma em sua campanha, que a mostrava sob diferentes matizes. Ainda assim, ela avalia que o resultado final foi positivo. “Ao mesmo tempo em que Dilma passou uma imagem de mãe, de proteção, reforçou a imagem de que a mulher pode governar, pode gerir”, pontua.

Participação política

A expectativa é de que a vitória de Dilma possa influenciar a participação de outras mulheres na política. Apesar de alguns avanços, tal presença nessa esfera ainda é pequena no país, o que se refletiu no resultado das eleições deste ano. A bancada feminina na Câmara dos Deputados encolheu de 47 para 43 integrantes. Já no Senado, oito mulheres foram eleitas – com isso, serão 12 senadoras a partir de 2011, em um total de 81 membros. Já entre os 27 governadores eleitos, apenas duas são do sexo feminino.

“Simbolicamente, [a eleição de Dilma] é importante para que as novas gerações de mulheres olhem para a Dilma e queiram ser alguém, ter um cargo para trabalhar pelo povo e pela democracia. Isso será bom para o Brasil”, aposta Maria.

Em seu primeiro discurso depois da confirmação da vitória, no dia 31 de outubro, a presidenta eleita classificou sua eleição como “uma demonstração do avanço democrático” no país. “Registro aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade”, afirmou.

O simbolismo da eleição da primeira mulher para a Presidência também é ressaltada pelo pesquisador do Centro de Pesquisa e Apoio aos Trabalhadores (Cepat) de Curitiba (PR), César Sanson. Segundo ele, o fato ganha ainda mais força por ocorrer em uma sociedade conservadora como a brasileira. “Há um simbolismo nesse fato que se aproxima à eleição de um operário e remete para a questão cultural”, diz.

Nesta perspectiva, ele destaca que a eleição de novos atores contribui para a construção de novos valores para a sociedade. “No Brasil, o trabalhador, o indígena, o negro e a mulher nunca tiveram a valorização devida. Nessa perspectiva, é um avanço enorme. O próximo desafio será a eleição de um negro para fazer outra revolução – socioeconômica e cultural”, afirma.

Preconceito

Se o desafio de eleger a primeira mulher foi superado, Dilma Rousseff terá também, a partir de agora, que lutar contra os preconceitos que surgirão em seu caminho. Nalu Faria prevê que Dilma enfrente desafios adicionais em sua gestão por ser uma mulher, condição que poderá ser usada para desqualificá-la. “No início do governo Lula, explorava-se muito o preconceito de classe e, agora, com ela [Dilma], vai ser o fato de ser uma mulher. No debate, já houve essa tentativa de desqualificação, por ser a indicada de Lula. Foi assim, também, com outras mulheres presidentas, com a [Michelle] Bachelet [ex-presidenta do Chile], com a Cristina [Kirchner, atual presidenta da Argentina]”, afirma.

Já Maria recorda que a campanha deixou evidente o machismo que ainda predomina na sociedade. Nesse sentido, ela critica o candidato derrotado José Serra (PSDB). “Serra colocou Dilma como uma bonequinha vazia e, com isso, estava dizendo que nós, mulheres, não conseguimos governar”.

Ela destaca que o episódio mais lamentável, porém, ocorreu já nos momentos finais da campanha. Durante um discurso em Uberlândia (MG), no dia 28 de outubro, José Serra aconselhou que as “meninas bonitas” conseguissem votos de seus “pretendentes”. “Se é menina bonita, tem que ganhar 15 [votos]. É muito simples: faz a lista de pretendentes e manda e-mail dizendo que vai ter mais chance quem votar no 45”, disse ele, segundo matéria publicada pela Folha de S.Paulo. “Isso é de um extremo machismo, é inaceitável. É como se [Serra] estivesse oferecendo as mulheres em troca de um voto”, acusa Maria.

Avanços

Simbolismos à parte, Nalu acredita que Dilma Rousseff não trará grandes mudanças, em geral, para o país. Na sua avaliação, a tendência é de que ela siga o governo anterior. “Não consigo prever muito em outras áreas, mais parece uma continuidade do governo Lula”, diz. A militante da Marcha Mundial das Mulheres espera, pelo menos, que Dilma propicie alguns avanços para as mulheres, como o incremento de políticas públicas. “É preciso um fortalecimento da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, mas a própria Presidência deve assumir o compromisso de que os outros ministérios incorporem essa questão [de gênero]”.

O tema da descriminalização do aborto é outro anseio das organizações feministas. Para a integrante da organização Católicas pelo Direito de Decidir, o assunto precisa ser discutido, e não rejeitado, como ocorreu durante a campanha eleitoral. “Os dois candidatos ‘correram da raia’ e se recusaram a discutir a questão como deve ser discutida. Um chefe de Estado deve discutir isso”, aponta Maria.