Brasil de Fato

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A locomotiva e seu “vagão de luxo”

Crise compartilhada e “guerra cambial” desvelam a ainda forte hegemonia do dólar


Eduardo Sales de Lima

da Redação

A “guerra cambial”, protagonizada por Estados Unidos e China, trouxe à tona mais um capítulo dos desdobramentos do processo da crise econômica internacional desencadeada a partir do segundo semestre de 2008. Sua atual fase desvelou ainda mais a hegemonia política e econômica estadunidense no mundo.

Vejamos. O banco central estadunidense, o Federal Reserve (Fed), injetou, no começo de novembro, cerca de 600 bilhões de dólares na economia através da compra de títulos públicos de longo prazo. A intenção é reduzir ainda mais as taxas de juros cobradas em hipotecas e outras dívidas. Assim, ao facilitar empréstimos, as pessoas seriam estimuladas a gastar mais e, por consequência, as empresas teriam incentivo para contratar mais.

Porém, esse “mar de dólares” vem provocando sua desvalorização pelo mundo afora. O que quer dizer que o outro objetivo levado a cabo pelo governo de Barack Hussein Obama, o de estimular uma agressiva política de exportação, também tem surtido efeito. “Em última instância, a estratégia dos estadunidenses é procurar reduzir seu deficit comercial, que hoje é muito elevado”, explica o presidente do Conselho Regional de Economia (Corecom-RJ), Paulo Passarinho.

A crise foi compartilhada. O setor exportador de muitos países, sobretudo dos emergentes, ficou prejudicado. O aumento da circulação de dólares nesses países barateou a moeda estadunidense e sobrevalorizou as moedas locais, prejudicando as vendas ao exterior.

A estratégia do FED elucida ainda mais a atual fase do sistema econômico em que vivemos. “Na sua marcha, o capitalismo não tem nenhum pudor em queimar parte de seu próprio corpo, para depois crescer de outra maneira, mais concentrado, mais fi nanceirizado, e isso, evidentemente, vai deixando as margens de manobra cada vez mais estreitas”, explica Paulo Passarinho.

Tensão

Estreitas, mas possíveis. O governo estadunidense, num comportamento ainda mais agressivo, não se contentou em desvalorizar o dólar e transportar sua crise para o resto do mundo. Agora, o país, para além do viés econômico, lançou mão de seu poder político e iniciou uma forte pressão sobre a China para que o país asiático permita uma sobrevalorização de sua moeda, o iuan.

Emerge, aqui, o cerne da chamada “guerra cambial”. Isso porque, grosso modo, com o iuan valorizado, a China perderia, sobremaneira, a força de suas exportações, visto que o baixo preço de seus produtos é um dos principais trunfos para a entrada de grandes divisas no país asiático.

Desde julho de 2008, a taxa de câmbio da moeda chinesa é praticamente fixa em relação ao dólar, com uma variação máxima de 0,5%. “O iuan colado ao dólar mantém a competitividade das exportações chinesas. O problema é que essa guerra comercial acaba nos revelando de forma dramática esse processo de desvalorização de moedas por meio do qual, a rigor, a China, que quer manter sua posição competitiva no mercado internacional, procura não deixar sua moeda se descolar do dólar”, explica Paulo Passarinho, lembrando que países como o Brasil, com câmbio flutuante, foram consideravelmente prejudicados no comércio exterior.

Em artigo, o economista Michael Hudson, da Universidade do Missouri, salienta que pequenas revalorizações do iuan não seriam a solução que o governo dos Estados Unidos pedem, a menos que a revalorização fosse “enorme” – em torno de 40%.

Vagão de luxo

Apesar da dificuldade que o governo dos Estados Unidos tem em fi nanciar o defi cit público com recursos de investidores internos e dos bancos centrais dos países superavitários, a atual “tensão cambial” tem mostrado como a economia mundial ainda é e será, por um bom tempo, regido pelo dólar, pelo menos de acordo com Reinaldo Gonçalves, professor de economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

O lastro dos Estados Unidos é sua hegemonia no mundo. A China ainda é uma vagão de primeira classe. O Brasil é um vagão de 5ª classe, e os Estados Unidos ainda são a locomotiva”, explica. Para ele, ainda levará muito tempo para o dólar deixar de ser a moeda referência para as trocas comerciais.

Justamente por causa da força de empresas estadunidenses e do peso do dólar, “não é completamente incongruente para os interesses dos Estados Unidos essa situação chinesa, porque os chineses, com sua situação superavitária, ajudam a financiar o deficit estadunidense, na medida em que são os principais detentores dos títulos do país”, explica Paulo Passarinho.

A interdependência sino-estadunidense é mais intrínseca que isso. “Essa simbiose entre a economia estadunidense e a economia chinesa existe também no campo produtivo; boa parte das exportações chinesas são de produtos de empresas estadunidenses instaladas dentro da China”, destaca Passarinho.

Segundo ele, grande parte do setor de bens de consumo duráveis com origem nos Estados Unidos se transferiu para a China. “Hoje, existe uma quantidade formidável de empresas estadunidenses que se beneficiam da política com o iuan desvalorizado”, conta. Por isso, segundo ele, “a situação é muito mais complexa do que se imagina à primeira vista”.

Hegemonia

Além dos benefícios a empresas estadunidenses no território chinês, como a Microsoft, por exemplo, salta aos olhos os limites econômicos que o governo estadunidense impõe ao capital chinês, desvelando a ainda forte hegemonia política que os Estados Unidos detêm sobre o país asiático e o resto do mundo.

Michael Hudson explica que a economia estadunidense, credora de países estrangeiros, insiste em que eles paguem pelas suas dívidas externas e deficits comerciais em curso por meio da abertura dos seus mercados e até mesmo por meio da venda da sua infraestrutura pública chave, indústrias, direitos minerais e elevadas encomendas a investidores estadunidenses. Mas o governo dos EUA tem impedido países estrangeiros de fazerem o mesmo com o seu próprio país.

Assim, segundo Hudson, o fato de a China não poder comprar companhiaschave estadunidenses é, em grande medida, responsável pela situação assimétrica entre os dois países: enquanto investidores estadunidenses ganham 20% ao ano com a taxa de juros ao comprar ativos na China, o ganho dos investidores chineses, ao “reciclarem” estes dólares para Washington, é de apenas 1%. Como os chineses precisam se livrar desses dólares em excesso comprando títulos estadunidenses, as perdas em muitos investimentos do setor privado dos Estados Unidos ficam reduzidas.